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Palhaço de Folia é um dos vários nomes pelos quais são conhecidos os brincantes mascarados que integram as Folias de Reis. Dependendo da região do Brasil, eles também podem ser conhecidos como Bastiões, Cireneus ou Marungos. E cada um revela, em seu significado, um pouco mais sobre esse personagem misterioso.
Cireneu faz referência a “Simão de Cirene”, o carregador da cruz. Ele foi um homem obrigado, pelos soldados romanos, a carregar a cruz de Cristo até o Gólgota − local onde Jesus foi crucificado. O Cireneu mascarado é, assim, um penitente. Não é sem motivo que é muito comum que as pessoas assumam a figura do palhaço (uma das mais controversas da folia) justamente para pagar uma promessa.
Já Bastião é um dos nomes genéricos pelos quais personagens ligados ao povo negro são normalmente batizados em contos e brincadeiras populares. É uma corruptela de “Sebastião” e serve para nos mostrar como a Folia, apesar de ser uma festa fundamentalmente católica e introduzida pelos portugueses, recebeu tanta influência do negro, que seu brincante mais notório passou a ser reconhecido como um.
Essa influência está nas danças, no ritmo, nos tambores e no próprio povo. Interessante notar ainda que muitas folias visitam terreiros de umbanda e candomblé e prestam suas homenagens aos orixás, assim como prestariam aos santos que encontrariam ao visitar uma casa católica. Um importante sinal de respeito e integração.
Mas o que realmente revela a influência afro-brasileira no Palhaço de Folia é o último nome: Marungo. Sua origem é da palavra “malungo”, usada pelos negros escravizados no Brasil Colônia no sentido de companheiro, irmão de criação, pessoa na mesma condição. Meu malungo. Meu marungo. A etimologia viria da língua do Congo: partilhando radicais com palavras que significariam vizinho e navio. Intelectuais como o pernambucano Pereira da Costa suporiam, então, que se trata de uma referência àqueles que passaram pela mesma experiência dos navios negreiros.
Já quanto à Folia de Reis, ela também possui vários nomes. Ela pode ser chamada genericamente de “Reisado”, mas é importante não confundir com o “Reisado do Congo” – como são chamadas as festas de coroação de reis e rainhas africanos. Outras vezes, são chamadas de “Terno de Reis”, o que faz referência aos Três Reis Magos, aqueles que vieram do Oriente guiados pela Estrela de Belém, para presentear o menino Jesus.
Há ainda um outro nome, talvez menos comum: “Caravana de São Francisco de Assis”. O lastro disso é histórico: as folias chegaram ao Brasil por meio dos jesuítas, durante os esforços de catequese na colonização dos povos indígenas. E foram duas as suas influências principais: o teatro português de Gil Vicente e os presépios vivos − encenação criada por São Francisco de Assis, em 1223.
Existem algumas tentativas de identificar uma regra nas nomenclaturas. O “Terno de Reis”, supostamente, não teria palhaços, e assim por diante. Na prática, todavia, o povo é muito menos rígido com esses limites. Vai de grupo para grupo. Alguns mestres de Folia possuem mais de uma dezena de palhaços em suas companhias. Outros, por sua vez, não possuem nenhum e rejeitam o brincante tanto por sua irreverência quanto pelo seu caráter profano.
Existem várias narrativas tradicionais que explicam o surgimento dos palhaços. Em alguns lugares, eles vão ser vistos como diabos; em outros, como o próprio Herodes, o Grande – aquele que mandou matar todas as crianças com menos de 2 anos, quando soube do nascimento de Jesus. Em uma das versões mais conhecidas, eles seriam, na verdade, os soldados de Herodes − enviados para espionar os Três Reis Magos em sua busca por Jesus. Seu objetivo era, ao descobrir o local do nascimento de Cristo, voltar e entregar sua posição, para que o rei da Judeia o matasse.
No entanto, a tradição diz que eles se arrependeram, converteram-se ali mesmo e passaram a despistar os perseguidores. Por isso é que, em algumas regiões, a tradição manda os brincantes de Folia a nunca voltarem pelo mesmo caminho que fizeram ao visitar os presépios casa a casa. Para além disso, o papel do festeiro é, simbolicamente, distrair as ameaças e permitir a passada do cortejo.
A Folia de Reis acontece, especialmente, entre os dias 24 de dezembro e o Dia de Reis, em 6 de janeiro. Em algumas cidades em que São Sebastião é padroeiro, como é o caso do Rio de Janeiro, o dia do santo também entra na celebração, que tem saída especial no dia 20 de janeiro. As folias continuam atuantes, visitando casas e reunindo recursos para sua Festa de Arremate: o grande encerramento, aberto para a comunidade. Existem arremates que acontecem até o mês de junho.
Guia a folia um Mestre, acompanhado de Contramestre e do alferes, que leva a bandeira. Para os mais tradicionalistas, o palhaço nunca deve passar na frente da Bandeira – o que sempre gera comentários maldosos quando acontece.
PALHAÇO DE FOLIA
Pontos de Força: 1
Pontos de Vida: 6
Tipo: Gente
Elemento: Fogo
Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você e o oponente não podem enfrentar o Desafio por um turno. Você neste turno, e ele no próximo.
Efeito: Pausa
Citação: "Não tenha medo do palhaço. Ele dança para chamar atenção dos soldados!"
Artista: Lorena Herrero (HET)
– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012.
– GORZONI, Priscila de Paula. Os mascarados das Folias de Reis: uma análise das máscaras da Companhia Santa Cecília, de São Caetano do Sul no ABCD paulista, e da Companhia da Serraria, de São Thomé das Letras, no Sul de Minas Gerais (2009-2912). Dissertação (mestrado em Ciências da Religião), PUC-SP, São Paulo, 2014.
– LIMA, Rossini Tavares de. Folguedos populares do Brasil. São Paulo: Ricodi, 1962.
– NORONHA, Regina. O Natal no folclore brasileiro. Revista Geográfica Universal. Rio de Janeiro: Bloch, v. 109. n. 12, p. 17-25, 1983.
– PERALTA, Patricia. Palhaços & Personagens da Folia de Reis do Estado do Rio. Revista Interfaces, v. 8, n. 1, 2002.
Ai! Eu tenho medo das caiporas
que andam pelas florestas a vagar…
No azul cansado brilha
primeiro o olho vivo da Papa-Ceia!
E eu vejo a boca-da-noite
mastigando o sol
como um fruto passado.
– Boca-da-noite, 1927
Ascenso Ferreira
O planeta vênus tem grande importância na astronomia mundo afora. Brilhante, facilmente destacada pelo céu, dizem que é a primeira “estrela” a aparecer tanto na madrugada quanto no anoitecer. No passado, inclusive, achava-se que eram duas: a Estrela da Manhã (ou Estrela D’alva) e a Estrela Vespertina.
Na tradição portuguesa, assim como no Brasil, o planeta era chamado “Papa-Ceia”. Afinal, sua aparição pelas tardes coincidia com a hora do jantar dos tempos sem energia elétrica. Isso servia, inclusive, de alerta para as crianças: não deveriam chegar em casa tarde, do contrário a Papa-Ceia já teria devorado todo o alimento e elas iriam para a cama de estômago vazio.
Outro nome pelo qual a estrela é conhecida é de “Boieira”, uma vez que ajuda a conduzir, indicando a hora da manhã, o gado ao curral. O cantor e compositor gaúcho Telmo de Lima Freitas resume em versos sua importância:
“Estrela boieira, sinuelo da noite
Que mostra ao tropeiro o rumo a seguir
A noite se prancha nas barras do dia
E a estrela boieira começa a sumir.
Se muda pra outra invernada do fundo
Sem deixar o rastro pra onde se foi
O dia já claro, o tropeiro canta
Ao som do mugido da tropa de boi.
Os bichos do campo festejam o dia
Quebrando o silêncio do amanhecer
O tropeiro canta sua toada tropeira
Lembrando a boieira do seu bem-querer”.
PAPA-CEIA
Tipo: Saberes
Elemento:
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Dharylia
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Parafusos é o nome que se dá a um grupo de brincantes da cidade de Lagarto, no interior de Sergipe. Na cabeça, traz um chapéu cônico, emoldurando seu rosto pintado de barro branco – chamado tabatinga. Já seu corpo é coberto de anáguas, como saias bem drapeadas, que rodam de um lado para outro, conforme o festeiro gira e dança.
Essa é a brincadeira dos parafusos, como eterniza a música que sempre acompanha a apresentação do grupo: “Quem quiser ver o bonito, saia fora e venha ver. Venha ver os parafusos, a torcer e distorcer!”.
Os parafusos retomam, na forma de manifestação cultural, um episódio que marcou a alma da cidade e remete ao período da escravidão. No entanto, vale ressaltar, há muitos pontos imprecisos na história deste grupo, que é o único do gênero no país.
Muito do que se sabe sobre a tradição vem da história oral, especialmente a partir do depoimento de Benedito Puciano ao historiador Adalberto Fonseca, em 1968. Filho de africanos, Benedito foi escravizado na Fazenda Piauí e integrou o grupo original, posteriormente batizado como Os Parafusos. Na época da entrevista, afirmava ter 117 anos de idade.
Benedito contava que, para conseguirem fugir das fazendas e dos engenhos para os quilombos, muitos escravizados passaram a roubar as anáguas das sinhazinhas que passavam a noite no quaradouro – onde ficavam para branquear. Era costume, na época, usar “anáguas de sete côvados, que ficavam bem rodadas e ornadas, com rendas e bicos franceses muito em moda no século passado”. Um contraste com as roupas de algodão (as baetas e baetilhas) dos escravizados. O roubo, dizem, inicialmente seria para servirem de cobertor. Depois, perceberam outra utilidade.
Os negros vestiam várias peças, umas sobre as outras, na cintura e no pescoço, deixando as mãos livres para a ação. Pintavam o rosto de branco com a mistura de água e barro para, por fim, reforçarem a impressão de serem almas penadas correndo, girando e gritando. O medo dos brancos ajudava a mascarar suas ações.
Em Lagarto, alguns relatos mais romanceados dizem que, com a abolição da escravatura, em 1888, negros invadiram a sede do município para girar com suas anáguas em celebração. O que Benedito conta é que, após a libertação, vestir-se com as anáguas continuou a ser feito na forma de brincadeira. Um ato lúdico, mas que também era um deboche contra os antigos patrões.
Conforme o velho brincante, foi então que o vigário da época, José Saraiva Salomão, teria dito que “os pretos rodopiavam feito uns parafusos, a torcer e a distorcer”. Teria sido ele também a reunir os negros, como já se fazia com as louvações a São Benedito, e os convencido a trocar os gritos pelas loas que cantam, adicionando um grupo de tocadores que acompanham com zabumbas e sanfonas. Inclusive, seria dele a mais famosa música cantada até hoje, o “quem quiser ver o bonito”, mencionado anteriormente.
Os fatos, talvez, não se mostrem da mesma ordem como narrados. A data apresentada como a de criação oficial do grupo é o dia 7 de setembro de 1897. Será mesmo, ou foi uma data escolhida pelo seu sentido pátrio? E quanto ao padre batizador, a historiadora Aglaé Fontes de Alencar aponta que o pároco atuou apenas até 1860, bem antes da abolição e da fundação do grupo. Em Câmara Cascudo, encontramos menção ao pernambucano Jayme Griz, em que registra como cantiga infantil a música “Quem quiser o parafuso / saia fora e venha ver / venha ver o parafuso / até o dia anoitecer”, entoada enquanto giravam a tontear. Seria então a música dos parafusos uma adaptação de canção infantil que já circulava na cultura popular?
O folguedo sofre uma série de transformações ao longo dos anos. Até a década de 1960, eram 21 brincantes, sendo que um deles vestia-se de indígena, em referência aos povos originários que teriam colaborado com a fuga dos escravizados para os mocambos. Depois de reativado, no final da década de 1970, o Parafusos passou a ser composto por 13 brincantes, já sem o personagem indígena.
Nos anos 1960, os brincantes usavam chapéu de palha, com um acessório que lembrava uma mola ou espiral. Na década de 1980, a indumentária era composta de um traje branco com cinco anáguas, do pescoço até os pés, e chapéus de ráfia, com uma fita vermelha amarrada ao redor. Durante muito tempo, dançou-se descalço, como os escravizados. Depois, passou a se dançar com um sapato Conga. Hoje, usam-se sandálias brancas. Bandeira e fita seriam acrescentadas para “homenagear a cidade de Lagarto”, algo abolido na década de 2000.
Os Parafusos são o folguedo mais conhecido de Lagarto, já tendo sido registrado como patrimônio imaterial do município e do estado. Uma estátua representando um brincante integra, inclusive, o largo da gente sergipana em Aracaju. Ainda assim, o que se percebe é a dificuldade da renovação, especialmente pelo preconceito ligado a usar saia e pintar o rosto.
PARAFUSO
Pontos de Força: 2
Pontos de Vida: 3
Tipo: Gente
Elemento: Noite
Habilidade:
Envie uma carta da Mão para o Beleléu. Até o fim do turno, esta carta valerá por duas, ao enfrentar qualquer Desafio. A carta vai para o Beleléu depois disso.
Efeito: Parceira
Citação: "Eles fugiam feito fantasmas. As anáguas das sinhás eram parte do assombro."
Artista: André Vazzios
– ALENCAR, Aglaé d’Ávila Fontes de. Danças e folguedos: iniciação do folclore sergipano. 2. ed. Aracaju: s.r., 2003.
– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2002.
– OLIVEIRA, Irineu Roberto de. A saga dos Parafusos de Lagarto: resistência e ressignificação. 2002. 120f. Trabalho de conclusão de Curso. Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2002.
– SANTANA, Flávio. DÉDA, Talita. A Folkcomunicação a partir do grupo folclórico Parafusos. Anais. XIX Congresso de Ciências da Comunicação – Intercom. Fortaleza, 2017.
Mãos calejadas pelo trabalho não poderiam ser mais gentis na hora de conduzir uma nova vida ao mundo. Este é o trabalho das parteiras, que embalam, com cantos, rezas, ervas e movimentos precisos da mão, o nascer do rebento. Cada detalhe do pré-natal popular é acompanhado com atenção e afeto por essa mestra dos saberes tradicionais; fundamental, especialmente para as mulheres em lugares onde a saúde pública é deficiente.
Para aliviar o sofrimento da mãe, é muito comum que as parteiras forrem o leito do parto com couro de gambá (ou sariguê). Ou, ainda, que passem a banha do animal sobre a barriga da mulher. O costume remete a um conto popular cristão do ciclo da fuga para o Egito. Nele, dizem que, enquanto escapavam dos soldados de Herodes, José e Maria se viram tão estressados, que o leite da mãe de Jesus secou.
Desesperada, vendo o filho com fome, ela pediu ajuda aos animais da terra. O único que se aproximou foi a gambá fêmea, que deixou o menino Jesus se alimentar de seu leite. Em agradecimento, Maria a abençoou para que sua prole nunca sofresse das dores do parto. O uso da gordura do gambá nos partos de hoje é uma simpatia: uma ação no mundo físico que busca um efeito mágico.
Além de acompanhar o próprio parto, outra das tarefas da parteira é orientar sobre o corpo feminino, tanto no que diz respeito aos ciclos menstruais quanto no período de resguardo (ou puerpério). A parteira Zenaide de Souza Carvalho, no Acre, por exemplo, tem um projeto em que ensina a confecção de absorventes caseiros. O objetivo é combater a chamada “pobreza menstrual”, oferecendo mais dignidade a essas pessoas.
Quando se está menstruada, é preciso tomar especial cuidado, pois diz-se que o corpo fica aberto às más influências. Por isso, não se deve passar por cima de lixo ou espojo de animais. Também é preciso estar atenta aos seres do entorno: na Amazônia, dizem que o Boto-Cor-de-Rosa é atraído pelo cheiro das mulheres menstruadas e é capaz de engravidá-las apenas com um olhar. Outro animal que dizem engravidar é a taturana, que é atraída pela urina com sangue e acaba levando a mulher a óbito, com uma barriga cheia de lagartas.
Para evitar cólicas menstruais, existe uma série de estratégias, sejam elas rezas, remédios ou simpatias. Uma das mais simples consiste em dispor em cruz duas folhas de coentrão (Eryngium foetidum) embaixo do lençol da mulher. No dia seguinte, é só tirar e jogar fora. A cólica se vai junto das folhas.
No pós-parto, uma das grandes queixas das mulheres é quanto à presença da Mãe do Corpo ou Dona do Corpo, que é como se chama a entidade que ficava cuidando do bebê no ventre feminino. Depois que ele nasce, ela continua procurando a criança, gerando movimentos na barriga. Esta é uma das explicações tradicionais para os órgãos que vão voltando para suas posições originais, após o nascimento.
Quanto ao ofício das parteiras, vale um alerta. Engana-se quem pensa que este saber tradicional é um contrassenso aos avanços da medicina ou da ciência. A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que 85% dos partos podem ocorrer sem intervenção médica alguma. Uma figura disposta a fornecer atenção, orientação e afeto é um grande diferencial, especialmente em comunidades onde o acesso aos serviços básicos é dificultado.
As boas parteiras, todavia, sabem a hora de encaminhar a parturiente para um médico. Se o bebê está em uma posição que a parteira não consegue virá-lo e reposicioná-lo apenas com as mãos, a cesariana é necessária. No Brasil, no entanto, os números assustam: aproximadamente 55% dos nascimentos são feitos dessa forma. Essa é a segunda maior taxa de partos por cesárea no mundo inteiro.
PARTEIRA
Pontos de Força: 2
Pontos de Vida: 4
Tipo: Gente
Elemento: Água
Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você pode, excepcionalmente, invocar uma segunda carta do tipo Gente.
Efeito: Dobradinha
Citação: "Com uma barriga pontuda dessas? Já pode encomendar o enxoval, certeza que é menino."
Artista: Nilberto Jorge
– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012.
– LEWINSOHN, Ilana. Jaçanã − causos e a vida de uma pajé pataxó. São Paulo: Baraúna, 2016.
– SILVA, Eduarda. Partejar e narrar: o ofício de parteira ao sul do Rio Grande do Sul (1960-1990). Porto Alegre: Editora Fi, 2021.
– XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas Pias Populares. São Paulo: Itatiaia, 1993.
Visagem típica do centro-oeste, mas também presente em certos rincões de sudeste e nordeste. Trata-se de uma criatura com um único olho, um único braço e um único pé que termina em um casco redondo e liso, como o fundo de uma garrafa. O rastro o torna especialmente ameaçador, já que por meio dele não se sabe a direção que o ser está tomando.
Dizem que lembra a forma de um ser humano muito peludo, e dizem ser capaz também de imitar a voz dos homens, atraindo vítimas para seu ataque. Quem o encontra fica “variado” e, em delírios, nunca mais encontra o caminho de volta para casa.
Câmara Cascudo descreve ainda outra habilidade bem frequente entre os mitos da mata: o fato de que, aquele que escuta seu chamado de longe, na verdade está cada vez mais perto do ser. E os que escutam o assobio de perto, estão é longe do perigo.
Registro notório do monstro foi publicado em 1949 pelo jornalista mato-grossense Virgílio Correia Filho. Ele descreve o Pé-de-Garrafa como uma grande ameaça aos poaieiros – como dado aos coletores de poaia (Carapichea ipecacuanha) que, na época, era muito coletada para a produção de medicamentos contra coqueluche e amebíase. Escreve:
“Duende capaz de acometer os mais destemidos mateiros. Ninguém que o veja regressará ao convívio dos amigos. Todavia, descrevem-no como unipedal monstrengo de aparência humana, que deixa rastro semelhante ao molde de fundo de garrafa. Só se mostra aos predestinados ao trágico fim. Verificar-lhe as medonhas feições não será permitido a quem evite perder o rumo do costumeiro abrigo. Ainda que o lendário inimigo não consiga estreitá-lo de encontra ao seu peito cabeludo, para lhe sugar vorazmente os olhos e deixá-lo estendido, para pasto de famintos carniceiros, o poareiro, a quem apareça, não mais acertará o caminho do rancho”.
Segundo os depoimentos, possui poder sobre os ventos e certas plantas, como alguns cipós e o pau de perdiz (Simarouba versicolor). Esta é outra constante dos mitos da mata, a capacidade de encantar cipós. Aquele que passar debaixo da planta encantada fica desnorteado.
Seu único ponto-fraco, assim como nos casos do Mapinguari, Capelobo e outros bichos-homem é o umbigo. Seu pelo é invulnerável e existem versões em que o monstro é tão cabeludo que o umbigo permanece muito bem escondido.
PÉ-DE-GARRAFA
Tipo: Desafio
Elemento:
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Igum Djorge
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A fogueira, a noite
Redes no galpão
O paiero, a moda,
O mate, a prosa
A saga, a sina
O “causo” e onça
Tem mais não
Ô peão…
– Peão (1986), por Almir Sater e Renato Teixeira
Como lembra Augusto César Proença, no Pantanal, tudo depende das águas: “São elas que condicionam os diversos tipos de lida, levam o homem a ter necessidade de mudanças nas grandes enchentes, modificam os solos, obrigam certas aves a migrar para outros lugares do planeta, empurrando o gado para cima das cordilheiras, quebram a monotonia da planície, ilhando muitas fazendas”.
O que acontece é que o Complexo do Pantanal é um bioma brasileiro caracterizado por dois momentos nítidos de transformação da paisagem. A “cheia”, de dezembro a março, e a “vazante”, de abril a junho. Durante a primeira, os rios transbordam e alagam até dois terços da planície pantaneira. Quando as chuvas se interrompem, a água passa a se dispersar lentamente, retornando à sua posição original.
A fauna e a flora silvestres, que evoluíram preparadas para este ambiente, têm adaptações que permitem a sua continuidade. Mas e quanto aos animais que ali foram introduzidos pelo ser humano?
Os bois são introduzidos na região de Mato Grosso uno a partir de 1719, com prenúncio da vocação agropecuária da região. Segundo estimativas, atualmente, existem 3,8 milhões de cabeças de boi apenas na região do Pantanal. Para o devido manejo destes animais entre os períodos de cheia e vazante, muitos fazendeiros possuem duas propriedades: uma nas partes baixas, onde o pasto vai ser mais viçoso devido às cheias que nutrem a terra; outra nas partes altas, para resguardar a criação, quando necessário.
Para movimentar os animais de uma propriedade a outra, ou mesmo para levá-los para a venda em leilões, é comum que se recorra ao trabalho das comitivas de peões. Quando um peão mora na fazenda e lá exerce seu ofício, é chamado de “campeiro”. Já quando viaja conduzindo o gado, temos o chamado peão “boiadeiro”. E é ali, vivendo no estradão, dormindo ao relento, acompanhando a gadaria, que eles vivenciam e contam histórias de visagens e assombrações; causos e anedotas.
A cultura popular do peão de comitiva também se manifesta nos fazeres. Muitos são grandes artesãos e utilizam com maestria o couro de boi, para fazer suas rédeas, laços, arreios e bruacas. Com a lã do carneiro, fazem o pelego para proteção das selas da montaria – normalmente, burros.
Outro costume é o consumo da erva-mate moída. Quando bebida com água gelada, temos o tereré. Já quando a consomem com água quente, infusionando a erva, chamam a bebida apenas de “mate” (e não “chimarrão”, como os gaúchos). A beberagem é servida numa guampa, um chifre de boi, e tomada com bombas de metal, que funcionam como um canudo com filtro ou peneira na extremidade.
Os peões se dividem em várias funções na comitiva, e uma das mais importantes – e mais perigosas – é a do Ponteiro. Ele é o Guia, o que vai à frente da boiada, e é o único que carrega um berrante. O instrumento é feito do chifre de boi, e ele é tocado para auxiliar na condução da boiada e para comunicação com os outros boiadeiros. O perigo, no caso, está no estouro da manada; como o Ponteiro anda na frente, é ele que costuma ser a vítima.
Para conseguir emitir sons, o berranteiro precisa dominar a embocadura do instrumento, produzindo sons graves ou agudos. Existem alguns toques consolidados, que têm sua função estabelecida.
Toque de Saída ou Do amanhecer serve para a retirada do gado do mangueiro ou para despertar a boiada pela manhã. O Estradão, para reanimar a boiada na estrada. Temos, ainda, o Toque do Almoço ou Queima do Alho para avisar o momento de parar para a refeição; o Alerta ou Rebatedouro, para avisar de qualquer perigo; e, é claro, o Floreio. Este não tem função direta, é um toque livre, de divertimento.
PEÃO DE COMITIVA
Pontos de Força: 2
Pontos de Vida: 3
Tipo: Gente
Elemento: Água
Habilidade:
Envie uma carta da Mão para o Beleléu. Até o fim do turno, esta carta valerá por duas, ao enfrentar qualquer Desafio. A carta vai para o Beleléu depois disso.
Efeito: Parceria
Citação: "Quando a Comitiva Esperança chega, você já sabe o que esperar!"
Artista: Augusto Figgliagi
– DUARTE, Alexsander Jorge. De sinal sonoro a marco sonoro: a recontextualização do berrante no Brasil e sua presença na música raiz do centro-sul brasileiro. Post-ip: Revista do Fórum Internacional de Estudos em Música e Dança, v. 2, n. 2, 2013, p. 9-20.
– LEITE, Maria Oliveira Ferreira. Comitiva de boiadeiros no Pantanal Sul-Mato-Grossense: Modos de vida e leitura da paisagem. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental, USP, São Paulo, 2010.
– PROENÇA, Augusto. Pantanal: Gente, tradição e história. 3. ed. Campo Grande: UFMS, 1997.
Pelznickel, por vezes chamado também de Belznickel ou, na pronúncia popular, “Pensenickel”, carrega em sua etimologia a origem do seu mito. O Nicolau das Peles, ou “Nicolau Peludo” – como traduzem os que ainda carregam o dialeto badense (de Baden, na Alemanha) – é um mito derivado, sendo sua principal referência São Nicolau. Mas quem teria sido o santo?
Jacopo de Varazze, arcebispo de Gênova e autor de um livro apenas com biografias de santos, no século XIII, narra uma história bastante conveniente sobre São Nicolau. Diz o texto que ele, ainda na juventude, descobriu que um vizinho – nobre, porém falido – se viu obrigado a prostituir suas três filhas virgens para sobreviver. Nicolau então lançou por três vezes um saco de ouro às escondidas na casa do homem para salvar o destino das meninas. Quando foi descoberto, o homem se ajoelhou e beijou-lhe os sapatos, mas Nicolau o fez prometer que nunca contaria a ninguém sobre seus atos. Há aí um princípio narrativo que nos leva à generosidade, ao segredo, ao mistério e aos presentes.
Curiosamente, o ato de presentear os outros durante o Natal tem um desdobramento igualmente cristão. A presença dos três reis magos, que levaram oferendas ao Jesus menino, marca o imaginário popular como um período de dar graças e compartilhar afetos na forma de lembranças. Isso muito antes da festa ser cooptada pelo mercado.
Como chegaremos de São Nicolau ao Pelznickel e ao Papai Noel vermelho que conhecemos hoje? Os caminhos são tortuosos. As narrativas de suas vitórias contra demônios, milagres e especialmente sua generosidade fez com que São Nicolau se tornasse uma figura presente no catolicismo popular na Europa germânica, especialmente em seu dia: 06 de dezembro. No entanto, o personagem era visto como um presenteador severo, que dava benesses mas castigava com seu cajado aqueles que não se mostravam bondosos e merecedores.
Porém, como aponta o historiador Gerry Bowler, isso acaba mudando com a Reforma Protestante de Lutero de 1517. Nela, instaura-se a lógica de que a única forma de conhecer a Deus era a partir de Cristo. Todos os santos, portanto, passam a ser suprimidos e as próprias igrejas passam a desestimular a presença de Nicolau nos festejos do natal. Durante esse período, ele é substituído por uma figura que hoje, em Guabiruba/SC, convive lado a lado com o monstro peludo: é a Christkindl (Menino Jesus). Apesar do nome, este personagem é sempre representado por uma mulher, normalmente loira e com asas de anjo. A Christkindl até hoje é a grande presenteadora do natal.
Escreve Jacob Grimm, em sua “Mitologia Teutônica” de 1835 que, com a ausência do santo e a pureza extrema da Christkindl, outros personagens precisaram ocupar o lugar de castigador – servindo, justamente, como um contraponto para reforçar a bondade do outro. Isso é algo bastante recorrente no catolicismo popular, e no nosso folclore, por exemplo, é comum representar São Pedro como impulsivo, violento e até mesmo capaz de ceder a prazeres sexuais para ressaltar a santidade de seu companheiro de viagens, Jesus. No caso alemão, se os santos estão proibidos, um rescaldo do imaginário pagão passa a caminhar ao lado da Christkindl na forma de espíritos e duendes.
Com a contrarreforma, São Nicolau volta a ser um personagem dos festejos populares do ciclo de natal na Alemanha, mas já ocupando uma outra posição. Paulatinamente, ele próprio vai se tornando um ser folclórico. Grimm conta que, por vezes, fala-se de um duende chamado Nikolas que seria uma derivação do santo. Igualmente comum é fazer com que o santo caminhe com um ajudante capaz de representar seu aspecto castigador: o Knecht Ruprecht – que se torna mais monstruoso com o passar do tempo. O mesmo acontece com austríaco Krampus, que também recebe uma versão brasileira na cidade de Treze Tilias, em Santa Catarina. Entre os castigos mais comuns estava a surra de cajado, a ameaça de levar crianças desobedientes nos sacos, jogá-las na água ou fazer seus olhos se esbugalharem.
Não foi sem surpresa que a partir do século XVIII esse imaginário dos companheiros presenteadores/visitadores monstruosos se converge para uma só figura. Assim surge o Pelznickel, a monstrificação do santo, despido de seu lado religioso. Coberto por peles pesadas, chifres, correntes, chicotes e por vezes até mesmo um black face, as pessoas se fantasiavam de Pelznickel na Alemanha para retomar a dualidade mundana do ser que é capaz de castigar e agraciar, diferente da Menino Jesus que apenas presenteia. Pelznickel, por vezes, dizem que anda sozinho e vai de casa em casa – a convite dos pais – para oferecer os devidos prêmios às crianças de acordo com o modo como se comportaram durante o ano.
Em Guabiruba, dizem os relatos, não havia a presença de Papai Noel na vida da comunidade até meados da década de 1970. A comunidade formada por imigrantes no Vale do Itajaí em meados do século 19 era um bairro de Brusque que se tornou independente em 1962. Bastante autocentrada, a região tinha o Alemão como língua principal o que se provou uma dificuldade quando as relações do Brasil com o país germânico passam a esfriar com a segunda guerra mundial. Os alunos eram proibidos de falar alemão nas escolas a partir da década de 1950. Com a instauração da ditadura militar, a situação se tornou ainda mais grave: quem falava alemão era expulso.
Essas contingências históricas tem impacto direto na vivência cultural. Institucionalmente era possível tentar coibir a influência germânica, mas não na cultura popular. As tradições – dentre elas o pelznickel – permaneceram mesmo com esse ataque direto á identidade. E talvez, muito por isso, que ainda hoje a comunidade abrace com tanta facilidade esse lastro cultural que é o Papai Noel do mato.
O historiador Alisson Sousa Castro desconfia da informação de que o Pelznickel seja uma tradição tão antiga quanto os colonos, como afirmam os brincantes. Ele usa como justificativa o fato de que não há menções ao Pelznickel nos jornais da cidade até a década de 1950. Desconfiamos, todavia, dessa informação. O jornalismo é um espaço especialmente elitista que por muito tempo relegou as tradições populares como algo menor, indigno de suas páginas. Não representar uma brincadeira do povo era, em verdade, o esperado.
Segundo relatos colhidos em Guabiruba, era comum que até os anos 1970 o Pelznickel invadisse as casas – com o consentimento dos pais – e surrasse aqueles que foram mal comportados. “Nem que para isto os puxasse de baixo da cama”. As surras eram dadas, por vezes, com varas de pessegueiro. Com o caminhar da sociedade, as tradições se transformam. Hoje é impensável atrelar os castigos físicos à educação das crianças, mas ainda há um elemento coercitivo. Os pais que levam seus filhos ao Pelznickel durante o natal em Guabiruba gostam do reforço feito para que eles se comportem, estudem, obedeçam. Do contrário, serão castigados ou sequestrados.
No Brasil, o monstro se transforma. Se na Europa era comum que se vestisse com peles pesadas, uma vez que o natal ocorre com o inverno avançado, por aqui suas vestes são compostas por trapos e plantas nativas. No passado, havia imagens de alguns usando black-face também, mas hoje as máscaras tomam todo o corpo. Há uma tradição distinta também na feitura das fantasias: os brincantes da Rua São Pedro as fazem com a planta “barba-de-velho”. Já os da rua Guabiruba do Sul com folhas de gamiova. Muitas vezes a fantasia é complementada por chupetas ou mamadeiras, incentivando as crianças a entrega-las ao monstro para que abandonem o costume.
Com o passar dos anos e os novos fluxos migratórios, a tradição do Pelznickel foi ficando para trás e a do papai Noel vermelho se consolidou na cidade. Até que em 2005 é fundada a Sociedade do Pelznickel, com o objetivo de retomar a tradição. A brincadeira, no entanto, sai do interior das casas e vai para as ruas. Primeiro com desfiles de Pelznickels, depois com a construção de um “parque temático”, a Pelznickelplatz, aonde as pessoas vão para visitar as criaturas, a casa de São Nicolau e os demais personagens. Lá convivem o santo, sua versão monstruosa, a “Menino Jesus” e o Sackmann, o homem do saco, igualmente punitivo.
PELZNICKEL
Pontos de Força:
Pontos de Vida:
Tipo:
Elemento: Terra
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Pedro Leonelli
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Uma perna fantasma, sem corpo, que assombra as noites do Recife e persegue os notívagos. Esta é a Perna Cabeluda; lenda urbana que passa a circundar a capital pernambucana em meados dos anos 1970 e que, hoje, já é ícone da cultura popular no Brasil inteiro.
Guaipuan Vieira publicou, no fim dos anos 1990, o folheto de cordel “A Perna Cabeluda – Prenúncios da Besta-Fera”. Os versos dão algumas características que servem de ponto de partida para a nossa discussão. O monstro seria mais alto que um homem adulto, contando dois metros de altura. Possui um olho ciclópico bem na dobra do joelho, que fica aceso feito tição em brasa. Logo abaixo, fica seu nariz, uma boca com presas pontiagudas, língua ferina e barbicha de bode. Cada uma de suas unhas é envergada, e, quando ela salta, faz um barulho medonho como o rangido dos dentes. No calcanhar, como se não bastasse, carrega um esporão, feito os de galo, e um chifre no meio da canela.
Parece ser, certamente, uma visão digna das hostes do inferno. No entanto, muito pouco disso está presente nos relatos populares. O que mais se falava, na época, era da aparição de uma perna, coberta de pelos negros e ensebados. Suas unhas eram grandes e sujas, mas sem mais detalhes macabros. A Perna perambulava pela cidade, atacando pessoas com rasteiras e pontapés.
Mas como teria surgido essa crença? Ao que tudo indica, esta é uma lenda midiática; isto é, uma criação dos meios de comunicação da época que se folclorizou, perdendo o lastro de autoria, e foi assumida pelo povo.
Existem duas pessoas que disputam, em nível de discurso, a “paternidade” da Perna. O primeiro é o jornalista Jota Ferreira, que trabalhava no programa de Geraldo Freire na Rádio Repórter. O programa ia ao ar às 4h e permanecia até as 8h. De tom popular e policialesco, fazia um plantão no Hospital da Restauração, para entrevistar os alcoolizados que por ali passavam e fazer render as horas no microfone.
Certa vez, sem nada para noticiar, Jota Ferreira conta que teria inventado, de improviso, a história de que um homem havia baixado no hospital vítima de “Perna Cabeluda”. Dias depois, durante seu plantão, uma mulher chegou também na enfermaria alegando ser vítima da assombração. A partir daí, a história teria se alastrado.
Outro possível pai da lenda urbana é o jornalista e escritor Raimundo Carrero, que publicou, em 1º de fevereiro de 1976, o conto “Perna Cabeluda chega em Olinda”, na coluna Romance Policial, no Diário de Pernambuco. Para o autor, o público não teria entendido a piada e tomado a narrativa como verdadeira. Teria sido essa a certidão de nascimento da visagem.
Quanto ao rádio, não temos registro de quando (ou se) a matéria de Jota Ferreira foi ao ar. No entanto, a assertiva de Carrero não é bem correta. Dois meses antes de seu texto, ainda em 10 de dezembro de 1975, o mesmo Diário de Pernambuco publicou uma notícia: “Perna fantasma surge em moradia de Tiúma”. Acontece que, nas voltas da usina de Tiúma, em São Lourenço da Mata – zona metropolitana do Recife –, um jovem relata ter visto uma perna espiritual nas sombras da parede de sua casa.
Ao longo daquela semana, a notícia se alastrou. E é no dia seguinte, 11 de dezembro, que uma nova matéria dá a característica derradeira: o fantasma aparecia na forma de uma perna cabeluda. Vários outros moradores afirmaram também terem visto o monstro, que ia se revelando pouco a pouco: primeiro, o pé e, depois, o restante.
O texto descreve a visagem como uma perna de cerca de um metro e meio, que se pendurava no telhado e era capaz de assumir a forma de outros animais: morcegos, borboletas etc. Quem debochava da história recebia um golpe invisível como pagamento. Assustados, os entrevistados pediam pela intercessão do padre (que se recusou) e de médiuns espíritas.
A última menção ao caso é de 13 de dezembro daquele ano. O texto diz que o fotógrafo José Tadeu presenciou o fenômeno em que a perna surgiu na parede, batendo várias fotos, mas, quando as revelou, não havia nada. Reforça, ainda, que já havia uma comoção sobre o caso, com pessoas indo até a casa para ver o espírito sem corpo.
Pois foi justamente este o caso que José Soares registra em “A Perna Cabeluda de Tiúma e São Lourenço”. Cordelista alagoano, José assinava como o “poeta-repórter” e especializou-se em transformar em folheto de cordel as notícias que lia nos jornais. Foi o que fez com seus maiores sucessos, como “A morte de bispo de Garanhuns, Dom Expedito Lopes”, que vendeu 108 mil exemplares só em Pernambuco, e a “Renúncia de Jânio Quadros”, que vendeu 60 mil.
No texto dedicado à Perna, o poeta-repórter conta ter ouvido sobre a história no rádio e em um clichê de jornal. Não há uma data precisa sobre o lançamento da obra de José, mas, numa matéria publicada em 26 de janeiro de 1976, já se falava que havia um cordel publicado sobre o assunto.
O poeta ainda escreveu um outro cordel, “A Perna Cabeluda de Olinda”, lançado apenas três dias após a coluna de Raimundo Carrero. Isso mostra como José trabalhava sempre com assuntos quentes e com grande velocidade. Nele, menciona nominalmente o jornalista escritor: “Conforme disse Carrero lá no jornal de domingo, ela atacou uma turma que estava jogando bingo”. No cordel, o conto é tratado como um fato jornalístico, indistinto da matéria anterior.
Outra notícia interessante foi publicada em 5 de fevereiro de 1976. Nela, descobrimos que a Perna Cabeluda se tornou inspiração para um frevo-canção: “Se você não viu, venha ver! Não se iluda. Não tenha medo, não. Da perna cabeluda”. A inspiração, contam os artistas, foi o cordel de José Soares. A visagem entrou de vez para a cultura popular em 10 de fevereiro, inspirando a criação de uma troça-carnavalesca – uma espécie de bloquinho de foliões. A troça saiu até os anos 1980, arregimentando multidões.
Percebemos, com isso, que tão importante quanto a mídia de massa tradicional foi a literatura de cordel, que reverberou o acontecimento para as classes populares. E o que os textos falavam da perna? Vamos observar, no texto dos folhetos, quem eram as vítimas da visagem, sujeitos de levarem pernadas, “patadas” e pontapés.
Nos cordéis de José Soares, a perna persegue homem que dança de bermuda, gigolô e mulher buchuda. Sujeito falso e que perambula tarde da noite pelas ruas. José da Costa Leite, no cordel “O encontro da Velha debaixo da Cama com a Perna Cabeluda”, aponta que ela persegue sujeito desordeiro, mentiroso, arruaceiro. Moça que anda com umbigo de fora, homem de cabelo comprido, cabra que fala fino, mulher galheira e o próprio corno. Era uma forma de os escritores também apontarem toda fuga moral a ser castigada pela assombração.
Um documentário sobre a Perna Cabeluda foi produzido em 1996, por Gil Vicente, Marcelo Gomes, Beto Normal e João Jr. O filme, assim como muitos dos cordéis, não se furta de trocadilhos sexuais. No entanto, o grande destaque vai para um elemento trabalhado em poucos minutos de filme: a relação com a Ditadura Militar.
Quando as histórias sobre a Perna “viralizaram”, estávamos em pleno governo de Ernesto Geisel, o quarto presidente do governo ditatorial. Lastro disso vemos no depoimento do radialista Jota Ferreira, que conta que o chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas de Pernambuco, Demerval Barreto de Matos, ameaçava fechar o jornal caso se continuasse a falar de Perna Cabeluda.
Para Raimundo Carrero, no documentário, foi justamente o clima de opressão criado pelos militares que permitiu com que a história da Perna se comunicasse com mais força com a população. As pessoas puderam voltar a sonhar, a pensar no absurdo, em pleno estado de exceção. Tudo graças a uma perna fantasma sem corpo.
PERNA PRA QUE TE QUERO
Tipo: Desafio
Elemento: Labuta
"A Perna Cabeluda detesta quem vive na farra. Bote sebo nas canelas enquanto volta da boemia!"
Condição de Vitória:
Envie duas cartas do tipo Noite, de sua Mão ou do campo, para o Beleléu.
Efeito:
Esta carta não tem efeitos adicionais
Artista: Rafael Limaverde
– CARRERO, Raimundo. Perna Cabeluda chega em Olinda. Coluna Romance Policial, Diário de Pernambuco. 01/02/1976.
– GOMES, Marcelo; JÚNIOR, João; NORMAL, Beto; VICENTE, Gil. A Perna Cabeluda Documentário. 1996.
– Perna fantasma surge em moradia de Tiúma. Diário de Pernambuco. 10/12/1975.
– “Perna fantasma” já é problema policial. Diário de Pernambuco. 11/12/1975.
– SOARES, José. A Perna Cabeluda de Tiúma e São Lourenço.
– Tema musical é a “perna”. Diário de Pernambuco. 26/01/1976.
Por aí vedes o Pesadelo?
Pelo tubo das chaminés
Desce furtivamente sobre o peito úmido
Do adormecido que cai;
Mudo, se agacha, o oprime
Como uma torre e o encabresta
De sonhos que fazem horror e dolorosos.
– Miréio, por Frédéric Mistral (1859)
Pisadeira é uma visagem que representa a personificação do pesadelo na cultura popular brasileira. Normalmente é descrita como sendo uma velha bruxa, de unhas enormes. O monstro aguarda as altas horas da noite, quando desce sobre aqueles que dormem de barriga para cima e, então, solta todo seu peso sob o tórax da pessoa. Indefesa, a vítima passa a ter sonhos horríveis, que alimentam a bruxa. Caso acorde no meio do processo, a pessoa perceberá que não consegue se mover. É vítima, afinal, da paralisia do sono.
Outras versões vão falar de um velho, homem, chamado apenas de Pesadelo. Narrativas de Pesadelo e de Pisadeira se misturam, gerando inclusive variações da mesma música de esconjuro: “Pisadeira, Pisadeira, da mão furada. Suas unhas ultrapassadas. Se quiser vir me assombrar, dê três voltas pelo mar”. Normalmente é o Pesadelo, masculino, quem tem as mãos furadas – e, com elas, sufoca a pessoa na cama. Ela não morre, pois ainda consegue respirar pelas mãos vazadas, mas tem uma dificuldade enorme de respirar. Enviar para o mar, por sua vez, é um mote clássico de benzimento para se livrar de tudo o que é ruim nas águas salgadas purificadoras. Dar três voltas por todo o mar é uma tarefa impossível, mesmo para um espírito, o que garante a paz noturna.
Em Portugal, fala-se do Insone, um duende noturno com furos nas mãos e carapuça vermelha. Ele causa paralisia do sono também, mas se você conseguir se movimentar e tomar-lhe o gorro mágico (como no caso dos sacis brasileiros), receberá grandes riquezas. O imaginário mistura narrativas, fazendo com que algumas Pisadeiras e Pesadelos também sejam descritos vestindo gorros vermelhos. Outras derivações vão falar já não de carapuça, mas de um “homem de chapéu”.
Wilson Lins, que escreveu sobre a cultura do médio São Francisco, registra a “Pesadeira”: uma feiticeira que senta em cima de quem dorme de barriga para cima. O monstro usa uma touca vermelha e, sem ela, perde força e fica leve como uma criança de peito. Como prêmio, exigiu da visagem que sua casa virasse um palácio, sua carroça uma carruagem e suas roupas vestes dignas de um rei.
Como levanta Câmara Cascudo, em diversas culturas o pesadelo é personificado com formas humanas. É, por vezes, um gigante, em outras um anão; homem ou mulher horrendo; tem ou não comportamentos sexuais (como um incubus ou sucubus). A relação, de qualquer maneira, está sempre ligada à pressão. Pesadelo em português, por sinal, é derivado da palavra “pesado”, ou seja, remete àquela sensação de peso sobre o peito que só um pesadelo dos bons pode causar.
Em inglês, a palavra para pesadelo é “nightmare”, que também tem uma etimologia que remete ao fantástico. “Night”, é noite; já “mare” vem do inglês antigo, maere, termo utilizado para identificar espíritos malignos femininos que sufocavam as pessoas durante o sono. Em norueguês, por exemplo, pesadelo é “mareridt”; em islandês martröð. Ambos significam algo como “corrida de Mare”.
Mahrs, Mares ou Marras; encontramos este nome e suas derivações em diversos países da Europa, sempre relacionados a espíritos que atacam os sonhos dos humanos. Dizem ainda que elas costumam montar cavalos, fazendo com que amanheçam cansados e suados. Também são conhecidas por dar nó nas crinas de cavalos e nos cabelos das pessoas (Marelocks), algo que no Brasil é um feito típico dos sacis, das bruxas ou das comadre fulozinhas.
PISADEIRA
Tipo: Desafio
Elemento:
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Stuart Marcelo
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