CONHEÇA TODAS AS CARTAS
A Tapera naevia dá origem a uma série de superstições e crenças pelos territórios em que entoa seu canto lúgubre. Nos países vizinhos, vai dar forma, especialmente, ao Silbon (o Assobiador), assim como ao Yasy Yateré, com seu apito no cajado de ouro. No Brasil, o assovio fica por parte do Saci-Pererê. Já o agouro do seu canto dá origem a outra visagem: o pássaro-bruxa Matintapereira.
Percebam como os últimos nomes mencionados são muito próximos sonoramente. Yateré, Pererê, Pereira… todos são, entre outros sentidos etimológicos, variações da onomatopeia de uma das vocalizações deste pássaro. As mais agudas podem ser ouvidas como Saci, Crispim, Sem-Fim, Mati; já as mais longas trazem a cadência dos sobrenomes compostos.
Apesar de a Tapera naevia fazer parte da família dos cucos, é muito comum que outros pássaros sejam vinculados à transformação desta visagem. O povo costuma falar em “pássaro preto”, como um corvo, remetendo a um imaginário de bruxa já midiatizado. Outros, como Câmara Cascudo desmente no “Dicionário”, vão falar que a Matinta é uma pequena “coruja”. Por vezes, aproxima-se à própria Suindara ou Rasga-Mortalha (que nada tem de pequena).
A tradição diz que quem escuta o canto da Matinta vai sofrer com uma série de infortúnios. Para se livrar do bruxedo, é comum oferecer a ela um presente. O povo pede para que a visagem volte no outro dia, para buscar tabaco ou sal. É assim que se descobre quem é a Matinta da vizinhança.
Esta, no entanto, é uma das maneiras de se narrar o mito – e a mais conhecida pelo país. No entanto, a Matinta tem inspirado narrativas no imaginário popular já há muito tempo. O registro escrito mais antigo sobre uma versão de Matinta é de 1885, feito pelo padre Geraldo Tocantins. Em seu texto, escrito na interpretação religiosa da cosmologia indígena, ele explica que, para os Munduruku, quando uma pessoa morria, ia para o pós-vida.
Às vezes, contudo, alguns destes espíritos voltavam a terra. Quando o faziam, era ou na forma de trovão ou na forma de Matim-Tapirera, para caçar durante a noite. É por isso que podemos ouvir, durante a noite, o som de uma ave noturna que parece repetir continuamente o seu nome. Temos, então, o entendimento de que Matinta era um ancestral.
Métraux, em 1950, escreve: “Os tupinambás sentiam supersticioso temor por certa espécie de ave que, a julgar pelas descrições, pode ser identificada com o matim-tapirera”. A ave passava por mensageira dos parentes já falecidos, e os seus trinados eram interpretados como ordens do além-túmulo. Uma encarnação do espírito dos mortos. A escolha de palavras de Métraux deixa um pouco confusa a ação das matintas. Ao se “passar por mensageira”, ele estaria dizendo que esse atributo era falso? Seriam as mensagens da ave um engodo?
Registros de aves sinistras para os indígenas permeiam os relatos desde o início da colonização portuguesa. A título de exemplo, o calvinista Jean de Lery, ainda no século XVI, fala do medo que os indígenas teriam de Acauã – ave conhecida pelo seu canto lamentoso. Ainda hoje, a ave é tida como uma das mais amaldiçoadas do sertão.
Dizem que, quando está prestes a morrer, a Matinta entoa um canto em que se escuta a mensagem: “Quem quer? Quem quer?”. A pessoa que for gananciosa o suficiente para aceitar o que lhe oferece, sem ao menos saber do que se trata, vai assumir a maldição e se tornará a nova Matinta.
MATINTA PEREIRA
Pontos de Força: 1
Pontos de Vida: 2
Tipo: Visagem
Elemento: Noite
Habilidade:
No turno do seu oponente, envie esta carta de sua Mão para o Beleléu, para anular o efeito de qualquer carta Poranduba utilizada pelo oponente.
Efeito: Proteção
Citação: "'Passe aqui amanhã, Matinta!'. E emendou, baixinho: 'O que é seu está guardado...'"
Artista: André Vazzios
– CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2002.
– FARES, Josebel. Imagens da mitopoética amazônica: um memorial das matintas pereras. 1997. 180 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Mestrado em Letras, Centro de Letras e Artes, Universidade Federal do Pará, Belém.
– MÉTRAUX, André. A religião dos tupinambás. São Paulo: Brasiliana, 1950.
– SILVA JUNIOR, Fernando. Representação feminina no mito da matintaperera em Taperaçu Campo, Bragança (PA). Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia. Universidade Federal do Pará, Bragança, 2014.
Alexina de Magalhães Pinto foi professora e folclorista mineira, que nasceu em São João del Rey (1870) e faleceu em 1921 na cidade de Correias, no Rio de Janeiro. Alexina foi a primeira mulher a se dedicar sistematicamente aos estudos das culturas populares no Brasil. Afinal, o termo e do campo de estúdios do folklore data de 1846, e tinha pouco mais de meio século quando Alexina se envolve após sua formação na França.
Musicista, trabalhou amplamente com a recolha de motes e cantigas populares. Seu nome só recentemente tem sido recuperado e reconhecido pelo seu pioneirismo – que antecedeu em quase duas décadas o trabalho de Heitor Villa-Lobos. Infelizmente, justamente devido ao apagamento histórico, pouco se sabe de sua biografia.
Publicou seu primeiro livro, As nossas histórias (1907), seguido por Os nossos brinquedos (1909), Cantigas das crianças e do povo e danças populares (1916) e Provérbios populares, máximas e observações usuais (1917). As obras são assinadas sobre um pseudônimo, “Icks”, indicando a dificuldade para uma mulher se colocar como pesquisadora na época.
Como professora, foi conhecida por recusar as cartilhas de alfabetização, que faziam o aluno decorar e não aprender. Ao invés disso, utilizava de trovas e advinhas para estimular os alunos. Também era partidária da experiência: é famosa a história de quando levou um sapo para sala de aula, soltou-o entre os alunos – fascinados com o inusitado – e só então se dirigiu ao quadro para escrever S-A-P-O.
Na tese de doutorado de Flávia Carnevalli, encontramos ainda registros de que ela foi a primeira professora a abolir a palmatória, substituindo-a por desafios de memória e dicção. Apesar de uma lei imperial ter proibido castigos físicos na educação em 1827, eles ainda eram praticados por todo o século XIX e início do XX. Alexina preferia algo mais lúdico: alunos indisciplinados deveriam decorar versos difíceis ou repetir trava-línguas como “o bispo de Constantinopla é um bom constantinopolitanizador”, declamando e repetindo em voz alta com um lápis na boca.
Sua carreira no magistério é interrompida em 1915 devido a uma surdez que a acometeu. Foi também a doença responsável pelo seu trágico fim, poucos anos depois, atropelada por uma locomotiva por não a ouvir se aproximar.
Uma história bastante repetida em sua biografia é cheia de controvérsia. Dizem que teria trazido uma bicicleta da Europa e, numa atitude que feria a moral da época, ousou passear pelas ruas com calças compridas amarradas nos tornozelos. Para uma cidade do interior de Minas, como São João del Rey, foi um ultraje.
Por essa ousadia, dizem, teria sido agredida com uma chuva de tomates e ovos podres. O bispo de Mariana também, pelo que se consta, a ameaçou de excomunhão. Uma história fascinante, mas que alguns autores colocam em dúvida. De qualquer modo, é importante não fazermos projeções dos comportamentos passados sob as lentes do presente. Alexina era mulher de seu tempo; provocadora em certos atos, conservadora em outros.
Um de seus livros mais famosos, Cantigas das crianças e do povo e danças populares, foi relançado em 2022 e está disponível gratuitamente em ebook pela Biblioteca do Senado. No site, também é possível ouvir gravações das partituras das 77 cantigas coletadas pela autora.
O livro divide seu material nas seguintes seções: Cantigas; Cantigas dos pretos; Cantigas e danças; Coretos; Coretos de mesa; Coretos de bando de rua; Cantigas jocosas e Cantigas históricas, regionais e patrióticas. Entre elas, versões de O cravo e a rosa, Teresinha de Jesus e Peixe Vivo, que permanecem até hoje no nosso repertório cultural.
Esta última, nomeada por ela “Como pode viver um peixe” está caracterizada como “coreto”. Assim são chamadas as drinking songs, cantigas para declamar em coro, em conjunto, com um grupo de amigos enquanto se toma um trago, festeja ou come. Não é por acaso que o trecho final da versão de Peixe Vivo de Alexina termina com um “Hip, hip, hurra!”. É o momento ideal para um brinde.
MESTRA ALEXINA
Pontos de Força:
Pontos de Vida:
Tipo:
Elemento: Vento
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Guilherme Petreca
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Nascida em Santa Filomena, distrito de Ouricuri, na divisa de Pernambuco com o Piauí, Ana Leopoldina Santos foi uma das ceramistas mais notórias do nordeste brasileiro. A mestra, que nos deixou em 2008, deixou um legado de afetividade e entrega, plasmado no barro que moldava desde os sete anos de idade.
Ana Louceira, como era conhecida, tornou-se Ana das Carrancas apenas 10 anos depois de se mudar para Petrolina, também em Pernambuco, junto ao seu segundo marido, José Vicente. A vida não era generosa, as louças que Ana vendia na feira não tinha saída e José vivia pedindo esmolas na rua.
Certa feita, Ana foi até o Rio São Francisco e pediu uma graça ao santo. A inspiração fez com que ela olhasse para um pé de Mussambê, planta típica da região, e escavasse tirando dali o barro. Enquanto escavava, bateu a ferramenta numa pedra e dela tirou fogo. Ana entendeu que estava no caminho certo; era sinal.
Mais tarde, admirando o rio promesseiro, viu a chegada das barcas que vinham adornadas com as carrancas; figuras de proa representando carranchões monstruosos na frente das embarcações. A inspiração veio na hora. Ana criou, assim, a peça que batizou de “Gangula”. Trata-se de um barquinho de barro que parece um vaso com alça, e uma carranquinha na frente.
O trabalho impressiona técnicos da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, que fazem a ponte para que Ana produza as gangulas que seriam distribuídas na inauguração da Biblioteca Municipal de Petrolina.
Em 1973, Ana faz uma nova promessa, para que seu marido nunca mais precise pedir esmolas. Como José Vicente era cego, Ana passa imprimir nas peças aquela que seria a sua grande marca artística: furava os olhos das carrancas, em homenagem ao marido e ao santo promesseiro. Era José, afinal, seu grande apoiador, e quem pisava e limpava o barro que a mulher moldava.
Em seu relato, Ana diz que não fazia as carrancas para afastar espíritos. Afinal, não sabia se eram bons ou ruins. “Eu faço carrancas por amor”, resumia.
MESTRA DAS CARRANCAS
Pontos de Força:
Pontos de Vida:
Tipo:
Elemento: Terra
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Stuart Marcelo
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Ignez Magdalena Aranha de Lima foi seu nome de batismo. No entanto, foi com outra alcunha que a atriz, cantora, folclorista e, é claro, violeira entrou para a história da cultura popular brasileira: “Inezita Barroso”. Nascida em 1925 e filha de uma família tradicional paulista, foi a primeira a se tornar artista.
A trajetória, ela diria tempos depois, foi inevitável. A menina Inezita nasceu numa Quarta-Feira de Cinzas, em meio aos últimos ecos dos foliões do Cordão da Barra Funda, que festejava pelo bairro. Cresceu entre a cidade e as fazendas dos tios, fascinada pelo pontear da viola que embalava as catiras e a Folia de Reis.
“A melhor hora da fazenda era às cinco da tarde quando eu fugia da casa-grande e ia para o terreiro ver os peões se reunirem depois do trabalho para fazer a grande roda de violeiros. Iam chegando devagar, amarravam o cavalo, iam sentando aqui e ali, de repente a música começava, e não tinha muita hora para acabar. Foi aí que eu comecei a ouvir as primeiras músicas de viola. Eu aprendia com eles. Eu gostava tanto que não queria ir embora da fazenda, chorava para ficar mais e não voltar mais para a cidade quando acabassem as férias. E em São Paulo eu sonhava com o dia em que eu iria voltar para lá” (Jorge, 2012, p. 14).
Ainda assim, ela demorou a tocar viola. Violão foi seu primeiro instrumento, aos sete anos de idade. Naquela época, era muito malvisto que uma mulher tocasse viola caipira. Foi aprendendo escondido, em meio a aulas de música tradicionais, etiquetas e boas maneiras (que ela brincava nunca ter aprendido direito).
Seu sobrenome artístico, Barroso, vem do casamento com seu primeiro marido, Adolfo. Foi por meio de seu cunhado, locutor de rádio, que ela passou a frequentar a Rádio Tupi. E foi assim, aos 25 anos, que ela começou a se apresentar na radiofonia paulistana.
A música
Em 1998, foi homenageada pelo samba-enredo da escola de samba Pérola Negra, que estava no Grupo de Acesso e conquistou a terceira posição. O título do samba não poderia ser mais explicativo: “Inezita Barroso, uma trajetória de sucesso”.
Esse sucesso começou quase meio século antes. Ainda em 1951, Inezita lançou o primeiro de seus quase 100 discos, em 78 rpm. Nele, interpretava “Funeral de um Rei Nagô”, de Hekel Tavares e Murilo Araújo, e “Curupira”, de Waldemar Henrique, composta pelo maestro paraense 15 anos antes. Já dava mostras, desde o início, de sua vocação pela música inspirada pela nossa tradição oral.
Foi em Pernambuco que se assumiu uma artista profissional, quando foi convidada a se apresentar no Teatro de Santa Isabel. Inezita demorou a aceitar, pois estava no Recife apenas para colher temas folclóricos; não se via como cantora. Por insistência dos amigos, fechou três shows e ainda recebeu cachê.
Mais tarde, fez sucesso com sua interpretação de “A Moda da Pinga”, uma música do folclore dos violeiros paulistas que foi registrada por Ochelsis Aguiar Laureano e Raul Torres. Inezita fez gravações de músicas de Mário de Andrade, do folclore gaúcho, de sambas e até de pontos de candomblé.
Inezita não parou na música. Em 1977, por exemplo, criou um restaurante chamado “Casa da Inezita”, que funcionou na avenida Santo Amaro, em São Paulo. O lugar servia comidas típicas com nomes curiosos, como “Bife à Curupira”, “Arroz à Negrinho do Pastoreio” e “Filé de Peixe à Sereia”. Seu sonho era de que o lugar se tornasse uma escola de folclore.
Nunca conseguiu, mas chegou a ser professora da disciplina em algumas faculdades particulares. Pela Universidade de Lisboa, recebeu o título de doutora honoris causa em Folclore e Artes Digitais. Além de sua carreira musical, Inezita Barroso também atuou em alguns filmes e peças de teatro. Venceu, inclusive, o famoso Prêmio Saci de Cinema, em 1955.
Viola, minha viola
Na televisão, Inezita se tornou especialmente conhecida como apresentadora do programa “Viola, Minha Viola”. E olha que ela dizia que não era afeita à telinha. Inezita substituiu o músico e compositor Nonô Basílio ainda no começo dos anos 1980 e, até 1995, apresentou o programa em parceria com o radialista Moraes Sarmento. Depois disso, seguiu por quase 20 anos com o programa para si, até nos deixar em 2014.
O programa foi um dos grandes pontos de encontro, na grande mídia, para a música de raiz no Brasil. Mas que raiz seria essa?
“Percebemos que a musicalidade que aflora nos séculos XVIII e XIX foi gestada aos poucos em um lento cozinhar de fusões culturais, nas mãos e vozes dos bandeirantes, tropeiros e agricultores desbravadores. E esse lento cozinhar cultural, em que as informações vindas de locais e culturas diferentes que aos poucos se amalgamaram, é uma característica presente em toda a música brasileira” (Vilela, 2013, p. 62).
Durante muito tempo, a música caipira foi menosprezada como um saber menor; como acontece com tudo aquilo que é ligado às classes populares. No entanto, é nela que ouvimos o lastro de nossa história; os valores inegociáveis de solidariedade e pertencimento. Inezita permeou tudo isso, ultrapassando os preconceitos e inspirando cada vez mais mulheres a tocar viola e ocupar espaços que diziam não pertencer a elas.
MESTRA INEZITA
Pontos de Força: 1
Pontos de Vida: 5
Tipo: Gente
Elemento: Água
Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você deve escolher uma carta Gente, do Beleléu, e invocá-la diretamente no campo.
Efeito: Resgate
Citação: "Com um toque de viola, ela fez um cateretê no céu."
Artista: Edgar Santo Moretti
– Itaú Cultural. Ocupação Inezita Barroso. São Paulo, 2017a.
– Itaú Cultural. No Gravador de Inezita. São Paulo, 2017b.
– JORGE, Valdemar. Inezita Barroso: com a espada e a viola na mão. 1. Ed. São Paulo/SP: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012.
– MILAMI, Aloisio. Minh’alma está arada e loteada. Portal Anchieta, 2013.
– SOUZA, Tarik. MPBambas Volume 2. Rio de Janeiro: Kuarup, 2016.
– VILELA, Ivan. Cantando a própria história. Música caipira e enraizamento. São Paulo: Edusp, 2013.
O baiano Edison Carneiro (1912-1972) é considerado referência nos estudos de folclore e narrativas afro-brasileiras no Brasil. Autor do clássico “Dinâmica do Folclore” (1965), fez grandes contribuições para a pesquisa na área defender folclore como algo dinâmico, em movimento e transformação, não algo estático e imutável.
Mas quem foi esta figura e por que ele se tornou tão importante? Para compreender, vamos olhar para sua história. Edison era filho de Antônio Joaquim de Souza Carneiro e Rosa Sanches de Souza. Hoje, com o avanço das discussões sobre racialidade, Edison e sua família facilmente seriam classificados como negros de pele clara. No entanto, tendo em vista que falamos de um século atrás, diante de uma família de classe média alta que figurava entre a intelectualidade, por muitas vezes, essa negritude foi negada. Isso fez com que a antropóloga Ruth Langes, que foi sua amiga, escrevesse, em uma carta, algo que hoje seria uma metonímia do racismo estrutural: “Era o tipo de família às vezes chamada de ‘negros brancos’, por muito respeitada”.
Ainda assim, o tema da ancestralidade sempre atravessou os trabalhos de Edison, mas também de seu pai. Souza Carneiro era um professor de engenharia aposentado – forçosamente – da Escola Politécnica, em 1932, por desavenças políticas. Passou, então, a se dedicar à literatura e à pesquisa. Nesta época, produziu o livro “Os Mitos Africanos no Brasil – Ciência do Folk-Lore” (1937). Com o passar do tempo, a idade avançada, aliada ao desgosto de sua saída, colaborou para que a escrita fosse seu refúgio, ao ponto de ser criticado por publicar demais, abrindo mão da qualidade e do rigor.
Sobre Souza Carneiro, Jorge Amado, que era amigo de Edison desde a adolescência, escreveu, com gentileza: “Era um mago, vivia cercado por forças celestes e creio que adivinhava. Exercia poder absoluto sobre todos os centros espíritas de Salvador, especialista em Allan Kardec e em outros mestres da mediunidade […]. Um mago, sem dúvida, sonhando com o futuro, incapaz de qualquer mesquinhez, tão desligado das misérias, da maldade e da feiura que fazia difícil distinguir no velho Souza Carneiro a fronteira que separa a realidade da imaginação. Nós o adorávamos, tínhamos nele não apenas um mestre, também um companheiro”.
A alcunha de “mago” foi quase um título honorífico que Jorge Amado também percebeu herdado no filho. Em 5 de março de 1937, o escritor publicou, no jornal Estado da Bahia, o artigo “O jovem feiticeiro”, em homenagem ao amigo Edison Carneiro. Nele, traçou elogios ao homem conhecido por levar amigos a pais de santo, guiando-os pela beleza dos candomblés.
Era a época de lançamento de “Negros Bantus”, livro aclamado de Edison que vinha um ano depois de “Religiões Negras”. Jorge Amado elogiava a produção, identificando-o como um intelectual que também estava inserido nas religiões que estudava.
“Livro de quem conhece o assunto não só por leitura, não só pelo que leu nos outros, mas de quem conhece de contato direto. Ele é ogã, ele viveu naqueles meios […] É além de tudo um estudo feito por um homem da mesma raça que os estudados [Ele] nada tem de diletante […] Com a raça africana da Bahia, ele sofreu, ele riu em grandes gargalhadas […] É um deles e assim esse estudo, esse depoimento, ganha em força e verdade […] Fala um membro das religiões negras que é ao mesmo tempo um dos sujeitos mais cultos do Brasil”.
A relação artística e reflexiva de Edison com Jorge Amado começou ainda nos anos 1920, quando ambos fizeram parte de um grupo conhecido como “Academia dos Rebeldes”. Foi lá que ambos discutiram autores marxistas que influenciariam diretamente a produção de ambos. É inspirado em Gramsci e seu texto sobre folclore nos Cadernos do Cárcere que Edison encontrou o fundamento para a “Dinâmica do Folclore”, texto escrito em 1950 e compilado e editado em 1965.
Mais do que o entendimento fundamental de que folclore não é cultura pretérita, morta, mas sim práticas vivas e atravessadas de atualidade, Edison defendia a potência revolucionária da cultura das classes populares. Para ele, ainda que carregando muitos elementos conservadores e de reificação do status quo, o folclore carrega em si o gérmen da transformação social. Afinal, ele surge e viceja no seio do povo, sendo por ele orientado. Ele nos convida a entender as manifestações tradicionais como mais do que poéticas; mas como comentário, tribuna e reivindicação daqueles que foram alijados dos processos hegemônicos da sociedade.
Por conta de seu pensamento, Edison foi perseguido e silenciado pela Ditadura Militar. Ele, que ocupava a presidência da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, foi imediatamente deposto, em 1º de abril de 1964. A própria Comissão Nacional de Folclore foi fechada, acusada de ser um antro de comunistas. Nada que enxergava a potência do povo era bem-visto durante um período de controle e dominação.
MESTRE CARNEIRO
Pontos de Força: 3
Pontos de Vida: 4
Tipo: Gente
Elemento: Fogo
Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você pode buscar qualquer carta Saberes, do baralho, para a sua Mão.
Efeito: Busca
Citação: "Jorge Amado o chamou de Jovem Feiticeiro. Coisa de quem entendia a magia do povo."
Artista: Caique Pituba
– ARAGÃO, Iury Parente. Elos teórico-metodológicos da folkcomunicação: retorno às origens (1959-1967). Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2017.
– CARNEIRO, Edison. Dinâmica do Folclore. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
– ROSSI, Luiz Gustavo Freitas. O intelectual “feiticeiro”: Edison Carneiro e o campo de estudos das relações raciais no Brasil. Tese (doutorado). Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2011.
Luis da Câmara Cascudo (1898-1986) foi um dos mais importantes folcloristas, historiadores e escritores brasileiros. Diante de todas as funções pelas quais ficou conhecido, escolhia uma delas para se apresentar em definitivo: “professor”.
Cascudo nasceu em Natal, no estado do Rio Grande do Norte, e dedicou sua vida ao estudo e à pesquisa das tradições culturais brasileiras, em especial as do Nordeste do país. Seu distinto sobrenome, na verdade, foi uma alcunha adicionada ao nome da família. Veio de seu avô paterno, Antônio Justino de Oliveira (1829-1894), um monarquista ferrenho, membro do partido conservador – lá chamado “Partido Cascudo”. O Velho Cascudo foi o patriarca da família que assumiu este patronímico.
Apesar do lastro político, Cascudo esteve pouco afeito à vida pública. Em 1930, elegeu-se deputado estadual pelo Partido Republicano, apenas para perder o mandato 5 dias depois do golpe de 1930, que dissolveu a Assembleia Legislativa. Por convite de Gustavo Barroso, tomou parte do Movimento Integralista – de inspirações fascistas – entre 1933 e 1937. Decepcionado com o ideário integralista, abandonou-o e passou a ter aversão a qualquer participação político-partidária.
Um erudito sempre atento às coisas do povo, Cascudo entendia o folclore como o leite materno da sua literatura. Das histórias das funcionárias da fazenda, dos peões nas horas de “café e poranduba”, ele construiu as bases para seus estudos.
Sua obra-prima, indiscutivelmente, é o “Dicionário do Folclore Brasileiro”. Lançado em 1954, compila 10 anos de pesquisa dedicada às culturas populares. Publicou, também, entre outros, “Geografia dos Mitos Brasileiros” (1947) e a monumental “História da Alimentação no Brasil” (1963).
MESTRE CASCUDO
Pontos de Força: 2
Pontos de Vida: 5
Tipo: Visagem
Elemento: Terra
Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você pode trocar o Desafio ativo e enviá-lo para o fundo do baralho.
Efeito: Troca
Citação: "Agora, não... Todo mundo sabe que o prof. Cascudo não recebe pela manhã."
Artista: Anderson Awvas
– CASCUDO, Luis da Câmara. Literatura Oral no Brasil. São Paulo: Global, 2006.
– SILVA, Marcos. Dicionário Crítico Câmara Cascudo. São Paulo: Perspectiva, 2010.
Ariano Suassuna foi escritor nascido em 1927, na cidade de João Pessoa, na Paraíba, e faleceu em 23 de julho de 2014. Suassuna estudou Direito e Filosofia, mas sua paixão pela arte e literatura o levou a se dedicar à escrita e ao teatro. Em seu trabalho, inspirava-se na literatura oral e nos motes que circulavam pela cultura popular para criar obras únicas que ainda hoje nos fascinam.
Sua obra mais famosa, “Auto da Compadecida”, lançada em 1955, é uma peça teatral que bebe dos antigos autos portugueses – apresentações teatrais que surgem durante a Idade Média e com um forte lastro religioso, em que os personagens são alegorias de tipos notórios da comunidade. Suassuna trouxe à tona os costumes, as crenças e os conflitos sociais dessa região, destacando a riqueza e a diversidade de sua terra. Sua escrita era marcada pelo uso de diálogos coloridos, personagens caricatos e uma mistura única de comédia e crítica social.
Além de suas contribuições literárias, Suassuna também foi um defensor incansável da cultura popular brasileira. Ele fundou o Movimento Armorial em 1970, que buscava criar uma arte autêntica para o Brasil a partir das raízes populares. O movimento valorizava manifestações culturais do Nordeste, como a literatura de cordel, a música e a arte popular. “Armorial” é o conjunto de distintivos, brasões, estandartes e bandeiras de um povo. Que distintivo melhor do que sua própria tradição?
O desejo de produção e criação de Ariano se demonstra neste trecho do Manifesto pelo Teatro Popular do Nordeste:
“Repelimos uma arte puramente gratuita, formalística, sem comunicação com a realidade, uma arte frívola, estéril, sem sangue e sem pensamento, covarde e indefinida diante dos abusos, dos privilégios da fria e cega vida contemporânea do mundo dos privilegiados, sem entranhas, e das sanguinárias tiranias que fingem combatê-lo. Mas repelimos também a arte alistada, demagógica, que só quer ver um lado do problema do homem, uma arte deturpada por motivos políticos, arte de propaganda, arte que agrega ao universo da obra o corpo estranho da tese, para fazer do espetáculo um libelo interessado. Acreditamos que a arte não deve ser nem gratuita nem alistada: ela deve ser comprometida, isto é, deve manter um fecundo intercâmbio com a realidade, ser porta-voz da coletividade e do indivíduo, em consonância com o espírito profundo de nosso povo”
Por meio de suas peças teatrais, palestras e ensaios, Suassuna promoveu uma visão positiva e autêntica da cultura nordestina, desafiando estereótipos e preconceitos. Ao longo de sua vida, Ariano Suassuna recebeu inúmeros prêmios e reconhecimentos por suas contribuições para a cultura brasileira, tornando-se um Imortal da Academia Brasileira de Letras em 1990
MESTRE SUASSUNA
Pontos de Força:
Pontos de Vida:
Tipo:
Elemento: Noite
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: André Toma
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Integer commodo erat augue, et gravida urna tempor sed. Cras viverra nulla at est efficitur, sit amet mattis neque porta. Proin sodales sagittis massa, sed tristique sapien euismod a. Praesent dictum erat posuere velit viverra sagittis. Praesent a feugiat massa. Suspendisse ut blandit dolor, at pharetra magna. Morbi hendrerit leo orci, sit amet luctus velit pretium ac. Ut imperdiet hendrerit lectus non fringilla. Nam mollis nisl lacus, sit amet ullamcorper ipsum mollis sit amet. Quisque tincidunt massa vitae turpis consectetur egestas. Ut mollis nisi ut libero pellentesque, et fermentum sapien placerat. Interdum et malesuada fames ac ante ipsum primis in faucibus. Phasellus maximus nisi risus, sit amet sollicitudin ex egestas non.
“E o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos”
– A Fábrica do Poema, de Wally Salomão
Sabe quando se acorda com uma babinha seca no canto da boca? Na tradição popular, a saliva seca da manhã é chamada papa ou “mingau-das-almas”. Dizem que quando a criança não comia direito, as boas almas preparavam um mingau no céu e serviam durante o sono para que ela não morresse de fome.
O gosto não é dos melhores, e faz a criança acordar com a língua amargosa. Por isso, quando se acordava, a primeira coisa a fazer era enxaguar a boca para limpar o mingau.
Na cultura popular brasileira, a atuação das almas durante a noite era frequente – e nem sempre tão positivas assim. Câmara Cascudo dizia que se os seus chinelos amanheciam em posição diferente da que dormiam, eles foram usados por almas. Era costume tampar as tinas e cumbucas de água para que as almas farreadoras e gaiatas não cuspissem nela, contaminando-a.
Também era costume, quando uma comida caia da mão, gritar “para as almas” assim que ela atingisse o solo. Era uma forma de evitar que o alimento fosse comido pelo diabo.
Mingau-das-Almas, na umbanda, é um prato servido aos pretos e pretas velhas. Trata-se de um mingau feito com fubá de arroz e preparado sem sal nenhum, deixado para esfriar no terreiro. Mingau assim, sem tempero, também é uma ótima oferenda para caipora.
MINGAU DAS ALMAS
Tipo: Saberes
Elemento:
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Dharylia
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O minhocão é uma visagem brasileira sempre relacionada ao curso dos rios. É ele o responsável por devorar animais que se aproximam da margem, virar barcaças ou mesmo derrubar construções ribeirinhas. Apesar do nome, as versões mais comuns o descrevem como uma grande serpente, não uma minhoca.
A relação entre serpentes e os rios é muito comum no imaginário coletivo. Afinal, a sinuosidade das águas, que vai encontrando seu caminho pela geografia do terreno, lembra imediatamente o serpentear de uma cobra. No Brasil, as Cobras Grandes e as serpentes adormecidas vão encontrar muitos entrecruzamentos com as narrativas de minhocão no Centro-Oeste.
Uma delas é de Cáceres, no Mato Grosso. Dizem que a Catedral São Luiz foi construída em cima de um terreno onde o Minhocão dormia sob as águas – como na lenda das serpentes adormecidas. O monstro teria se mexido, derrubando boa parte da construção e atrasando em anos a finalização do local.
Penalizada pelo sofrimento de seus filhos, Nossa Senhora teria feito o monstro dormir novamente. E para impedir seu despertar, o prendeu com três fios de seu cabelo. Só quando eles arrebentarem o Minhocão poderá despertar outra vez. A Catedral foi inaugurada em 1965.
Os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são famosos por histórias de Minhocão. Em Cuiabá, no bairro do Pari, conta-se muito da presença do monstro e de formas de aplacar sua fúria. Uma delas é com oferendas de animais, como a cabeça de um porco.
MINHOCÃO
Pontos de Força:
Pontos de Vida:
Tipo: Visagem
Elemento: Água
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Zambi
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