CONHEÇA TODAS AS CARTAS
O boi está morto. Sua ausência no cotidiano da comunidade chega ao ápice durante a quaresma. Nesses quarenta dias de reclusão, não se canta, não se dança, não se ri. É o respeito ao sofrimento de Jesus, que enfrenta as tentações da carne no deserto. O jejum é espelhado, assim como a consternação e o silêncio. Mas a morte não é o fim, é o intervalo até o recomeço.
O Ciclo do Boi no Maranhão se inicia – ou se retoma – com a quebra na Quaresma, no Sábado de Aleluia. Um dia antes do próprio Cristo, é o animal que retorna à vida. Bumba, meu boi! O amo, dono do bicho, reúne seu rebanho. Convoca a comunidade para os primeiros encontros, em que se fala de boi, mas também de si. É a festa que retorna e, junto dela, a vida. No Nordeste, é época ideal para a colheita: feijão, arroz, milho. E não é o boi que, desde os tempos ancestrais, é força de tração que move a terra arada? Fartura. Alegria.
Os tambores são afinados na fogueira de São João. Os miolos do boi, que dão vida ao boi-boneco, assanham-se ainda mais, movimentando um séquito de personagens. Gente, bicho e bicho-gente. Os convidados dessa festa variam de lugar para lugar, mas a estrutura se repete. É um encontro de Brasil. Negros, indígenas e brancos; animais, monstros e até os mortos. Todos têm lugar nessa festa que, ano após ano, retoma um ciclo de vida, morte e renascimento.
Este é o Bumba Meu Boi, a mais “estranha, original e complexa” das danças dramáticas brasileiras, como disse Mário de Andrade. Em levantamento recente, foram encontrados mais de 430 grupos em 79 municípios maranhenses. Divididos, de alguma maneira, em ao menos cinco “sotaques”, que são estilos de festejar e cantar o boi: sotaque da ilha, da baixada (ou Pindaré), de costa de mão, de zabumba (ou de Guimarães) e de orquestra.
“Miolo” é o nome que se dá ao brincante que controla o boi-brinquedo nas festas do Maranhão. Afinal, é o que fica “dentro” do boi, certo? Em outros lugares, como em Parintins, também se chama esse festeiro de “Tripa”.
Grande destaque da festa maranhense é o “couro do boi”, o tecido ricamente enfeitado que vai por cima da capoeira ou carcaça (a armação da peça). Os enfeites que o adornam são feitos de canutilhos coloridos, formando desenhos variados – muitas vezes, em homenagem a santos e outras temáticas devocionais.
A festa do Bumba Meu Boi é fundamentalmente junina. É nesse período que ocorre o ritual de morte e ressurreição do boi, com o seu couro sendo, por vezes, simbolicamente destruído antes de seu retorno. É um marco de um novo ciclo de ano a ser retomado.
MIOLO DE BOI
Pontos de Força: 4
Pontos de Vida: 4
Tipo: Gente
Elemento: Terra
Habilidade:
Quando esta carta vai para o Beleléu pela primeira vez (como resultado de um Desafio), ela permanece em campo, até ser derrotada novamente.
Efeito: Insistência
Citação: "O boi está morto. Viva o boi!"
Artista: Waldeir Brito
– ANDRADE, Mário. As danças dramáticas do Brasil. São Paulo: Itatiaia/Instituto Nacional do Livro/Fundação Pró-Memória, 1982.
– CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O Boi em dois tempos. O Bumba-meu-boi em Mário de Andrade e o Bumbá de Parintins na Amazónia hoje. Todas as Artes. Revista Lusobrasileira de Artes e Cultura, n. 1, v. 1, 2018, p. 112-129.
Uma das histórias mais conhecidas sobre a Matinta-Pereira aborda o momento de sua morte. Nessa versão da narrativa, fala-se de uma bruxa velha que se transforma em Matinta para cumprir um fado; uma maldição gerada por algum comportamento passado. O fado da Matinta se encerra quando ela, velha demais para continuar perambulando pelo mundo, deita-se em seu leito de morte e entoa um lamento tenebroso e repetitivo: “quem quer? Quem quer?”
O que a visagem está oferecendo? Quem quer o quê? É exatamente este o ponto. Dizem que aquela que, escutando o chamado indefinido, responde que sim, recebe como prêmio o fado e se torna a nova Matinta. Uma imagem ligada, ao que parece, à ganância, ao desejo de possuir.
Encontramos ecos muito fortes deste mesmo comportamento nas narrativas coletadas pela professora Maria do Socorro Simões e Christophe Golder. No livro Santarém Conta… (1995) as Matintas não são descritas como velhas, mas sim como mulheres jovens que tinham como peculiaridade o ato de estar sempre luxando. Ou seja, vivendo em ostentação.
Uma das histórias do livro, contada por Francisca Cardoso, fala sobre duas mulheres que eram muito amigas. A amiga mais pobre, de repente, começou a ostentar belas roupas e luxos que anteriormente não dispunha. Com um pouco de inveja, a outra pede que o segredo lhe seja revelado. E a verdade é que, a que luxava, era justamente a Matinta – que usava seus poderes mágicos para conseguir benefícios.
Para revelar o segredo, havia apenas um combinado: a amiga não deveria falar nomes santos em momento algum. A Matinta então se transforma em ave e a leva, voando, para dentro de uma loja com o objetivo de roubar artigos de luxo. A amiga, assustada, gritou: Minha Nossa Senhora! Menina, como foi para gente entrar aqui? Pelo amor de Cristo!”. Pois a Matinta fugiu imediatamente, deixando a outra ser presa.
Percebemos na narrativa coletada uma forte influência europeia no mito, em que dizer o nome de Jesus e Maria afetam a Matinta. O elemento cristão aparece também no relato de Maria de Belém e Oscarina Vasconcelos, no livro de Walcyr Monteiro: “Visagens e assombrações de Belém”. Nele, fala-se de uma armadilha para Matinta que consiste em enterrar uma tesoura virgem aberta em cruz no quintal. No meio desta, colocar uma chave e, por cima, um terço. Bastaria então fazer uma reza que, no outro dia pela manhã, o pássaro-bruxa apareceria preso ao solo.
Câmara Cascudo reproduz, em Geografia dos Mitos Brasileiros, uma carta que recebeu em 1927 do etnólogo Ludwig Schwennhagen. O homem traz um relato que não possui outro lastro, mas é interessante: No interior do Pará e Amazonas, segundo ele, mulheres que fugiam de casa para viver no mato, em casas velhas (taperas) eram chamadas de “tapereiras”. O que as teria feito sair de casa e viver à margem da sociedade? O mundo lendário e concreto se misturam na carta de Ludwig, uma vez que o homem conta que essas mulheres iam de casa em casa, espalhando o medo e exigindo doações para deixarem as casas em paz. Aproveitavam, então, para olhar o movimento das residências e, pela noite, furtar quem lhes havia negado o pedido.
Percebemos neste conjunto de histórias uma mensagem de alerta, prevenindo sobre os riscos de uma vida gananciosa – de querer ter o que não lhe pertence, ou ainda de querer sem saber nem a quê. No entanto, há outra chave de leitura importante para essa versão da narrativa: a relação com o feminino.
Não é qualquer pessoa que assumiria o fado da Matinta, mas as mulheres. Seria então uma história de restrição dos quereres femininos, desestimulando suas ambições? É um caminho, mas não o único. Podem ser todos lastros do pensamento ocidental que se instaura sobre uma narrativa que surge entre os povos indígenas e que vai se transformando muito ao longo dos anos e entre cada contador de histórias. Devemos lembrar que entre povos indígenas existem narrativas distintas sobre esta visagem, que já foi apontada como uma mediadora da relação com o mundo dos mortos.
Variações
A confusão entre Saci Pererê e Matinta Pereira, causada pela origem compartilhada (o pássaro Tapera Naevia) gera variantes curiosas. José Veríssimo, em um artigo publicado em 1883, registra que “Matim-Taperê” é um tapuinho (pequeno indígena), de uma perna só, que não evacua, nem urina, que serve a uma “horrível velha, a quem acompanha as noites de porta em porta a pedir tabaco”.
Outras versões que o mesmo autor colheu fala que o Matim-Taperê é um homem velho, com a cabeça amarrada com um pano ou lenço, como pessoa doente, também a pedir tabaco. Em Manaus, Veríssimo retoma um causo contato pelo velho Paulico, que dizia que Matin-Taperê era um feiticeiro que usa uma flauta. O som do instrumento era o canto do pássaro de mesmo nome, e era graças a ele que conseguia voar. “Referiu-me ter conhecido um tal Júlio que era Matin-Taperê e andava por toda a parte graças a sua flauta”. Seria confusão de Veríssimo ou mesmo variantes ainda imprecisas da relação saci/matinta? Difícil saber.
Outro elemento interessante que Veríssimo coloca em seu texto é uma suposta oração para controlar a velha bruxa: “Matinta-Pereira, Papa-Terra já morreu. Quem lhe governa sou eu.” Para Fernando Alves da Silva Júnior, que estudou histórias de Matinta em Bragança/PA, a relação é com as formas de reconhecimento de quem sofre da sina da visagem. No livro Santos e Visagens, de Eduardo Galvão, por exemplo, conta-se a seguinte história:
“Existem indivíduos que sabem prender a matintaperera sem ficar assombrados. O processo é, ao ouvir-se a matintaperera aproximar-se da porta da casa, recitar uma reza especial e dar uma volta na chave. Na manhã seguinte encontra-se a matintaperera sentada à porta sob sua forma humana. Um de nossos informantes jurou que havia testemunhado uma dessas experiências. A matintaperera aprisionada era uma jovem recém-chegada ao lugar. A cor se sua pele era de um amarelo esverdeado. Foi levada para a delegacia e presa na cadeia”.
Popularmente conhecido como amarelão, a icterícia é um dos sintomas mais evidentes de quem sofre de anemia. Nesses casos, a pessoa fica com a pele bastante amarelada, assim como o branco dos olhos. Como consequência da falta de ferro no sangue, é comum que as pessoas desenvolvam uma perversão no apetite que as leve a comer terra, tijolo, etc.
Assim, pessoas que comem terra e tem pele amarela são frequentemente identificadas como Matinta (ao menos na região estudada por Fernando), o que faz a oração ganhar sentido. “Papa-Terra” é a própria pessoa, acometida da maldição feiticeira.
MORTE DA MATINTA
Tipo: Desafio
Elemento:
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Stuart Marcelo
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Integer commodo erat augue, et gravida urna tempor sed. Cras viverra nulla at est efficitur, sit amet mattis neque porta. Proin sodales sagittis massa, sed tristique sapien euismod a. Praesent dictum erat posuere velit viverra sagittis. Praesent a feugiat massa. Suspendisse ut blandit dolor, at pharetra magna. Morbi hendrerit leo orci, sit amet luctus velit pretium ac. Ut imperdiet hendrerit lectus non fringilla. Nam mollis nisl lacus, sit amet ullamcorper ipsum mollis sit amet. Quisque tincidunt massa vitae turpis consectetur egestas. Ut mollis nisi ut libero pellentesque, et fermentum sapien placerat. Interdum et malesuada fames ac ante ipsum primis in faucibus. Phasellus maximus nisi risus, sit amet sollicitudin ex egestas non.
A Mula sem Cabeça é mito brasileiro que surge por forte influência católica durante o período colonial. Trata-se da história de uma maldição que se abate sobre mulheres que cometem um interdito, um ato proibido. Por conta disso, nas noites de quinta para sexta-feira, assumem a forma de uma grande mula preta sem cabeça. Em seu lugar, expele as chamas do próprio inferno que lhe queimam de dentro para fora.
Quando transformada, a mula deve correr uma carreira descomunal, passando por sete igrejas, sete cemitérios e sete freguesias (vilas). É o mesmo percurso que deve fazer o lobisomem durante o seu fadário. Neste trajeto, a Mula a tudo atropela, e é capaz de destruir os olhos, dentes e unhas de todo aquele que a encara. É por isso que, segundo a tradição, deve deitar-se no chão e esconder as unhas quando esta visagem está passando.
As versões mais conhecidas falam que o interdito que a mula rompe é o relacionamento com um padre católico. No entanto, existem outros exemplos. Alceu Maynard Araújo fala que a moça solteira que tem relação sexual antes do casamento recebe a maldição. Simões Lopes Neto, quando descreve o tipo de pessoa que vira Mula vai falar que são “mulheres de má vida”. Gustavo Barroso vai ser mais objetivo e relacionar a mula à uma metáfora com prostitutas.
A falta de cabeça na mula é simbólica. Representa o abandono da razão. Como se essas mulheres tivessem abandonado as faculdades do pensamento para dar vazão aos prazeres da carne. Não é sem motivo que abandonam a forma humana e assumem a de uma besta. A transformação é, além de tudo, um martírio. Câmara Cascudo aponta que muitos relatos falam que o relincho da mula soa como um gemido, como se morresse de dor. Por vezes, a visagem é ainda montada e torturada pelo próprio diabo, que lhe rasga a barriga com seus chinelos de fogo.
Para que a pessoa não se transforme, os relatos dizem que toda sexta-feira, durante sete anos, o padre deve amaldiçoar antes da missa a mulher com quem se deitou. Manuel Ambrósio, citado por Cascudo fala que o sacerdote deveria, em verdade, amaldiçoá-la sete vezes sete vezes, o que tradicionalmente, é uma forma de se referir a quantias infinitas. Um dos momentos, ressalta o folclorista, é excomungá-la logo antes de colocar os chinelos; para “pisar” metaforicamente na mulher durante todo o dia de orações.
Curioso notar como, no caso do rompimento dos interditos, a mulher é transformada em monstro enquanto ao padre – que também quebrou seus votos – não cabe castigo algum. Em verdade, existe no trabalho de certos estudiosos, alguns relatos de um “cavalo sem cabeça”, que seria a versão masculina do mito que surge após o falecimento do sacerdote. No entanto, o próprio desconhecimento popular desta versão mostra como o imaginário punitivo da mulher é muito mais significativo. Hoje, enfim, estas narrativas vêm sendo mais questionadas.
Existem duas formas de desencantar em definitivo uma mulher tornada mula-sem-cabeça. A primeira é arrancando seu sangue com um alfinete virgem. O sangue vai operar como elemento redentor, como batismo, marca do sofrimento trazido pelo suposto aprendizado que o castigo maldito trouxe. A segunda possibilidade é mais promissora: retirar da mula seu freio de ferro encantado, que repousa em meio às chamas infernais de seu pescoço. Ato de coragem, retirar os freios da mula é metáfora para devolver à mulher sua liberdade.
Outra versão
Em “O Saci”, de Monteiro Lobato, quando Pedrinho pergunta a Tio Barnabé qual a história da Mula sem Cabeça, ele escuta uma resposta que é pouco familiar para nós.
“Dizem que antigamente houve um rei cuja esposa tinha o misterioso hábito de passear certas noites pelo cemitério, não consentindo que ninguém a acompanhasse. O rei incomodou-se com isso e certa noite resolveu segui-la sem que ela o percebesse. No cemitério deu com uma coisa horrenda: a rainha estava comendo o cadáver de uma criança enterrada na véspera e que por suas próprias mãos, cheias de anéis, havia desenterrado! O rei deu um grito. Vendo-se pilhada, a rainha deu outro grito ainda maior — e imediatamente virou nessa mula-sem-cabeça, que desde aquele momento nunca mais parou de galopar pelo mundo, sempre vomitando fogo pelas ventas.”
Não foi possível identificar nenhum outro registro da Mula assim, em que o interdito não tem nada a ver com corpo e sexualidade, e sim com a devoração de cadáveres. Tudo indica que seja uma criação do escritor.
MULA SEM CABEÇA
Pontos de Força: 3
Pontos de Vida: 7
Tipo: Visagem
Elemento: Fogo
Habilidade:
Envie uma carta Gente, de sua Mão, para o Beleléu, para poder invocar Mula. Não é possível invocá-la sem fazer isso, nem com uma carta Saberes.
Efeito: Fadário
Citação: "O relincho dela parece um choro. Aquele fogo... será que dói?"
Artista: Pâmela Vianna
– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012.
– CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global, 2002.
– COSTA, Andriolli. A Mulher do Padre – Tradição e misoginia na adaptação audiovisual do mito da mula sem cabeça. In: XXXX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2017, Curitiba. Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. São Paulo: Intercom, 2017, v. 40. p. 1-14.
– DO NORTE, João. Mulas sem cabeça. O Jornal. Rio de Janeiro. 19 jan. 1922.
– LOBATO, Monteiro. O Saci. São Paulo: Brasiliense, 2005.
– MAGALHÃES, Basílio de. O Folclore no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1939.
– PEREIRA, José Carlos. O encantamento da Sexta-Feira Santa. São Paulo: Annablume, 2005.
Registros de aparições do tipo cresce-míngua são muito comuns em todo o Brasil. Tratam-se de fantasmas que se parecem com pessoas normais, mas que assim que são abordados tomam proporções gigantescas, deixando a vítima apavorada.
Uma constante parece ser a altura: sete metros. Talvez carregando a mística do número mágico, o sete seja a forma como o imaginário popular utiliza para indicar um tamanho incomensurável. Não é por acaso que alguns registros falam de visagens deste tipo cuja cabeça não se podia mais divisar de tão alta que ficava.
Falando especificamente do mito da Mulher-de-Sete-Metros, há versões dela em narrativas de Minas Gerais e da Bahia, sendo acrescidas por algumas variações.
Em Tapiramutá, interior da Bahia, encontramos a narrativa de que uma dessas visagens é o espírito de uma moça muito bonita que morreu noiva, sem conseguir se casar. Por conta disso, na altura de onde ficava o primeiro cemitério da cidade, ela aparece atraindo os homens, sempre vestida de branco e com o rosto coberto por um véu. Quando um homem se aproximava, a assombração se agigantava. Percebemos aqui um atravessamento com as lendas de noivas fantasmas/mulheres de branco.
Em Itabuna, o poeta Minelvino Francisco Silva publicou em 1968 o cordel “A Mulher de Sete Metros que apareceu em Itabuna”. A narrativa tem um tom moralista, em que a assombração (sempre de roupas curtas) pedia carona a um taxista e, após seduzi-lo, ia crescendo, crescendo até ficar da altura de um poste de luz. No cordel, ela explica que sua alma teve o paraíso negado por usar vestes inapropriadas.
Eu morri de mini-saia
E no céu não pude entrar,
esta roupa escandalosa…
Não deixou me aproximar
Voltei ao mundo outra vez
E aqui vivo a penar.
Em Patos de Minas, encontramos a história registrada por Oliveira Melo em 1970. Ele fala de uma mulher chamada Lavi Lopes, que teria sido uma rica fazendeira escravocrata da região. A mulher era de grande perversidade, cometendo todo tipo de tortura com os negros; de jogar óleo quente nas mulheres a quebrar o braço de crianças pisando neles com sapatos de salto.
Quando morreu, foi enterrada no antigo cemitério da cidade, onde hoje se localiza o Fórum de Patos de Minas. Ali, ainda hoje a alma perambula, assumindo tamanho gargantuano para perseguir os que transitam entre a região do fórum e do monumento do Presidente Olegário Maciel. Infelizmente, nenhum registro histórico sobre Lavi Lopes foi encontrado.
Por fim, há relatos também da aparição da Mulher em Montes Claros, entre os bairros Major Prates e Morada do Parque nos anos 1980. Detalhe interessante é que costumavam dizer que, quanto mais as pessoas se distanciavam da assombração, maior ela parecia.
Um jornalista local afirma que tudo foi invenção dele mesmo para pressionar a empresa de transporte público a estender a linhas de ônibus até os bairros em que a assombração atacava. Uma coisa interessante, no entanto, é que o próprio profissional conta que a lenda ficou tão famosa que as pessoas passaram a construir bonecos de Judas enormes, representando a mulher, para serem destruídos no sábado de aleluia. Uma prova de que a narrativa entrou para o folclore da cidade.
MULHER-DE-7-METROS
Tipo: Desafio
Elemento:
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Stuart Marcelo
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Integer commodo erat augue, et gravida urna tempor sed. Cras viverra nulla at est efficitur, sit amet mattis neque porta. Proin sodales sagittis massa, sed tristique sapien euismod a. Praesent dictum erat posuere velit viverra sagittis. Praesent a feugiat massa. Suspendisse ut blandit dolor, at pharetra magna. Morbi hendrerit leo orci, sit amet luctus velit pretium ac. Ut imperdiet hendrerit lectus non fringilla. Nam mollis nisl lacus, sit amet ullamcorper ipsum mollis sit amet. Quisque tincidunt massa vitae turpis consectetur egestas. Ut mollis nisi ut libero pellentesque, et fermentum sapien placerat. Interdum et malesuada fames ac ante ipsum primis in faucibus. Phasellus maximus nisi risus, sit amet sollicitudin ex egestas non.
Acenda velas quem não sabe o resto
Da velha história que eu cortei ao meio
E, ao pé das velas, deixe fumo em rama
Para o Negrinho do Pastoreio
– “Era uma vez”, por Aparício Rillo e Mário Barbará
NEGRINHO DO PASTOREIO
Pontos de Força: 1
Pontos de Vida: 1
Tipo: Visagem
Elemento: Terra
Habilidade:
Envie esta carta da Mão para o Beleléu, para escolher qualquer carta do baralho e adicioná-la à sua Mão. Embaralhe depois disso. O efeito conta como invocação.
Efeito: Busca
Citação: "Negrinho do Pastoreio, acendo esta vela para ti. E peço que me devolvas aquilo que perdi."
Artista: Vitor Wiedergrun
– CARNEIRO, Antonio Joaquim de Souza. Os mitos africanos no Brasil: Ciência do Folk-lore. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937.
– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012.
– CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global, 2002.
– LOPES NETO, João Simões. Contos gauchescos e lendas do sul. 3 ed. Porto Alegre: Globo, 1965.
– OLIVEIRA, Ellen dos Santos Oliveira. Jesus Cristo no epos do Negrinho do Pastoreio: da lenda à Súplica ao negrinho do pastoreio (1959), de Fernandes Barbosa. 2021. 617 f. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2021.
– SPALDING, Walter. Tradições e superstições do Brasil Sul. Ensaio folclórico. Coleção “REX” 3. Rio de Janeiro: Edição da “Organização Simões”, 1955.
Os Mafagafos, por vezes também conhecidos como “Mafaguifos” ou “Mafagafes”, são personagens sem forma, que existem apenas nos trava-línguas das brincadeiras infantis. Ainda assim, a imaginação popular está sempre tentando lhes cravar uma imagem. Por conta da ideia do ninho, muitas vezes, pensa-se neles como pássaros. Outros, porém, vão evocar imediatamente a imagem de insetos.
Não existe uma “versão verdadeira” ou definitiva para o trava-línguas. Afinal, como tudo que existe na tradição oral, o que temos é apenas uma fixação presente de algo fluído. Assim, existem algumas versões:
“Num ninho de mafagafos, tem sete mafagafinhos
Quem os desmafagafizar bom desmafagafizador será.”
“Em cima daquela árvore tem um ninho de mafagafo
E quem lá chegar encontrará quatro mafagafinhos
mamando na mafagafa o leite mafagafoso.
E quem o desmafagafar será um grande desmafagafador.”
“Num ninho de mafagafos, cinco mafagafinhos há! Quem amafagar mais mafagafinho bom amafagafanhador será.”
“Um ninho de mafagafos tem sete mafagafinhos. Quando a mãe mafagafo dá comida aos sete mafagafinhos, eles fazem semelhante mafagafada que ninguém os mafagafaguifa.”
Todas estas alternativas acima são trava-línguas; elementos pertencentes ao braço da literatura oral do folclore de um povo. São conjuntos de frases que possuem sonoridade desafiadora, exigindo a superação da dificuldade de pronunciação. É um ótimo jeito de a pessoa experimentar a língua em todos os seus limites.
Para além da brincadeira, a expressão “Ninho de Mafagafos” é frequentemente utilizada para fazer referência a algo difícil ou confuso. Por relação, o ato de desfazer um Ninho de Mafagafos (ao desmafagafizá-lo) representa a resolução de um problema complexo.
NINHO DE MAFAGAFOS
Tipo: Desafio
Elemento: Firula
Num ninho de mafagafos tem sete mafagafinhos. Quem os desmafagafizar, bom desmafagafizador será.
Condição de Vitória:
Repita o trava-línguas acima sem gaguejar. Errou? Tente no próximo turno.
Especial:
Se não conseguir em três turnos, troque de Desafio.
Artista: Berjê
– ARAUJO, Liane. Quem os desmafagafizar bom desmafagafizador será: textos da tradição oral na alfabetização. Salvador: EDUFBA, 2011.
Tem dente, mas não come. Tem barba, mas não é homem?
Tem coroa, mas não é rei; tem espinho, mas não é peixe.
Cai de pé, corre deitado?
A adivinhação é uma brincadeira popular que envolve a formulação de enigmas ou charadas para que os participantes adivinhem a resposta. O jogo é conhecido por diferentes nomes e variações em várias culturas ao redor do mundo. No Brasil, a expressão “O que é o que é” é comumente utilizada para se referir a essa brincadeira. Vence aquele que conseguir adivinhar a resposta.
Câmara Cascudo vai propor que a adivinhação se caracteriza como um conjunto de analogias e personificações. Ou seja, está ligada na relação de elementos com a figura humana. Mas podemos ser mais precisos, como propõe o folclorista italiano Giuseppe Cochiara:
“A adivinha é um jogo de palavras, no qual vem compreendida ou suposta qualquer coisa que não se diz, ou uma descrição engenhosa e aguda da coisa semelhante, de qualidades e caracteres gerais que se pode atribuir a outra coisa tendo ou não aquela semelhança ou analogia. Essa descrição é sempre vaga, tão vaga que a pessoa a quem é proposta a questão dirige os pensamentos para este ou para aquele significado, incerta quanto à solução a ser encontrada. Pois frequentemente se esconde sob o véu de uma alegoria muito distante, e sob imagens preciosas e agradáveis”
É interessante lembrar ainda que, na tradição popular, a adivinhação nem sempre segue a lógica tradicional. A resposta é mascarada dentro de uma narrativa, como em: “Quatro pés em cima de quatro pés esperando quatro pés chegarem. Quatro pés não vieram, quatro pés foram embora, quatro pés ficaram”. A resposta só é possível ser acertada por quem conhece a cena: Trata-se do gato em cima da mesa esperando o rato chegar. O rato não veio, o gato foi embora e a mesa ficou.
Um exemplo clássico disso é o conto popular português, também bastante famoso no Brasil, chamado João Preguiçoso. Em outras versões também pode ser registrado como João Esperto, Matuto João ou Frei João sem Cuidados. Nele, o protagonista faz uma adivinhação a partir de todos os seus infortúnios para vencer uma princesa num duelo de esperteza e conquistar sua mão em casamento. A variante diz assim:
Saí de casa
Com Pita e massa;
Massa matou Pita,
Pita matou sete;
De sete escolhi a melhor;
Atirei no que vi,
Matei o que não vi;
Com palavras santas
Assei e comi (…)
O QUE É, O QUE É?
Tipo: Desafio
Elemento:
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Michael Borges
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Integer commodo erat augue, et gravida urna tempor sed. Cras viverra nulla at est efficitur, sit amet mattis neque porta. Proin sodales sagittis massa, sed tristique sapien euismod a. Praesent dictum erat posuere velit viverra sagittis. Praesent a feugiat massa. Suspendisse ut blandit dolor, at pharetra magna. Morbi hendrerit leo orci, sit amet luctus velit pretium ac. Ut imperdiet hendrerit lectus non fringilla. Nam mollis nisl lacus, sit amet ullamcorper ipsum mollis sit amet. Quisque tincidunt massa vitae turpis consectetur egestas. Ut mollis nisi ut libero pellentesque, et fermentum sapien placerat. Interdum et malesuada fames ac ante ipsum primis in faucibus. Phasellus maximus nisi risus, sit amet sollicitudin ex egestas non.
Conforme o dito popular, conselho e tabaco só se dá a quem pede. E as visagens, como se sabe, pedem muito. Como nos lembra Cascudo, o fumo de rolo, juntamente com a cachaça, eram indispensáveis para as permutas do Brasil colônia. Curioso, porém, é perceber como este lastro da negociação também passa para o campo do invisível, com bebida e fumo sendo as duas grandes oferendas para atrair, agradar ou ao menos evitar o castigo dos mitos das matas.
Supõe-se que o tabaco foi introduzido na Europa após a colonização das Américas pelos espanhóis e portugueses. Cristóvão Colombo, desde sua primeira viagem ao Novo Mundo, notou que os indígenas “Guanahani”, da ilha de San Salvador, tinham o costume de fumar ervas. Nas expedições seguintes, o frei Bartolomé de Lãs Casas observou que essas ervas eram consumidas envoltas em uma grande folha, na forma de cone, que os povos originários “tobacco”. As folhas eram preparadas e curtidas, como charutos.
Entre os povos originários brasileiros, uma das formas mais tradicionais de utilizar o tabaco é por meio dos cachimbos, tanto de madeira quanto de argila. Fumar em Tupi é pitar, daí temos as palavras pito e piteira. Mais tarde ficam famosos também os cachimbos de barro feitos pelos negros e popularizados pela figura dos pretos velhos.
Outra forma que se costuma consumir fumo na tradição é ao mascá-lo, como um chiclete, por longas horas. De tempos em tempos, a pessoa que masca cospe uma mistura de saliva escura com o caldo do fumo.
Oferece-se fumo para que a Matinta Pereira deixe uma casa em paz e se afaste com seu mau-agouro; deixa-se fumo para sacis, caiporas, curupiras e comadres fulozinhas para que as visagens não lhe atazanem nas matas e até mesmo para São Pedro, escreve Câmara Cascudo, era costume jogar fumo no telhado da casa para fazer parar a chuva.
O fumo faz a ligação direta com a fumaça, e ela com o sopro e o espírito. Por isso está tão ligada ao mundo do além-visto.
OFERTA DE FUMO
Tipo: Saberes
Habilidade:
Procure, no baralho, por uma carta Visagem e invoque-a diretamente no campo. Embaralhe depois disso.
Efeito: Busca
Citação: "É como diz o outro: conselho e tabaco só se dá a quem pede..."
Artista: Otoniel Oliveira
– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2002.
– SANTOS, Christian. BRACHT, Fabiano. CONCEIÇÃO, Gisele. Esta que “é uma das delícias, e mimos desta terra…”: o uso indígena do tabaco nos relatos de cronistas, viajantes e filósofos naturais dos séculos XVI e XVII. Topoi n. 14, v. 26, 2013.
Os trava-línguas, em geral, são usados como jogos verbais desafiadores, destinados a testar a habilidade de alguém em articular palavras difíceis ou sequências complicadas rapidamente, sem cometer erros. Eles têm uma longa tradição em muitas culturas ao redor do mundo e são frequentemente usados como uma forma lúdica de melhorar a dicção e a pronúncia.
O trava-línguas “três pratos de trigo para três tigres tristes” é especialmente eficaz devido à repetição de sons semelhantes e à aliteração – figura de linguagem caracterizada pela repetição de um mesmo som consonantal.
Isso torna difícil para a língua e a mente humana processar rapidamente a sequência de palavras sem se confundir. A brincadeira é utilizada tanto no desenvolvimento infantil quanto por profissionais da voz, como radialistas, para treinar a articulação das palavras.
Não é possível saber qual a origem deste trava-línguas, em especial, mas sabemos que sua versão em espanhol é a mais completa: “Tres tristes tigres tragaban trigo en un trigal, Sentados tras un trigal, en tres tristes trastos, tragaban trigo, tres tristes tigres”.
OS TIGRES TRISTES
Tipo: Desafio
Elemento:
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Stuart Marcelo
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Integer commodo erat augue, et gravida urna tempor sed. Cras viverra nulla at est efficitur, sit amet mattis neque porta. Proin sodales sagittis massa, sed tristique sapien euismod a. Praesent dictum erat posuere velit viverra sagittis. Praesent a feugiat massa. Suspendisse ut blandit dolor, at pharetra magna. Morbi hendrerit leo orci, sit amet luctus velit pretium ac. Ut imperdiet hendrerit lectus non fringilla. Nam mollis nisl lacus, sit amet ullamcorper ipsum mollis sit amet. Quisque tincidunt massa vitae turpis consectetur egestas. Ut mollis nisi ut libero pellentesque, et fermentum sapien placerat. Interdum et malesuada fames ac ante ipsum primis in faucibus. Phasellus maximus nisi risus, sit amet sollicitudin ex egestas non.