CONHEÇA TODAS AS CARTAS
Neste sábado, 30 de agosto, ocorreu o primeiro torneio de Poranduba – Cartas de Cultura.
A iniciativa foi do pesquisador e agente cultural Matheus Schwab, e fez parte de um projeto que ele aprovou no município de Lorena, no interior de São Paulo. Matheus adquiriu quatro baralhos de Poranduba que serviram também como premiação.
O vencedor levou para casa um pôster de Saci feito por César Bergê e todos os baralhos usados no campeonato. Uma raridade, já que o produto está esgotado atualmente.
Parabenizamos ao Caio pela vitória no torneio e ao Matheus pela iniciativa.
Confira as fotos na galeria abaixo!
“Purrinha”, também conhecido como “jogo dos palitinhos” ou ainda “basquete de bolso” é uma diversão típica dos bares e botequins. Pode ser jogado usando palitos de dente, de fósforo ou até mesmo moedas. O objetivo é adivinhar qual a soma dos itens escondidos na mão de todos os participantes na mesa do bar. Quem conseguir não pagará a conta.
Não existe número máximo de participantes, mas cada um só pode dar um palpite. Durante uma partida de purrinha, cada pessoa pode apresentar entre zero e três palitinhos na palma de sua mão. Quando nenhum palito é usado se diz que é “Lona”. Tradicionalmente não se pode vir de lona na primeira rodada. A roda gira no sentido horário, e o primeiro a palpitar numa rodada será o último na seguinte.
Uma das possibilidades para o surgimento do jogo está entre os Romanos, que há séculos possuíam um jogo chamado “Morra” (pronuncia-se Mórra). Nele, era preciso levantar o punho com a mão fechada e depois abaixá-la rapidamente levantando entre zero e cinco dedos. Ao mesmo tempo, falava-se em voz alta o palpite da quantidade de dedos somados entre os jogadores.
Para alguns pesquisadores, foram os imigrantes italianos que trouxeram o jogo da Morra para o Brasil e, a partir dele, derivou-se Porrinha e, depois Purrinha. Seu domínio nos botecos portugueses por aqui, podemos lembrar, pode ter tido alguma influência nesta nomenclatura. Afinal, “porra” em terras lusitanas é como se chama um bastão, e os palitos – como se passa a jogar – são bastõezinhos.
A modalidade é especialmente popular no Rio de Janeiro e adjacências, onde volta e meia encontramos inclusive campeonatos e torneios oficiais de purrinha. Na disputa não basta ter sorte, é preciso também muito de matemática.
PURRINHA
Tipo: Desafio
Elemento: Firula
Condição de Vitória:
Escolha uma carta da sua Mão e coloque-a virada para baixo. Seu oponente faz o mesmo. Seu objetivo é chutar a soma dos PFs das duas cartas. As cartas voltam para a Mão depois disso.
Especial:
Se não conseguir em três turnos, troque de Desafio.
Artista: Daniel Brás
– CASCUDO, Luís. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2002.
– MORETZSOHN, José. Porrinha: Um esboço de pesquisa. Jangada Brasil, Rio de Janeiro, ano 3, n. 37, set. 2001.
Rasga-Mortalha, Suindara, Coruja-de-Igreja. Todos são nomes para o mesmo animal; uma coruja branca de rabo pontiagudo, cujo nome científico é Tyto Furcata. O nome popular pela qual é conhecida se deve ao som do seu canto, estridente e lúgubre, que lembra o som de um tecido rasgando. Qual tecido? A mortalha; a manta que cobre os cadáveres durante o funeral. 💨
Dizem que esta ave tem canto de mau agouro, que anuncia a morte de alguém da família. É comum mandar espantar as Suindaras, para evitar que alguém doente na casa piore de uma hora para a outra. Só não vale fazer mal para o bichinho, viu? Se você quer afastar uma Rasga-Mortalha, basta entoar “Viva os noivos!”, que ela vai embora.
A relação entre corujas e o sobrenatural, entretanto, não é exclusividade desta espécie; encontra-se no próprio nome científico que caracteriza a família destes animais. Existem duas, as Tytonidae (onde está a Suindara) – que vêm da onomatopeia grega para coruja, tyto (τυτώ), e as chamadas “corujas verdadeiras”, que são da família Strigidae. O nome vem de “Strix” ou “Estrige”, um monstro mitológico. O lastro remete à mitologia grega e está ligado a uma maldição. Dizem que Polifonte era uma linda moça que, apesar de sua beleza estonteante, preferiu seguir a deusa caçadora Artemis em vez da bela Afrodite. Polifonte saiu da casa de seus pais e decidiu viver nas montanhas; e, em algumas versões, ela o faz para permanecer virgem.
Irritada, Afrodite lança sobre ela um feitiço que a faz entregar-se aos ursos, com quem copula e engravida. Enojada, Artemis também a renega, o que faz a mulher voltar para a casa dos pais e dar à luz dois gigantes devoradores de homens. Quando os deuses decidem dar um basta naquela situação, Ares sugere que a família seja transformada em pássaros. Polifonte, assim, torna-se uma Estrige – uma grande coruja, cuja presença traz mau agouro e indica a proximidade da guerra. Em Ovídio, fala-se também que a estringe chuparia sangue de crianças, assombrando-as pela noite.
Esse lastro imaginário aproxima muitos elementos, como a própria figura da bruxa. São frequentes as narrativas de mulheres-bruxas capazes de se transformar em aves, especialmente corujas. Ao mesmo tempo, também se diz que uma criança que não se desenvolve, vive adoentada, está sofrendo de “bruxedo”, causado pela visita frequente de bruxas durante a noite.
Em nosso país, exemplo claro desta transformação é a Matinta Pereira. Apesar de existir um pássaro com este nome, da família dos cucos, e de onde se deriva o assobio da visagem, é comum que se fale que a bruxa Matinta vira pássaro preto (como corvo) ou mesmo Rasga-Mortalha. No México e na fronteira com os estados unidos, fala-se muito da Lechuza.
Cascudo registra, no verbete para “Coruja”, em seu dicionário: “Menino, recordo-me do tiroteio promovido pelos criados alarmados pelo insistente canto duma coruja, estando meu pai acamado. Finalmente trouxeram a ave morta, os grandes olhos abertos, para o próprio quarto do doente, aos gritos de alívio: ‘Foi você quem morreu, agoureira!’. Meu pai faleceu quarenta anos depois. Como todo velho sertanejo, dizia não acreditar no canto da coruja, mas não gostava de ouvi-lo”.
Hoje, muitos trabalhos de conscientização vêm sendo feitos para que estes animais não sejam mortos à revelia. Aquele que deseja se ver livre do animal, melhor fazer um esconjuro. A coruja é uma grande caçadora de ratos, cobras, e uma aliada dos humanos no controle desses animais.
RASGA MORTALHA
Pontos de Força: 2
Pontos de Vida: 2
Tipo: Visagem
Elemento: Vento
Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você deve tirar Cara ou Coroa. Se acertar, escolha uma carta, em campo, para ir para o Beleléu.
Efeito: Quebranto
Citação: "'Viva os noivos!'. Mainha sempre gritava isso quando aparecia essa coruja."
Artista: André Vazzios
– CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2002.
– OLIPHANT, Samuel. The story of the strix. Transactions and Proceedings of the American Philological Association, n. 1, v. 47, 1914.
– SANTOS, Carlos et al. Do mau agouro à arte: a coruja no imaginário popular. Revista de Educação do IDEAU, v. 10, n. 22, 2015.
Tramas delicadas que se espalham em vestidos, toalhas, acessórios… O ofício das rendeiras de bilro tem mais de quatro séculos de lastro no Brasil. E permanece bastante vivo, especialmente nas regiões litorâneas. Nossa tradição das rendas de bilro veio de Portugal, que a recebeu, por sua vez, de trocas culturais com Flandres, Itália e pela influência das viagens ao Oriente.
Os bilros de que se fala são bastõezinhos de madeira, nos quais as linhas são enroladas. A renda é produzida sobre uma almofada preenchida por serragem, algodão ou até palha de bananeira. É por cima da almofada que ficam os moldes de onde a renda será traçada, o “pique”. Tradicionalmente, o pique era feito de papel ou papelão, mas hoje já é comum o uso de uma fotocópia sob um papel-manteiga. Mantendo a prática comunitária da cultura popular, a troca de moldes entre as artesãs ajuda a técnica a se espalhar.
Existem vários tipos de pontos (ou conjunto de pontos) feitos na renda de bilro. A nomenclatura varia de região para região, mas temos
perna cheia ou traça, tijolo, besouro, búzio, aranha, pano fechado, pano aberto e assim por diante.
Um dos registros mais antigos dessa técnica data do século XVI, em um livro publicado em Zurique. Encontramos rendas feitas com bilro nomeadas de diversas maneiras em outros países, como a renda genovesa, milanesa, veneziana, entre outras. Uma das rendas de bilros mais famosas é a chantilly, que foi uma das preferidas da rainha Maria Antonieta (1755-1793).
Um acontecimento histórico curioso se deu em 1749. Diante de uma recessão econômica galopante, causada pelo declínio da produção de ouro nas colônias, o governo português baixou um novo decreto de controle sobre costumes – as chamadas “Pragmáticas”. O texto da lei proibia a ostentação de artigos de luxo: joias, cristais, pedras preciosas… e rendas.
A proibição foi um duro golpe para as artesãs portuguesas, que se organizaram politicamente. As rendeiras fizeram uma petição, justificando as graves perdas comerciais para o país. E enviaram uma representante para discutir na corte: Joana Maria de Jesus, de Vila Conde. No mesmo ano, um alvará flexibilizou a situação.
Para fazer uma criança falar depressa, dizem que se costumava dar de beber água em que esteve de molho um chocalho ou um bilro de renda. A lógica da tradição, para Cascudo, está ligada ao fato de o bilro ter um movimento incessante, estimulando, por simpatia, a dinâmica nas cordas vocais quando a água é bebida.
RENDEIRA
Pontos de Força: 1
Pontos de Vida: 1
Tipo: Gente
Elemento: Vento
Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você deve recuperar uma carta Saberes do Beleléu, de volta para sua Mão.
Efeito: Busca
Citação: "Aprendi a rendar com minha avó, que aprendeu com a avó dela. Agora é sua vez, filha."
Artista: Dante Luiz
– CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2002.
– FELIPPI, Vera. Decifrando rendas: processos, técnicas e histórias. Porto Alegre: Edição da Autora, 2021.
– FELIPPI, Vera; PERRY, Gabriela. Renda de Bilros: estudo de pontos tecidos nas regiões Nordeste e Sul do Brasil. ModaPalavra, v. 11, n. 21, p. 126-146, 2018.
Romãozinho é um mito conhecido em parte do Centro-Oeste e Nordeste brasileiro. Conta a história de um menino que, de tanto cometer maldades, foi amaldiçoado pela mãe. A partir da praga da própria genitora, torna-se uma visagem errante, condenada a perambular pelo país levando sempre o caos e inspirando violência por onde passa. Romãozinho é conhecido por surrar cachorros, apedrejar casas e gerar brigas entre as famílias.
Poucas são as versões que falam da aparência do menino. José Teixeira, ao analisar o folclore goiano, fala que era um menino negro. Alguns autores vão se apressar em comparar Romãozinho ao saci, mas isso seria uma injustiça. Saci nunca fez maldade verdadeira; no máximo, ele exagera um pouco nas brincadeiras. Só que Romãozinho faz o que faz por gosto…
Sua história mais famosa é justamente a que dá origem à sua maldição. Dizem que Romãozinho era o filho de uma família de camponeses muito humildes e que, todo dia, o menino tinha de levar o almoço para o pai enquanto ele estava capinando na roça dos outros. Um dia, o garoto resolveu abrir a marmita, comer metade da comida do pai e entregar como se nada tivesse acontecido.
O pai, todo dia, chegava em casa reclamando da quantidade de alimento. A esposa, indignada, fazia mais no dia seguinte. Inútil, Romãozinho comia a mais, do mesmo modo, que era para deixar o pai cada vez mais irritado. Quando a situação chegou ao limite, a mãe tomou medidas drásticas: assou um frango inteiro e entregou ao garoto para levar ao pai. O que Romãozinho fez?
Exatamente. Sentou-se debaixo de uma árvore e, com a maior calma do mundo, comeu o frango inteirinho. Na marmita, devolveu só os ossos. Quando o pai encontrou a quentinha vazia, o moleque malvado arrematou: disse que aquilo era piada da mãe. Arquitetada por ela e pelo vizinho, seu amante, que morreram de rir enquanto preparavam o prato vazio para o lavrador.
Só que não havia amante algum. Era tudo criação do menino. E, mesmo que houvesse, nada justificaria o que aconteceu em seguida. O pai, enlouquecido de raiva e ciúme, volta para casa e mata a mulher, sem dar chance de ela argumentar. Antes de morrer, no entanto, ela olha para o filho − que gargalha diante do seu destino trágico − e entende tudo. É ali que a praga é lançada. É ali que nasce o mito de Romãozinho.
Essa terrível história, cheia de perversidade, possui algumas variações. Em outra versão, colhida por José Teixeira, Romãozinho era um menino mal-educado que só sabia cantar coco e participar de desafios nos batuques e pagodes. Um dia, quando a mãe o repreendeu, o garoto deu-lhe “uma surra de sopapos e pontapés”. A mulher, então, amaldiçoou o malvado, que se tornou o duende do mito.
E o que acontece depois da maldição? Ninguém sabe ao certo. Em Wilson Lins, Romãozinho estoura depois da praga da mãe, deixando atrás de si “um horrível cheiro de enxofre”. O que se sabe é que o menino virou “bicho” há mais de 200 anos, mas sempre mantém a aparência de criança. Cascudo relembra versões que dizem que Romãozinho lambeu o fogo do inferno após ser amaldiçoado, por isso aparece sempre “apagando e acendendo uma chama azul misteriosa”. É o lastro de mais um mito ligado ao fenômeno do fogo-fátuo.
As maldades realizadas pelo Romãozinho também variam. Das mais inocentes, como jogar pedras no telhado, levantar a saia das moças e beber toda a cachaça das festas, até as mais graves. Existem relatos de pessoas que dizem que o Romãozinho tira chicotes, cabos de vassoura, cordas e os usa para bater nas pessoas da casa. Seria mesmo Romãozinho ou uma desculpa para mascarar a violência doméstica? É preciso ficar atento.
ROMÃOZINHO
Pontos de Força: 2
Pontos de Vida: 2
Tipo: Visagem
Elemento: Fogo
Habilidade:
Envie esta carta do campo para o Beleléu. Escolha uma carta do campo do oponente, para enviar também.
Efeito: Quebranto
Citação: "Muita gente compara esse menino com o Saci. Só que Saci nunca foi ruim..."
Artista: Karl Felippe
– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012.
– LINS,Wilson. O médio São Francisco: uma sociedade de pastores guerreiros. 3 ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1983.
– TEIXEIRA, José A. Folclore Goiano: Cancioneiro – Lendas – Superstições. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1959.
“Pererê” é uma palavra que deriva da palavra tupi “perereg”, significando “aquilo que pula”. É o mesmo radical que vai formar “perereca”. No entanto, como nada no imaginário tem uma origem única, “Pererê” é também onomatopeia do canto de um pássaro. Como a oralidade não tem registro fixo, quem escuta o passarinho cantar transcreve da maneira que entendeu. Por isso, temos outros nomes: Saci-Sererê, Taperê, Taterê, Tererê e assim por diante.
Os primeiros registros escritos de Saci foram feitos na década de 1850, publicados no jornal Correio Paulistano. No artigo, já se falava dele como pertencente a uma “tradição das avós”. Com isso, podemos traçar o surgimento desta visagem próximo ao final do século XVIII. Isso quer dizer que, diferentemente dos mitos de origem indígena como Curupira ou Boitatá, não se falava em Saci no Brasil durante os primeiros 300 anos após a chegada dos portugueses, em 1500.
Podemos, com isso, entender que a crença no Saci surge com o imaginário colonial, em que cada povo partilhou um pouco das características que hoje tornam o Saci tão conhecido. Dos indígenas, herda o domínio das matas, dos segredos das ervas e dos chás. Dos negros, empresta o cachimbo dos pretos velhos, o assobio de Exu, e, dos orixás Ossain e Aroni, recebe a cor da pele, a perna única e, novamente, o reforço dos poderes das matas. Por fim, dos duendes portugueses, recebe a carapuça vermelha como objeto de poder – algo frequente entre gnomos, trasgos e outras visagens europeias. É pelo imaginário português que o Saci adentra as residências, sumindo com coisas, azedando a comida, dando nó em tudo que se embola.
Vale lembrar que o Saci nada tem a ver com demônio, diabo ou suas variações; os registros do século XIX e início do XX que o mencionam dessa forma são interpretações de um tempo em que o racismo demonizava todos os elementos da cultura negra, relacionando tudo o que dizia respeito a sua pele, hábitos, cabelo e crenças como monstrificáveis. Um entendimento adequado seria pensar nele como um duende. Um ser capaz de ajudar e atazanar, basta cair em suas graças.
Existem várias origens possíveis para seu nome. Uma das possibilidades é a onomatopeia do canto de duas aves; o Peixe-Frito-Pavonino (Dromococcyx pavoninus) e a Tapera Naevia, pássaro que recebe vários nomes pelo Brasil: Matinta Pereira, Sem-Fim e, claro, Saci.
Outra possibilidade é da derivação de Yasy Yateré, visagem do povo Guarani de duas pernas, cujos primeiros relatos também retomam ao século XIX. Apesar da semelhança do nome, os dois mitos são bem diferentes. “Yasy Yateré” significa algo como “fragmento da lua”, e isso influencia a sua aparência. Ele é normalmente descrito como branco, loiro e portador de um cajado dourado, que é seu objeto de poder.
O Yasy tem domínio sobre o mel e também é protetor das siestas. Dizem que costuma sequestrar as crianças que saem para brincar longe dos pais enquanto eles dormem. Outro detalhe interessante é que, por ser filho da lua, herda também a influência que ela tem sobre o corpo feminino. É capaz de enlouquecer pessoas, especialmente as mulheres, graças a sua habilidade.
O que acontece muito, especialmente em regiões de fronteira, é que o imaginário, assim como a cultura, mistura-se para além das bordas. Yasy, Saci e outras visagens da fronteira, como o Pombero ou Pomberito, vão intercambiando aspectos de suas narrativas, formando versões únicas para cada contador. Por isso, às vezes, vamos encontrar histórias de sacis tão diferentes, mas com elementos familiares.
Para acalmar o Saci, assim como os demais duendes da região, o costume é padrão: ofertas de fumo, cachaça, mel ou angu. Para afastá-los: bentinhos, rosários e alho são a opção mais frequente.
Ao se falar de Saci, é impossível não lembrar de Monteiro Lobato. O escritor (1882-1948) incorporou o Saci em apenas uma das histórias de sua série de livros infantis mais famosa; o Sítio do Picapau Amarelo. No entanto, o personagem fez tanto sucesso, que, logo nas primeiras adaptações para o audiovisual, já se tornou coprotagonista – ajudando os netos de Dona Benta em suas aventuras pelas terras mágicas no interior do Brasil.
O interesse do autor pelo Saci data de anos antes da publicação da primeira história do Sítio, lançada em 1921. Ainda em 1917, Lobato lançou nas páginas do jornal O Estado de SP o chamado “Inquérito sobre o Saci”. Nele, solicitava que os leitores respondessem por carta a um conjunto de perguntas, com o objetivo de rastrear a presença do Saci pelo imaginário brasileiro. Foram mais de 70 cartas recebidas, compondo um panorama riquíssimo deste que é, até hoje, um dos mais famosos mitos do país.
SACI PERERÊ
Pontos de Força: 3
Pontos de Vida: 4
Tipo: Visagem
Elemento: Vento
Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você deve escolher uma carta, em campo, para devolvê-la à Mão da pessoa.
Efeito: Retorno
Citação: "Garrafa? Que coisa mais antiquada... Aqui só trabalhamos com sacis livres."
Artista: Hugo Canuto
– Ambrosetti, Juan B. Materiales para el estudio del folk-lore misionero. Revista del Jardin Zoologico, 1894.
– Correio Paulistano. Tradições Populares de Minas e S. Paulo. São Paulo, 22 set. 1859, p. 2-3.
– Costa, Andriolli. Saci centenário: uma análise mitocrítica de Saci Pererê – resultado de um inquérito. Revista Boitatá, v. 16, n. 31, p. 26-36, 2021.
– Lobato, Monteiro. O Saci-Pererê – Resultado de um inquérito. São Paulo: Globo, 2008.
– Lobato, Monteiro. O Saci. São Paulo: Brasiliense, 2005.
– Queiroz, Renato. Migração e metamorfose de um mito brasileiro: o saci, trickster da cultura caipira. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. SP, n. 38, p. 141-148, 1995.
– Queiroz, Renato. O herói-trapaceiro. Reflexões sobre a figura do trickster. Tempo Social – Revista de Sociologia da USP, SP, v. 3., n. 1, p. 93-107, 1991.
– Queiroz, Renato. Um mito bem brasileiro: estudo antropológico sobre o Saci. São Paulo: Polis, 1987.
O Saci-Pererê, certamente, é um dos mitos mais conhecidos em todo o Brasil. Engana-se, no entanto, aquele que pensa que seu espaço de atuação se restringe às matas. O Saci saltita entre nós e atualiza sua presença para se manter sempre presente. Quem sabe não seja ele quem dê nó nos fones de ouvido ainda dentro do bolso da calça, da mesma forma que trança a crina dos cavalos? Ou ainda suma com seu sinal de Wi-Fi como sumia com o dedal da costureira? Não é sem motivo que, sempre que um contador de histórias fala de seu nome e surge algum problema técnico, o Saci é apontado como o responsável.
Basta acessar as redes sociais para ver como o Saci é onipresente. Ele está em aplicativos de geolocalização, mostrando o check-in em restaurantes, bairros, lojas com seu nome. Está nas expressões populares, ligado à bagunça (“Virado no Saci”) ou intensidade (“Vai cair uma chuva do Saci!”). Está nos ditos populares, que vão desde o “Em terra de Saci, calça jeans dá para dois”, para representar o improviso e a gambiarra, até o que também lembra sua terra, em que “Qualquer chute é voadora”. Isso para não falar naquele que identifica sua solteirice como estando “Mais avulso que chinelo de Saci”.
Saci está também nos apelidos (muitas vezes racistas, não vamos negar) ligados à negritude, ao uso do cachimbo ou à ausência de uma perna. É esse último elemento, inclusive, que faz com que ele esteja presente em nosso imaginário toda vez que vemos alguém com a perna engessada ou saltando em um só pé. São todas demonstrações da presença cotidiana desta visagem em nossas vidas, mesmo que não a percebamos.
Saci está também nos esportes. É mascote do Internacional de Porto Alegre desde meados do século XX, quando, em resposta à alcunha de que os jogadores eram “negros mandingueiros”, o time colorado abraçou a provocação e instituiu o Saci como representante desta habilidade misteriosa. Em 2010, ventilou-se a possibilidade de que ele fosse substituído, dando lugar ao macaco Escurinho – mascote das causas sociais do Inter. Os torcedores não permitiram.
Além do Inter, o Saci é ou foi mascote de outros times de futebol, como o Social Futebol Clube, de Coronel Fabriciano, MG; e o Esporte Clube Comercial, de Campo Grande, MS. Este último já foi apelidado de O Saci da Vila, mas hoje ostenta um lobo-guará como mascote.
E, é claro, o Saci está nas paredes das nossas cidades. Volta e meia, o transeunte vai se deparar com imagens estetizadas da figura em vermelho e preto, com o traço crítico do grafite traduzindo a personalidade de cada artista. E, entre as intervenções na rua, a mais notória é a do Saci Urbano.
A imagem é criação do artista visual Thiago Vaz, que nasceu no interior da Bahia, mas logo cedo se mudou para São Paulo. Desse interstício, floresceu, em 2008, essa figura “chavosa”, com um único pé calçado num tênis vermelho – a mesma cor de sua boina. Em suas marcações, está sempre trazendo um comentário social. É retratado tomando dura da polícia, sendo expulso de prédios abandonados pela especulação imobiliária, chorando a morte de seus irmãos negros em mais uma chacina cometida pelo Estado.
O Saci Urbano de Thiago já circulou pelo mundo. Na forma de lambe-lambe, foi marcado nas ruas de Paris, Berlim e muitas outras. Sua presença fora do país ajuda a nos lembrar como a cultura popular não depende de crença, mas de reconhecimento e identidade. Um francês que veja na parede a figura perneta, com seu indefectível chapéu vermelho, não o tomará como mais do que uma imagem curiosa. Mas um brasileiro que o veja saberá de imediato quem ele é.
SACI URBANO
Pontos de Força: 4
Pontos de Vida: 2
Tipo: Gente
Elemento: Noite
Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você deve tirar Cara ou Coroa. Se acertar, tome controle de uma carta Visagem do seu oponente, até o Desafio atual ser vencido.
Efeito: Encanto
Citação: "Cuidado ao apostar com o Saci. Nem sempre ele ganha, mas você sempre perde."
Artista: Thiago Vaz
– COSTA, Andriolli. Poranduba 31 – Saci Urbano. 28/02/2019
– Saci é usado para “denunciar” violência e falta de áreas de lazer. Estadão. São Paulo/SP
Mito ligado ao caos e à desordem, o Saci permeia o imaginário brasileiro há pelo menos dois séculos. Diferentemente do que muitos podem pensar, no entanto, o Pererê não é o único tipo de Saci que existe. É o mais conhecido, o mais notório, mas existem inúmeros outros.
Em Saci Pererê – Resultado de um Inquérito, organizado por Monteiro Lobato em 1917 e publicado no ano seguinte. Na obra, mais de 70 depoimentos compartilham narrativas sobre saci das mais diferentes. Há sacis com orelhas de macaco, com chifres de bode e rabo de cachorro. Há outros com fogo nos olhos, com mãos de pilão ou corpo coberto de fubá.
Ainda assim, mesmo tendo praticamente um saci diferente em cada narrativa, os nomes apresentados não trazem tanta variação. Fala-se em Saci Ceperé, Saci Cererê, Saci Trique, Saci Siriri, Saci Serumpererê, Saci Perereca, Saci Saterê, Saci Mofera, Saci Saperê, Saci Saderê, Saci Patarê e Saci Sia-Teresa. Alguns com meramente uma linha de descrição.
O naturalista Emílio Goeldi, ao estudar os pássaros que inspiram as histórias de Saci, coletou causos de Saci-Fogo e Saci-Cererê em que se falava que a visagem era capaz de soltar fogo pela boca, representando uma encarnação do terror. Outros registros vão falar de seu costume de dançar uma brasinha pelo buraco das mãos, que a utiliza para acender seu cachimbo.
Outro elemento muito frequente nos registros antigos diz respeito aos olhos do saci. Eram olhos de fogo, luminescentes, que dançavam como fogo-fátuos pela noite.
Ao abordar os viajantes, os Sacis costumam pedir fumo ou fogo para seu pito. Quem oferece recebe sua gratidão e auxílio. Quem se nega, no entanto, é perseguido pelo saci e sofre todo tipo de infortúnio.
SACI-CERERÊ
Pontos de Força:
Pontos de Vida:
Tipo:
Elemento: Fogo
Habilidade:
Efeito:
Citação:
Artista: Janio Garcia
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Integer commodo erat augue, et gravida urna tempor sed. Cras viverra nulla at est efficitur, sit amet mattis neque porta. Proin sodales sagittis massa, sed tristique sapien euismod a. Praesent dictum erat posuere velit viverra sagittis. Praesent a feugiat massa. Suspendisse ut blandit dolor, at pharetra magna. Morbi hendrerit leo orci, sit amet luctus velit pretium ac. Ut imperdiet hendrerit lectus non fringilla. Nam mollis nisl lacus, sit amet ullamcorper ipsum mollis sit amet. Quisque tincidunt massa vitae turpis consectetur egestas. Ut mollis nisi ut libero pellentesque, et fermentum sapien placerat. Interdum et malesuada fames ac ante ipsum primis in faucibus. Phasellus maximus nisi risus, sit amet sollicitudin ex egestas non.
Na cultura popular, Santo Antônio tem a fama de encontrar coisas perdidas. Por que não um grande amor? Só que o santinho tem o seu tempo, que pode não ser o mesmo da pessoa apaixonada. Para agilizar o cumprimento dos favores, é comum que o povo se utilize de um conjunto de estratégias mágicas: a magia simpática ou simpatia.
Uma simpatia é um ato de construir uma relação de continuidade entre o mundo material e o mundo mágico, fazendo com que a realidade se transforme. Exemplos clássicos são os de martirizar a estátua do santo para que ele cumpra com os pedidos: tirar o menino Jesus de seu colo, congelar a escultura, virá-la em um copo d’água e assim por diante.
Conforme a historiadora Laura de Mello e Souza, essas práticas que ela nomeia “formas afetivizadas de religiosidade popular” começam a desaparecer na Europa no final do século XVIII, mas persistem nos países colonizados especialmente por conta da devoção aos santos e à Virgem Maria.
Como bem lembra a autora, o santo que se venera é também aquele que, no toma-lá-dá-cá, pode-se atirar num canto, xingar, odiar em rompantes de cólera ou de insatisfação. É afeto até demais!
Na quadrilha das festas juninas, cantamos desavisados: “Eu pedi numa oração, ao querido São João, que me desse um matrimônio. São João disse que não, São João disse que não, isso é lá com Santo Antônio”. Os mais experientes, no entanto, sabem que a fama de Antônio é de encontrar amores, não de mantê-los. Por isso ficou famosa a trovinha: “Meu Santo Antônio querido, eu lhe peço por quem sois. Dê-me o primeiro marido, que o outro arranjo depois”. Quem quer mesmo um bom santo casamenteiro recorre a São José.
Segundo a sua hagiografia, que é como são chamadas as biografias dos santos, Fernando Antônio de Bulhões – aquele que viria a ser conhecido como Santo Antônio de Pádua – nasceu no século XII em Lisboa. Ao longo de sua vida ficou conhecido como o protetor dos pobres, pois tinha o costume de pegar os pães do convento e distribuir entre os famintos. O ato se traduz ainda hoje, quando as paróquias distribuem todo dia 13 os pãezinhos de Santo Antônio.
A data faz referência ao próprio dia de Santo Antônio, celebrado em 13 de junho, fazendo parte do ciclo da festa junina. Nas cidades que tem o santo como seu padroeiro, é comum que se celebre o período com a venda do bolo em sua homenagem. A receita varia, mas com frequência será um pão de ló com recheio de doce de leite e cobertura de chantilly. O detalhe, e que o torna tão procurado, são as prendas: dentro dos bolos a paróquia esconde centenas de alianças, medalhinhas ou bonequinhos de Santo Antônio. Quem encontrar casará dentro de um ano.
Interessante é ver como, em momentos de adversidade, a cultura popular busca se adequar para permanecer viva. Durante a pandemia, o município de Campo Grande/MS, foi um dos que manteve a tradição de maneira adaptada. Por três anos o bolo de Santo Antônio foi vendido na forma de bolo de pote, com 500 alianças distribuídas aleatoriamente entre os pedidos. Já garantiu a sua?
SANTO DE PONTA CABEÇA
Tipo: Saberes
Habilidade:
Simpatia casamenteira. Procure, no baralho, por uma carta Gente e invoque-a diretamente no campo. Embaralhe depois disso.
Efeito: Busca
Citação: "S. Antônio, querido, eu vos peço, por quem sois: dai-me o primeiro marido, o outro arranjo depois."
Artista: André Vazzios
– SIMAS, Luiz Antônio. Santo de casa: fé, crenças e festas de cada dia. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2022.
– SOUZA, Laura de Mello. O Diabo e a Terra de Santa Cruz − Feitiçaria e Religiosidade Popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
– VARAZZE, Jacopo de. Legenda Áurea. Vidas de Santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.