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Gaiteira

Ilustração de uma moça de cabelos longos, vestido branco e uma longa saia rosa, ela está tocando uma gaita (ou sanfona). No fundo um pôr do sol por detras das montanhas
Arte de: Camila Raposa e André Vazzios

GAITEIRA

Relatório

Quero gaita de oito baixos para ver o ronco que sai
Botas feitio do Alegrete, esporas do Ibirocai
Lenço vermelho e guaiaca compradas lá no Uruguai
Pra que digam quando eu passe,
Saiu igualzito ao pai
– Guri (1983), por César Passarinho

Acordeão, sanfona, gaita. Todos são nomes para o mesmo instrumento de teclas, composto por duas caixas retangulares ligadas por um fole. No Rio Grande do Sul, é mais conhecido pela última alcunha, gaita, o que Cascudo identifica como uma derivação da gaita de foles. Sanfona fica mais notório no Nordeste brasileiro, ainda que originalmente este nome fosse utilizado, em Portugal, para se referir a outro instrumento, de cordas, que nada tem a ver com ele.

Já a nomenclatura “acordeão” viria do Alemão, em referência aos acordes de notas musicais. Por aqui, também é comum que o tocador o chame de “cordeona”, que é uma forma de se referir no feminino ao instrumento que passa as noites envolto nos braços do músico.

Este último detalhe nos leva para a centralidade do texto sobre a figura da gaiteira: o lugar da mulher na música tradicional gaúcha. De maneira geral, não era estranho que uma mulher soubesse tocar gaita, mas, por muito tempo, este foi um espaço que lhe foi subalternizado, não de protagonista. As mulheres eram inspirações, musas.

Em 1956, por exemplo, os Irmãos Bertussi fizeram a primeira gravação fonográfica de um ritmo típico dos pampas, conhecido como “bugio”, que é dançado com dois pulinhos para um lado e para o outro. Em entrevista posterior, os irmãos explicaram que o ritmo da música veio da lembrança de uma gaiteira de nome esquecido, a qual lhes apresentou a melodia às escondidas. Afinal, o bugio não era música para mulher direita tocar.

Duas das pioneiras na indústria musical foram Jeanette Ferreira da Costa (1942-2017) e Mary Terezinha (1948). A última, que tocava desde tenra idade, encantava a plateia quando criança, ao saber, de cor e salteado, o repertório de Victor Matheus Teixeira, o Teixeirinha – ao ponto de ficar conhecida como “Teixeirinha de Saias”, segundo ela mesma. Aos 15 anos de idade, após ganhar um concurso, foi chamada para acompanhar o gaiteiro. A partir daí, sua vida mudaria para sempre.

A dupla Teixeirinha e Mary Terezinha fez muito sucesso entre os anos 1960 e 1980. No entanto, como ela mesma conta em sua autobiografia de 1992, a relação foi marcada por todo tipo de abuso e violência contra a moça – que era 23 anos mais nova que o cantor. O primeiro parágrafo do livro já demonstra: “Tenho quinze anos e estou vivendo como concubina de um homem que não amo, embora não saiba nem o que é amar e nem o que é ser amante. O nome do homem é Victor Matheus Teixeira, mais conhecido por Teixeirinha. Ele já foi o meu ídolo.”

Diante de todas as ameaças e do machismo da época, Mary conseguiu se divorciar e, ainda hoje, faz apresentações e promete novas músicas. Uma sobrevivente que inspira outras mulheres a encontrarem forças para sair de situações de abuso, infelizmente tão comuns.

Já Jeanette nasceu em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, e aprendeu a tocar quando criança, com sua mãe, que tocava sete instrumentos. Aos 14 anos de idade, passou a acompanhar o músico tradicionalista Gildo de Freitas – o Rei da Trova.

Na década de 1960, quando trabalhava como radialista, conheceu Nelson, com quem fez dupla por mais de 20 anos, produzindo 22 discos. Jeanette chegou a ser conhecida como a Rainha do Acordeon, tamanho o reconhecimento. A dupla Nelson e Jeanette acabou com o fim do relacionamento entre os dois e, infelizmente, o sucesso nunca mais foi o mesmo.

Hoje, o papel da mulher na sociedade – e, por consequência, na música tradicionalista – tem mudado.

Já temos mulheres patroas de CTG, os Centros de Tradição Gaúcha. Surgem movimentos como o Gauchismo Líquido, da pesquisadora e compositora Clarissa Ferreira, que problematiza o cerne da tradição. Temos o caso de Gabriella Meindrad, a primeira mulher trans a se tornar prenda em um CTG. E, por outro lado, temos também mulheres que sobem ao palco já de bota e bombacha, não mais de vestido. É que, por muito tempo, era preciso estar de prenda para galgar esse espaço tão masculino. Uma tradição instituída pelo próprio Movimento Tradicionalista, que criou a vestimenta em meados do século XX.

GAITEIRA
Pontos de Força: 3
Pontos de Vida: 3

Tipo: Gente
Elemento: Noite

Habilidade:
Quando esta carta é invocada, seu oponente não pode invocar nenhuma carta Gente ou Visagem por um turno.

Efeito: Pausa

Citação: "Essa aí é taura. Saiu igualzita ao pai!"

Artista: Camila Raposa

Carta da Gaiteira. Com ilustração de uma moça de cabelos longos, vestido branco e uma longa saia rosa, ela está tocando uma gaita (ou sanfona). No fundo um pôr do sol por detras das montanhas

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Fontes

– REOLON, Cleici; OLIVEIRA, Natalie. A moda do vestido de prenda: do surgimento até os dias atuais. RIHRGS, n. 157, Porto Alegre, 2019. p. 175-196.
– TEREZINHA, Mary. A Gaita Nua. Porto Alegre: Rigel, 1992.

Guerreiro de Alagoas

Arte de: Jean Lins

GUERREIRO DE ALAGOAS

Relatório

Mestre Pedro, eu saí de Penedo
Domingo bem cedo, às seis horas.
Só agora é que estou recordando
Sou alagoano onde o Guerreiro mora.

Me lembrei de Palmeira dos Índios
Pra lá vou seguindo agora.
Sou devoto de Nossa Senhora,
Sou alagoano onde o Guerreiro mora.
– Guerreiro Alagoano

“Guerreiro! Cheguei agora. Nossa Senhora é nossa defesa!”. É assim que os brincantes anunciam sua chegada. Os Guerreiros se apresentam para a batalha simulada, cada qual ostentando sua vestimenta mais distinta: enormes chapéus imitando catedrais, dardejados de miçangas e pedrarias. Os adereços chegam a pesar até 15 kg.

Guerreiro é um folguedo típico do estado de Alagoas que surge em tempos relativamente recentes em comparação a outras festas que já fazem parte do nosso calendário cultural desde o período colonial. Seu início se deu nos anos 1920, a partir da mistura de elementos de outros folguedos, como Reisados, Cheganças e Pastoris.

Tradicionalmente acontece durante o Ciclo de Reis. Em verdade, alguns autores comentam que, em Alagoas, houve uma “transição” dos Reisados para o auto dos Guerreiros

Câmara Cascudo registra que assistiu a um destes autos em Maceió, 1952. Na época, os personagens eram humanos e não-humanos. Havia rei, rainha, mestre e contramestre, primeiro e segundo embaixador, general, “índio Peri”, os vaqueiros Mateus, palhaços e sereias.

Na vertente registrada por Artur Ramos, o elenco era muito maior ,e especialmente entre personagens não-humanos: estrela, borboleta, Lira, etc. Havia um enredo mais claro para o auto, que consistia na morte e ressureição da Lira e na luta de espada entre os indígenas e os vassalos dos guerreiros. Conforme alguns pesquisadores, o nome Lira é corruptela de “Lília”. A referência parece ser a uma personagem típica do cancioneiro português:

Minueto de Lereno, 1798
Lilia, oh Lilia, tu não escutas, soar nas grutas o meu clamor!
Não me apareces, não te enterneces da minha dor?
Lilia, oh Lilia, morro de amor!

Lilia, oh Lilia, lá de onde assistes, ouve os ais tristes do teu Pastor:
Não tardes mais, vem aos meus ais e ao meu clamor.
Lilia, oh Lilia, morro de amor!

Mas com tantos personagens, como o enredo se desenvolve? Na sua dissertação “Guerreiro Alagoano – corpo e pedagogia multirreferencial, Cláudio Antônio da Silva resume:

“Os personagens centrais vão contando as histórias que são cantadas, assim o espetáculo constitui-se por uma sequência de músicas dançadas, chamadas de Peças que são antecedidas e finalizadas por cantigas e danças características do Reisado e intercaladas pelas Marchas, músicas cantadas ou não, a qual o sanfoneiro toca acompanhado por um tambozeiro, um tocador de triângulo e o grupo executa a coreografia. Na sequência acontecem as Partes, as Embaixadas e os Entremeios. No início do espetáculo os membros do Guerreiro rezam o Divino, parte que ajoelham e homenageiam Jesus Cristo. Esse ato de adoração ao Divino é ritualístico, é um agradecimento espiritual”.

Eu, esse ano, vou pra Maceió
Vou pro farol, guerreiro campeão
eu vou rever o meu guerreiro amado
vou dançar trajado na televisão

GUERREIRO DE ALAGOAS
Pontos de Força: 
Pontos de Vida: 

Tipo: 

Elemento: Fogo

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Jean Lins

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Fontes

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Herança

Ilustração em tons de cinza mostrando um senhor sorridente segurando um cachimbo, ele está sentando em uma cadeira, contando alguma história para quatro crianças que sentam no chão de frente para ele.
Arte de:

HERANÇA

Relatório

O termo Patrimônio Cultural é a forma como nomeamos, em português, o que os países anglófanos nomeiam de “Cultural Heritage” – a herança cultural. Qual seria afinal esta grande herança que recebemos de nossos pais e avós; dos membros da nossa comunidade e das gerações que vieram antes delas? Muito além de qualquer bem ou propriedade individual, estes tesouros coletivos, materiais e imateriais, tem valor inestimável para a cultura humana.

O patrimônio material é um conjunto de bens de natureza física, produzidos ou não pelas mãos humanas. Isto porque temos edificações, conjuntos históricos urbanos, obras de arte, mas também paisagens – como é o caso da Serra da Capivara. As obras de natureza material são “tombadas”, ou seja, inscritas nos Livros do Tombo. O nome vem da Torre do Tombo, em Portugal, onde ficava o Arquivo Nacional do país. Existem quatro livros do tombo no Iphan: Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; Histórico; Belas Artes e Artes Aplicadas.

Já no caso de patrimônio imaterial não se fala em tombamento, mas em “registro”. Os quatro Livros de Registro são: Livro dos Saberes; Livro das Celebrações; Livro das Formas de Expressão e Livro dos Lugares. Modo de Fazer inclui trabalhos artesanais e relatos de suas práticas: Modo de fazer queijo minas, viola de cocho, etc. No livro das celebrações há rituais e festas, como Círio de Nazaré; ou a Festa do Senhor do Bonfim. Nas formas de expressão temos manifestações literárias, musicais e plásticas, como o frevo e o complexo do Cururu e do Siriri. Por fim, no livro de Lugares estão desde a Feira de Caruaru à Cachoeira do Iauaretê, lugar sagrado dos povos indígenas dos rios Uaupés e Papuri.

Seja patrimônio material ou imaterial, não se fala em “preservação”, mas em “salvaguarda”. O termo evita a ideia do congelamento e da imutabilidade da cultura, reconhecendo que muitos elementos vão se transformar pelas dinâmicas da sociedade. No entanto, reforça que é um trabalho coletivo de zelar por estes elementos que traduzem tanto do espírito humano e de nossas raízes.

Vale lembrar ainda que estes elementos podem ser tombados ou registrados em mais de um nível: municipal, estadual, federal – estando representado pelo Iphan – ou mesmo mundial, tornando-se um patrimônio da humanidade. A competência para este registro pertence à Unesco, órgão das Nações Unidas para educação, ciência e cultura.

HERANÇA

Tipo: Desafio

Elemento

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Ju Loyola

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Fontes

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Iara

Ilustração da Iara, uma moça semelhante a uma sereia, com cauda de peixe sentada em uma pedra cercada de água e arvores mais a fundo. Ela tem cabelos vermelhos, uma flor na cabeça, pele azulada cauda roxa. Ela está olhando para a lua cheia.
Arte de: Rafael Limaverde

PROMESSA DA IARA

Relatório

Metade mulher, metade peixe, dotada de uma beleza estonteante e capaz de levar os homens à perdição com um simples olhar. Apesar de ser certamente um dos mitos mais populares do Brasil, frequentemente relacionado à cultura indígena, a Iara – da forma como a conhecemos – surge já a partir da relação com os colonizadores portugueses.

Em seu “Dicionário do Folclore Brasileiro”, Câmara Cascudo era categórico: “Nenhum cronista do Brasil colonial registra a Mãe-d’água como sereia, atraindo pelo canto ou simplesmente transformada em mulher. É sempre o Ipupiara, feroz, faminto e bruto”. Ipupiara é um dos primeiros mitos registrados no país, já mencionado pelo padre José de Anchieta em 1560. Os relatos falam de uma criatura marinha monstruosa, brutal, dotada de longos bigodes e frequentemente masculina.

É só no século XIX que surgem os primeiros registros de uma Y-Iara, “senhora das águas” em Tupi. O curioso é que já não se fala que a visagem é horrenda, mas belíssima; não é violenta, mas suas vítimas morrem do mesmo jeito. Iara é uma versão eufemizada do Ipupiara, que une o mito do Monstro das Águas com o imaginário da sereia europeia, em voga graças aos poetas românticos do período.

Por conta da influência do romantismo, é curioso ver como Iara é frequentemente descrita como sendo completamente estrangeira. Para Gonçalves Dias, é “bela criatura de longos cabelos d’ouro””. Para Melo Morais Filho, elas aparecem “”mais alvas que dentes das antas, mais louras que a pele das onças””. Isso sem falar em Olavo Bilac, que se derrama em amor ilusório pela criatura de cabeleira de ouro, verdes olhos úmidos e seio alvo e macio. A influência europeia é nítida; e todas as interpretações artísticas de uma iara com traços indígenas são dos tempos mais contemporâneos.

Para Jesus Paes Loureiro, grande pesquisador do imaginário amazônico, não está nem no canto e nem no corpo a grande fonte do poder da iara, mas sim em seu rosto. “Os outros mitos da Amazônia se expressam pelo corpo inteiro”, escreve ele. “Mas a iara é realidade de seu rosto. Uma síntese de uma lenda de alma indígena revelada num rosto europeizado”.

Contam os informantes de Paes Loureiro que aquele que vê o rosto da Iara jamais poderá esquecê-lo. “Mais cedo ou mais tarde acabará por se atirar no rio em sua busca, levado pelo desejo ardoroso de juntar seu corpo ao dela”. Dizem que Iara canta promessas de uma vida eterna ao seu lado no fundo das águas, levando os incautos a se perderem eternamente em seus domínios.

É bastante recorrente em sites de busca e nas redes sociais uma versão da lenda da iara que tenta criar para ela uma origem indígena. Nesta história, Iara seria uma bela e corajosa guerreira que de tão habilidosa acabou atraindo a inveja dos irmãos que a atacaram em emboscada. Iara sobreviveu, mas acabou matando os irmãos ao se defender. Desgostoso, o pai a sentenciou a morte e seu corpo foi lançado no Rio Solimões. Com pena da moça, os peixes pediram a lua que olhasse por ela. Assim, ela renasceu como Iara, a sereia brasileira.

Apesar da mensagem edificante e empoderadora, não foi possível encontrar a fonte desta história em nenhum relato: nem dos cronistas antigos, nem entre as comunidades interpretativas dos antropólogos e pesquisadores contemporâneos. Seu único registro é um blog do início dos anos 2000, o que nos faz acreditar que a narrativa seja puramente uma criação ficcional e não pertença à cultura popular de povo algum.

Hoje em dia é comum Iara e Mãe D’água serem tidos como sinônimos. Porém o mito da Mãe D’água é muitas vezes descrito como uma visagem sem forma definida, como um espírito elemental da água. No começo do século XIX, o botânico e antropólogo Von Martius registra a narrativa de uma “Paranamaia”, Mãe D’água na tradução que apresenta, que tinha forma de serpente. Um simbolismo muito comum, já que por vezes a cobra é tida como metáfora viva para o próprio rio.

Há ainda relatos de quem veja na Mãe D´água uma velha, enquanto Iara é uma moça. Mãe D’água é silenciosa enquanto Iara tem voz e canta. Ou ainda que Mãe D’água é feia e tímida enquanto Iara é uma linda visagem. Tudo vai variar da região onde se ouve a história.

PROMESSA DA IARA

Tipo: Desafio
Elemento: Firmeza

Condição de Vitória:
Some 12 ou mais PVs do seu lado do campo. Quando o valor for atingido, todas as suas cartas em campo vão para o Beleléu.

Especial:
Apenas cartas Visagem contam na pontuação para enfrentar o Desafio.

Artista: Rafael Limaverde

Carta de Promessa da Iara. Com ilustração da Iara, uma moça semelhante a uma sereia, com cauda de peixe sentada em uma pedra cercada de água e arvores mais a fundo. Ela tem cabelos vermelhos, uma flor na cabeça, pele azulada cauda roxa. Ela está olhando para a lua cheia.

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Fontes

– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012.
– CASEMIRO, Sandra Ramos. A lenda da iara – nacionalismo literário e folclore. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. São Paulo, 2012.
– HAUG, Martha Johanna. Espíritos da Água: Nossa Senhora da Guia, Cuiabá-MT. In: UNICiências, v. 9, p. 73-88, 2005.
– LOUREIRO, José de Jesus Paes. Cultura amazônica: Uma poética do imaginário. Belém: Cultural Brasil, 2015.

Ipupiara

Ilustração em tons de cinza mostrando Ipupiara, uma criatura meio humanóide, com rosto assustador, braços humanóides e cauda de peixe, quase como uma sereia monstruosa. A criatura está nadando em meio algumas plantas marinhas
Arte de:

IPUPIARA

Relatório

Em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, Câmara Cascudo era categórico: “Nenhum cronista do Brasil colonial registra a Mãe-d’água como sereia, atraindo pelo canto ou simplesmente transformada em mulher. É sempre o Ipupiara, feroz, faminto e bruto”. Mas o que é o Ipupiara? O radical, percebemos, é o mesmo que o da sereia brasileira. Iara, segundo uma interpretação, é uma palavra que vem do Tupi, significando senhor ou senhora das águas. Ipupiara, por outro lado, tem um nome mais abrangente: aquele que vive na água.

O Ipupiara é um dos mitos de mais antigo registro na história do país. Seu relato está presente, junto com os do Curupira e do Boitatá, em uma carta escrita pelo jesuíta José de Anchieta ainda em 1560. Escreve ele: “Há também nos rios outros fantasmas, a que chamam, Ipupiara, isto é, que moram n’água, que matam do mesmo modo aos índios”.

Um dos mais famosos relatos inclui um confronto contra o ipupiara, narrado pelo cronista Pero de Magalhães Gândavo, em “História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil”, de 1576. O “demônio das águas”, como teriam descrito os indígenas, “era quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo e no focinho tinha umas cerdas mui grandes, como bigodes”.

Os portugueses foram chamados pelos nativos para ver a criatura que se arrastava pela praia. Quando chegaram, o Ipupiara tentou voltar ao rio, mas foi interpelado por um dos homens com sua espada. Quando enfrentado, “levantou-se direto para cima, como um homem, ficando sobre as barbatanas no rabo”, levando prontamente uma estocada no peito. Entre urros e tentativas de mordida, o Ipupiara foi morto e arrastado para longe da água para secar.

Apenas dois anos depois, em 1578, o missionário Jean de Lery publica Viagem à Terra do Brasil incorporando o relato do que poderia ser um ipupiara. Seu informante indígena contou a história de que, certa vez, um “grande peixe” segurou com as garras sua embarcação. Escreve Lery: “Vendo isso, continuou o selvagem, decepei-lhe a mão com uma foice e a mão caiu dentro do barco; e vimos que ela tinha cinco dedos como a de um homem. E o monstro, excitado pela dor pôs a cabeça fora d’água e a cabeça, que era de forma humana, soltou um pequeno gemido” E continua: “Resolva o leitor sobre se se tratava de um tritão, de uma sereia ou de um bugio marinho, atendendo a opinião de certos autores que admitem existirem no mar todas as espécies de animais terrestres”.

Fernão de Cardim, em anotações feitas entre 1583 e 1601, também descreveu os ipupiaras. Para ele, inclusive existem monstros masculinos e femininos. “Parecem homens de boa estatura, mas tem os olhos muito encovados. As fêmeas parecem mulheres, tem cabelos compridos e são formosas: acham-se estes monstros nas barras dos rios doces”, descreve o cronista. a criatura era conhecida por matar suas vítimas por meio de um poderoso abraço, estourando os homens por dentro – como as serpentes constritoras. No entanto, escreve Cardim, quando sentem que a vítima morreu, “dão alguns gemidos como de sentimento e, largando-a, fogem. Se levam alguns comem-lhes somente os olhos, narizes e pontas dos dedos dos pés e mãos e as genitálias”.

IPUPIARA
Pontos de Força: 
Pontos de Vida: 

Tipo: 

Elemento: Água

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Daniel Souza

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Fontes

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João Galafuz

Ilustração escura mostrando um cenário sombrio, iluminado por uma grande lua cheia ao fundo. Em primeiro plano, um homem negro flutuando sobre a água e segura uma foice. Seu olhar é sério e seus olhos totalmente branco.
Arte de: Caio Yo

JOÃO GALAFUZ

Relatório

“Eu já lhe disse uma vez
minha jangada vai voar
eu já lhe vi disse uma vez
num banho a consciência
se afoga de uma vez
de cor e cheiro as águas inundarão
eu sei mais estarei longe demais.
Eu vou morar depois do mar”.
– João Galafuz, Rádio S.Amb.A. (2000)
Nação Zumbi

Visagem típica do Pernambuco, especialmente na ilha de Itamaracá. Dizem, no entanto, que também aparece em Alagoas e Sergipe. É conhecido ainda por João Galafoice ou mesmo pela corruptela “João Cagafoice”. Trata-se de outro mito ligado ao fogo-fátuo, como o boitatá e suas variações.

João Galafuz, no entanto, tem algumas peculiaridades. Dizem que a visagem é a alma de um pescador que perdeu a vida nas águas. Assim, aparece como uma bola de luz iridescente. Vê-lo, entretanto, é prenúncio de problemas. João aparece com um facho de luz multicoloridas como presságio de tempestades violentas, afogamentos e naufrágios.

Em artigo publicado em 1904 no Diário de Pernambuco, Pereira da Costa registra uma possível origem para o mito. Dizem que era um caboclo que morreu sem batismo, por isso tornou-se alma penada. Isso o colocaria no “ciclo das almas pagãs”, uma constante na tradição popular dos povos de influência católica.

Versões posteriores vão acrescentar elementos à narrativa. Dizem que João estava pescando com seu filho antes de morrer. O garoto escapou, mas o fantasma permanece no mar, abordando os navegantes perguntando sobre sua prole. Às vezes, exaltado, o encantado grita: “Traga meu filho de volta!”.

João Galafoice, em algumas regiões, não tem nada a ver com luz. Como registra Alfredo Brandão, em Alagoas, ele é descrito como um homem negro raptor de crianças, como um Velho do Saco. As versões se unem, fazendo com que na forma humana do Galafuz, por vezes, ele apareça como um negro de chapéu de palha e um surrão nas costas (um saco) com o qual sequestraria pessoas.

Outros mencionam que carrega não um saco, mas um grande cesto – como que para guardar a pesca. Luzes fantasma tendem a fazer com que as pessoas se percam, o que justificaria essa aproximação no imaginário entre mitos raptores e do fogo fátuo.

O psicanalista Jacques Laberge empreendeu um trabalho de campo na Ilha de Itamaracá para coletar histórias do Galafoice nos anos 1970. Lá, encontra histórias de que João pode se transformar em qualquer coisa. Desde assumir uma forma de um fantasma sem cabeça puxando redes de pesca até a de uma embarcação. Outros pescadores usam outras expressões para descrevê-lo, como “pequena tocha de fogo azul”.

Para afastá-lo, basta acender um fósforo. João Galafoice desaparecerá imediatamente.

JOÃO GALAFUZ
Pontos de Força: 
Pontos de Vida: 

Tipo: 

Elemento: Fogo

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Caio Yo

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Fontes

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Jogo da Espada

Arte de: Berjê

JOGO DA ESPADA

Relatório

Reisado é a maneira ampla pela qual se chama uma série de festas e manifestações tradicionais. Renato Almeida resume como: “[…] todos os grupos de foliões que com ou sem bailes e danças dramáticas saem a celebrar não só os Reis, mas as anteriores festividades do ciclo dos 12 dias”.

A descrição ampla ajuda a compreender a complexidade desta manifestação. Folias em lembrança aos três reis magos vão ser atravessadas por outras tradições, como Bumba Meu Boi ou as festas do Rei do Congo.

Theo Brandão, ao analisar o Reisado alagoano, reforça a dificuldade de distinguir as práticas. “Em Alagoas, congos, reisados e bumba-meu-boi… tudo era uma coisa só”. O resultado dessas misturas vai variar muito de comunidade para comunidade.

Pensando no lastro das festas de Rei do Congo, é neste grupo que vamos encontrar as danças dramáticas cujo auto leva à coroação de um monarca mitológico africano.

Em certas regiões, a manifestação pode indicar simplesmente a chegada do distinto rei ao Brasil, celebrada pela população com festa. Em outros, representa a disputa entre duas majestades ou seus embaixadores. Como celebração deste momento de embate, surge a dinâmica do jogo de espadas.

É por isso que temos toda uma estrutura de exército fantástico, com os brincantes normalmente vestidos de roupas que lembram armaduras e elmos enfeitados. O jogo de espadas é o momento da disputa simbólica, atravessada pela cultura popular. As espadas se chocam em meio a movimentos de dança e ginga, acompanhando o ritmo.

A tradição é notória. Diz Cascudo: “De ida e volta o cortejo executava bailados, jogos de agilidade e simulação guerreira, choque de armas brancas, dança de espadas”.

Uma das diversões dos brincantes de Reisado no Cariri (Ceará) que viralizou, no entanto, é brincar de jogo de espadas sem as demais indumentárias.

As cenas são fabulosas: pessoas com roupas do dia a dia lutando vigorosamente com seus sabres, enquanto dançam ao som da música. Algo que apenas a riqueza do Brasil poderia produzir.

A performance midiatizada foi ação da Mestra Flatenara, do Reisado Mirim Santo Expedito, e do Mestre Cicinho, do Reisado Manoel Messias. Ambos são pai e filha e mostram as formas como a tradição permanece.

MESTRA DO JOGO DA ESPADA

Tipo: Desafio
Elemento: Peleja

Condição de Vitória:
A) Some mais de 10 PFs do seu lado do campo e derrote a carta em combate.
B) Arrisque um ataque Tudo ou Nada quando somar metade do valor.

Especial:
Esta carta precisa ser derrotada duas vezes (uma por turno).

Artista: Berjê

Carta de Mestra do Jogo da Espada. Com ilustração com um menino e uma menina lutando com espadas. Ele de bone amarelo para trás, camiseta rosa, um cruscifixo no pescoço, uma bermuda verde e chinelo. Ela está de colar, um vestido vermelho amarelo e azul. Um fundo azul, com inumeras figuras amarelas em forma de estrelas compondo a ilustração.

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Fontes

– BRANDÃO, Théo. O reisado alagoano. Maceió: Ufal, 2007.
– CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2002.

La Ursa

Ilustração mostrando uma pessoa fantasiada de ursa branca com os braços levantados, com um colar no pescoço e inúmeras faixas vermelhas cobrindo o corpo. Um fundo azul com diversos guarda-sóis coloridos.
Arte de: Bruna Andrade

LA URSA

Relatório

Um dos brincantes mascarados mais conhecidos do carnaval de Pernambuco é a chamada “La Ursa”. Nos registros mais antigos, entretanto, falava-se desta personagem apenas no masculino, como o “Carnaval dos Ursos”. Trata-se, nada mais, nada menos, de uma pessoa vestida com uma grande máscara de papel-machê na forma do animal, com luvas de couro, com garras nas pontas dos dedos (geralmente de arame), e um macacão em que se vão costurando pequenos retalhos de tecido, como se fossem os pelos. Em alguns casos, a fantasia fica tão enfeitada, que chega a pesar mais de 30 kg.

A tradição, dizem, tem raízes no Leste Europeu, onde, ao curso da Idade Média, era comum encontrar caravanas de viajantes com animais treinados, para performar ao som de violinos e tamborins em troca de dinheiro. Entre os Romani, parte do povo conhecido genericamente como ciganos, um clã carrega, inclusive no nome da família, essa cultura: os “Ursari”, “domadores de urso”.

Mais tarde, ao longo de toda a Europa, era possível encontrar esse tipo de entretenimento. Entre os italianos, já no século XVIII, também surge um grupo famoso pela sua doma: os “Orsanti”. Eles se apresentavam com macacos, camelos, mas, principalmente, com ursos – com quem simulavam lutas, para o delírio da plateia.

A prática persistiu de diversas maneiras ao longo dos séculos, inclusive na sua forma mais tradicional. Apenas em 2006, devido ao aumento da preocupação com o bem-estar animal, a cultura do urso dançarino foi amplamente proibida pela União Europeia. No entanto, em países não signatários, ainda há relatos de pessoas que treinam os ursos para fazer os movimentos que simulam a dança.

Ao longo dos séculos, outra forma que a tradição encontrou para se manter viva foi a substituição do urso-animal por uma pessoa fantasiada. É o que encontramos hoje em dia, na região da Moldávia, também Leste Europeu, onde o urso dançarino foi banido ainda durante o regime comunista, em 1998. Foi assim que, pouco a pouco, surgiu o Festival de Antigas Tradições e Costumes. Nele, homens e mulheres vestem peles de ursos, cantam e dançam acompanhados por um domador e um cigano. Os grupos vão de casa em casa para expulsar os maus espíritos e trazer a boa sorte.

A mesma estrutura encontramos no carnaval da La Ursa brasileira: um urso, um caçador, um domador – só que sem a função ritual. O que a La Ursa deseja a marchinha deixa bem claro, e não é afastar espíritos ruins. “A La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro”, repetem os que acompanham o brincante. Pirangueiro é gíria com vários significados diferentes nos estados do Nordeste, mas, em Pernambuco, especificamente, significa pão-duro, muquirana.

O registro mais antigo de Urso em Pernambuco data de 1817 e foi feito por um viajante francês chamado Louis-François de Tollenare. Ele fala sobre uma brincadeira em que dois mascarados dançavam, enquanto um caçador usava um pedaço de pau para fazer as vezes de espingarda e de azagaia (uma espécie de lança). O francês não fala de terem pedido dinheiro, mas conta que distribuiu uma dose de cachaça para todos os presentes.

Estima-se que a primeira grande migração de ciganos, vinda dos Balcãs para o Brasil, deu-se no fim do século XIX, trazendo alguns animais exóticos. Gilberto Freyre registra que, em Pernambuco, as crianças de engenho encontravam, junto dos ciganos, “ursos verdadeiros, ou então fingidos − só a pele por cima de um homem − que dançavam ao som de pandeiros, e […] macacos ou macacas grandes, vestidas de sinhás, cheias de laços de fitas que também dançavam e faziam graças”.

E de onde vem o nome do brincante “La Ursa”? Algumas pessoas vão dizer que vem do italiano, ao que gramaticalmente não se corresponde. Afinal, na língua, o correto seria “orso”. Ocorre que, na década de 1960, era comum que o domador fosse também chamado de “italiano”, e era ele o responsável por dar chicotadas no mascarado, com instruções em português estrangeirado: “Anda, la ursa! Anda, la bicha!”. Uma paródia, então, deu origem à gramática que só existe para a brincadeira.

Hoje em dia, a La Ursa faz parte oficialmente da programação de carnaval da prefeitura do Recife. Existem agremiações, como blocos carnavalescos, que disputam, ano após ano, prêmios em dinheiro, e que lutam para subir ou se manter no grupo especial, grupo 1, grupo 2 e grupo de acesso. Sua máscara se tornou tão icônica, que entrou para a cultura pop.

LA URSA
Pontos de Força: 3
Pontos de Vida: 1

Tipo: Gente
Elemento: Terra

Habilidade:
Quando esta carta é invocada, seu oponente deve enviar uma carta da Mão para o Beleléu.

Efeito: Quebrando

Citação: "A La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro."

Artista: Bruna Andrade

Carta de La Ursa, com ilustração mostrando uma pessoa fantasiada de ursa branca com os braços levantados, com um colar no pescoço e inúmeras faixas vermelhas cobrindo o corpo. Um fundo azul com diversos guarda-sóis coloridos.

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Fontes

– FREYRE, Gilberto. Nordeste. Aspectos da Influência da Cana sobre a Vida e a Paisagem do Nordeste do Brasil. São Paulo: Global, 2013.
– PEREIRA DA COSTA, Francisco Augusto. Folclore Pernambucano. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908.
– REAL, Katarina. O folclore no carnaval do Recife. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura (Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro), 1967.
– TEIXEIRA, Rodrigo Corrêa. História dos Ciganos no Brasil. Núcleo de Estudos Ciganos: Recife, 2008.
– TILDEN, Imogen. Romania’s new year bear dancers – Alecsandra Raluca Dragoi’s best photograph. The Guardian. 8 Jan. 2020.
– TOLLENARE, L. F. Notas Dominicaes – Tomadas durante uma residencia em Portugal e no Brasil nos annos de 1816, 1817, 1818. Empresa do Jornal do Recife: Recife, 1905

Labatut

Ilustração em preto e branco mostrando uma criatura assutatora, o Labatut. A criatura é peluda e usa uma tanga, possui apenas um olho no meio da testa, possui dentes pontudos e duas presas grandes semelhantes a de javali
Arte de:

LABATUT

Relatório

“Bahia, berço de compositores
Cultiva a cultura do Rui
Do Castro a inspiração
Maria Quitéria a coragem
Do Labatut a razão”
Torrão Tradicional, por Josias De Miranda (Noite Ilustrada, 1971).

O primeiro registro escrito em que se fala de um monstro com o nome Labatut foi feito pelo jornalista e escritor potiguar José Martins de Vasconcelos em 1918. O texto integra seu livro “Histórias do Sertão”, em que produz literatura regionalista inspirada em narrativas tradicionais, compilando textos escritos desde 1906.

Diz o autor que escutou sobre o Labatut pela primeira vez em 1874, durante sua meninice em Mossoró/RN. Labatut era o nome utilizado para assustar os meninos, descrito com todas as características para torná-lo horrível: era um bicho-homem enorme, cabeludo, com o corpo coberto de pelos tão duros que pareciam espinhos. Seus pés eram redondos e deixavam a marca de cascos quando passava. Tinha um único olho, feito ciclope, e presas compridas como as de um elefante.

Segundo os mais velhos, conta Vasconcelos, o Labatut mora no fim do mundo e toda noite percorre as cidades sertanejas para devorar a população e aplacar sua fome interminável. Tem especial apetite por meninos. É preciso silêncio total, pois quem canta, assobia ou mesmo ronca alto durante a noite se torna presa fácil para o monstro. Quase todos os demais registros são variações deste texto, a exceção de Frederico Edelweiss, na Bahia, que limita-se a falar que Labatut é um “negro velho que assombrava de dia”.

O nome do papão, sabe-se, é derivação do sobrenome de um personagem que marcou a história do Brasil império: o general de brigada Pierre Labatut, aportuguesado por estas terras como Pedro Labatut (1776 – 1849). Dizem os folcloristas que as ações truculentas e sanguinárias do militar/mercenário inspiraram no povo o temor que o converteu em monstro no imaginário brasileiro. As interpretações atribuem, inclusive, um espaço de atuação para a criatura: a Chapada do Apodi, na fronteira entre Ceará e Rio Grande do Norte.

Chama atenção a visão diametralmente oposta sobre o militar por parte das instituições. Labatut é tido como um herói da independência, figura que batiza inúmeras ruas e praças por todo o Brasil. Em Salvador/BA, seus restos mortais foram dispostos, inicialmente, na Igreja de São Bartolomeu do Pirajá – região conhecida pela maior vitória do general contra os portugueses. Depois, em 1914, foram migrados para o Panteão ao General Labatut, construído no estilo neoclássico. Após a morte do francês, uma romaria ao seu túmulo movimentava inúmeros fiéis, ao ponto em que apenas quatro anos depois, em 1853, o povo deu início a “Festa de Labatut” – celebrada até os dias de hoje.

Monstro ou herói, qual seria a imagem mais precisa para representar Labatut?

Descrito por vezes como um “aventureiro francês”, Pedro Labatut serviu na esquadra napoleônica, tendo atuado inclusive no ataque a Portugal que culminou na fuga da família real para o Brasil. Após 1814 vai para a América atuar nas guerras de libertação da América Espanhola, comandando inclusive o líder Simon Bolivar – de quem se tornou desafeto. Por ter servido a outro país sem a permissão do rei da França, Labatut perdeu direito a cidadania e só a recuperou num decreto real quinze anos depois.

No ano de 1819 chega ao Rio de Janeiro e, quando surge a oportunidade, oferece seus serviços a Dom Pedro I para ajudar na organização do exército brasileiro. Afinal, antes do Grito da Independência, em 1822, o oficialato era composto principalmente por lusitanos – que foram, então, convertidos em inimigos. É aqui que começa sua biografia em terras brasílicas: a campanha de libertação da Bahia, que estava sob o julgo português. Labatut recebeu do imperador a tarefa de organizar as tropas e tomar de volta a capital, Salvador.

Sobre seus feitos, é difícil distinguir fato e distorção. Revisionismos de sua história, como no registro do cronista cearense J. Brígido, apontam-no como um bom soldado, mas péssimo estrategista e cruel em seus atos. Ao mesmo tempo, ressalta que o homem teve sucesso em disciplinar as tropas desconexas da resistência brasileira. Seria realmente um ignaro capaz de tal feito? Se observamos comunicação da época do teatro de guerra, vemos grandes elogios ao trabalho de gerenciamento do militar.

Ainda assim, o hoje herói da independência não viu a vitória contra os portugueses em 02 de julho de 1823. Neste momento, estava preso. Destituído de poder por um amotinamento dos seus subordinados.

O que levou à revolta dos brasileiros contra quem os levava à vitória? As alegações são muitas. O que se diz é que havia, de início, um clima de estranhamento: um estrangeiro liderando brasileiros em uma luta contra estrangeiros. Labatut também, ao que se diz, era muito disciplinado e de trato ríspido, não angariando amigos ou aliados.

Com o aval do império, passou a dar ordens sem se reportar à Junta de governo da Bahia, o que aumentou a ciumeira. Por fim, incomodava aos militares brasileiros o fato de Labatut ter alistado pretos e pardos nas linhas do exército (incluindo escravizados que foram, posteriormente, alforriados). Este último ato fez espalhar o boato de que qualquer escravizado alistado seria liberto, o que não era de interesse das elites locais.

Isso quer dizer que Labatut era uma figura inclusiva e defensor da causa negra? Certamente que não. A sua decisão mais cruel durante a campanha na Bahia, digna da fama que hoje o folclore lhe rendeu, foi a ordem de execução de 50 quilombolas que haviam sido cooptados pelos portugueses. Mandou também espancar (ou chicotear, depende do relato) 20 mulheres que faziam parte da comunidade.

Com os ânimos acirrados, conversas cobre motim correram até os ouvidos do próprio general que mandou prender os líderes do golpe. Em especial Felisberto Gomes Caldeira. Foi a gota d’água. Os homens, fiéis a Felisberto, renderam Labatut e o prenderam sob acusações das mais variadas – em especial a da chacina dos quilombolas. Labatut defendeu-se dizendo que os homens, a serviço dos lusitanos, mataram, roubaram e boicotaram o exército brasileiro. Assumiu a autoria como uma decisão de guerra e foi, assim, inocentado.

A fama de sanguinário do general, no entanto, se dá em 1832-1833, quando lidera o Exército Pacificador em uma incursão ao Ceará. Labatut assume novamente sua patente para conter as revoltas que se seguiram a abdicação do trono por Pedro I. Sua missão era por fim à rebelião de Joaquim Pinto Madeira, que desejava reconduzir o imperador ao trono. Madeira era parte de uma sociedade secreta, a Colunas do Trono, e achava que sua insurreição levaria a um levante pelo país inteiro. Isso não aconteceu, e apenas na região do Cariri ele conseguiu reunir tropas.

Quando chegou no Ceará, Labatut percebeu que a insurreição era composta por famílias, não por soldados. Ofereceu um termo de rendição a Pinto Madeira, garantindo a segurança dos seus. Tentou ainda mobilizar o governo provisório para que os revoltosos fossem julgados em Pernambuco, e não no próprio Ceará, visto que a sanha por vingança não ofereceria a eles um julgamento justo. Infelizmente, fracassou.

O general foi elogiado por tratar bem os prisioneiros, defender direitos civis e evitar conflitos desnecessários. Em carta, Labatut aponta que viu quase concluída sua missão sem derramar uma só gota de sangue e seu levantar arma alguma. Na mesma carta, reclama que sua tropa estava sem fardamento adequado e sem soldo para o pagamento. Critica diretamente o governo cearense: “Cuidou-se somente em vingar paixões particulares, queimar casas ,legumes e mobílias, assassinar prisioneiros desarmados e roubar!!! Brasileiros contra brasileiros, que desgraça!”.

Numa carta posterior, dá nome aos criminosos de guerra. “O Coronel de milicias Agostinho José Thomaz de Aquino e o Tenente de primeira linha Antônio Cavalcante de Albuquerque cometeram horrorosos atentados contra os direitos civis, vidas e propriedades dos seus concidadãos, sem escapar sexos nem idades”.

O que podemos interpretar disso tudo? Monstro ou herói, Labatut tem ambas as feições – a depender de quem olha. Foi um estrategista militar, mas falhou como líder nas suas relações com subordinados. Foi cruel, massacrando quilombolas que se aliaram ao inimigo, mas foi justo, tentando proteger revoltosos da vingança do estado.

Cronistas, possivelmente, falsearam ou supervalorizaram aspectos de sua biografia. J. Brígido, por exemplo, fala que Labatut era um homem feio, de cara larga e mãos enormes. E defende o argumento esquisito de que feiúra não inspira confiança. “A boa aparência atrai, como uma força centrípeta inicial”. Câmara Cascudo se inspira nesse trecho para propor que estava ali o princípio da monstrificação da figura do aventureiro. Talvez este seja um salto de raciocínio muito exagerado.

Por outro lado, Brígido acena para um outro elemento que não deve ser desconsiderado: o estranhamento que a população cearense teve com a chegada do exército pacificador de Labatut, repleto de soldados negros e pardos. O autor recupera, de Icó, a trovinha: “fecha a porta / lá vem Labatut / com tropa de negros/, parece urubú”. Labatut, vale apontar, é pronunciado com o T mudo.

Ao lembrarmos do registro de Frederico Edelweiss, de que Labatut seria um “negro velho”, juntamente com o medo de tropas que não cometiam horrores como as tropas locais – mas ganharam a fama de monstros incontinenti – vemos como o racismo atravessa fortemente mesmo as nossas relações com o imaginário.

Recentemente tem havido algumas interpretações apressadas de que o mito do boto teria sido inventado para ocultar situações de abuso infantil nas comunidades ribeirinhas. Quanto a isso, é preciso cuidado. É possível que em alguma situação isso realmente tenha acontecido, mas o mito precede suas deturpações – e não o contrário. Se fosse apenas questão de inventar um culpado, por que o boto? Por que justamente o boto?

Veja por exemplo: desde a antiguidade os golfinhos já eram tidos como animais ligados à Afrodite, a deusa do amor. Por quê? E como isso se liga aos nossos botos namoradores? O imaginário constrói esta explicação que une observação da natureza, biologia e imaginação. Os pesquisadores apontam para duas coisas: a primeira é seu corpo comprido, com cabeça arredondada e um respirador bem no topo, de onde ejeta água de maneira sugestiva. A segunda é o movimento que o animal faz, subindo e descendo, lembrando a rítmica sexual.

O professor Jesus Paes Loureiro conta uma narrativa de origem indígena, mas infelizmente não aponta de qual etnia ela pertenceria. Na história, o primeiro boto seria o filho de uma indígena Tapuia* com uma anta. Por isso o órgão sexual do boto é tão viril e utilizado ainda hoje em feitiços e simpatias.

*Tapuia era termo utilizado para se referir a indígenas que não falavam o Tupi antigo. Não se refere a um povo específico.”

LABATUT

Tipo: Desafio

Elemento

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Daniel Souza

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Fontes

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