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Caboclo de Lança

Ilustração bem escura em tons cinzas mostrando um homem de pele escura com uma capa branca, óculos escuro, um chapéu parecendo uma cabeleira de palha e uma flor na boca, ele caminha segurando uma lança na horizontal com as duas mãos, na haste da lança estão pendurados diversos tecidos.
Arte de: João Queiroz

CABOCLO DE LANÇA

Relatório

Existem dois tipos de Maracatu: o Nação, ou de baque virado, e o de Orquestra, ou de baque solto. Este último ficou mais conhecido como Maracatu Rural, marcando sua distinção com o Nação que se desenrola na região metropolitana do Recife. O Maracatu Nação foi o primeiro a surgir, com registros ainda no século XVIII, e durante muito tempo era comum se dizer que ele tinha fundamentos religiosos enquanto o Rural era mais profano. Isso já não é verdade. Em Nazaré da Mata, Terra do Maracatu, encontramos muitos folguedos fundamentalmente religiosos, incorporando a Calunga e seus rituais de preparação tanto quanto na capital. Por outro lado, também começam a surgir Maracatus cristianizados, em que religiões afro são abolidas de dentro do grupo.

Em Nazaré da Mata, terra do Maracatu Rural, a figura principal do Maracatu é o Caboclo de Lança – dotado da virilidade e da militarização, ele também que veste um surrão pesado e quente que exige força física para ser carregado.

Ápice do masculino é o Caboclo de Lança. Do feminino a Dama do Paço. Ambas as funções exigem “pureza”: abstinência sexual em ambos os casos; não estar menstruada no caso das mulheres. Quem não cumprir com a ritualística será incapaz de seguir na folia: terá fortes dores, diarreia, vômito. O corpo precisa estar pronto e, para isso, é preciso preparo.

Uma das tradições entre os caboclos de lança é a ingestão de uma mistura de ervas, limão, cachaça e pólvora que fica enterrada por sete dias antes de ser consumida – o Azougue. O nome é o mesmo do mercúrio sólido, usado no candomblé e umbanda para assentamentos de Exu. Dizem que a bebida é reminiscência das guerras, usada para curar a falta de coragem nas guerras do Paraguai, Cisplatina e Canudos.

Vale lembrar que a figura do lanceiro é suavizada por uma flor que ele carrega na boca, evocando essa presença do feminino no masculino; da brutalidade da guerra e da suavidade do sentimento. A dualidade é intrínseca ao Maracatu.

A lança (ou Guiada) é um instrumento sagrado, feito pelo próprio caboclo ou por algum mestre que o presenteia. Ela não pode ser tocada por outros, especialmente por mulheres, sobre o risco de perder seu poder.

A calunga, por outro lado, passa de mão em mão antes da partida do cortejo, até chegar à dama do paço. Mais uma disparidade entre feminino e masculino que vale a pena observar. Pedidos de proteção individual também acontecem na forma de “calços”, simpatias feitas pelos festeiros em paralelo ao cortejo.

CABOCLO DE LANÇA
Pontos de Força: 
Pontos de Vida: 

Tipo: 

Elemento: Fogo

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Queiroz

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Fontes

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Caipora

Ilustração de Caipora, um ser humanóide de pele escuro, cabelos vermelhos, olhos faiscantes, sem camisa, com uma calça azul dobrada nas canelas. Ele usa um cranio de animal como ombreira. Ele está descalço derrapando no chão, com uma das mãos quase no solo. Dois javalis escuros com olhos flamejantes acompanham ele. Ao fundo uma floresta.
Arte de: Otoniel Oliveira e André Vazzios

CAIPORA

Seu nome vem do Tupi, “Caá-Porá”, e significa habitante do mato. A visagem é uma das que conta com maior número de variantes: pode ser pequena ou gigante, pode ser masculina ou feminina, pode ser guerreira combativa ou um Trickster enganado.

Ao que tudo indica, o nome Caipora foi uma derivação posterior. Diferentemente do Curupira, já registrado em 1560, não havia menção a um Kaapora no mesmo período. Encontramos, no entanto, referência a um ente chamado “Kaa-gerre” ou Kaagerre, que o missionário francês Jean de Léry descreve assim:

“Essa pobre gente, durante a vida, é afligida por esse espírito maligno, a que também chamam Kaegerre, e quando nos falavam, como muitas vezes presenciei, sentindo-se atormentados e clamando subitamente como enraivados, diziam: ‘Ah! defendei-nos de Anhanga, que nos espanca’. E diziam, que realmente o viam, ora em forma de quadrúpede, ora de ave, ora de qualquer outra estranha figura”.

Por sua vez, o franciscano André Thevet registra: “Eles têm tanta necessidade de fogo como nós, tanto para cozinhar as suas carnes, como para resistir a este espírito que os assedia durante a noite e prejudica seus negócios. Alguns lhe dão o nome de Agnan e outros o chamam de Raa-Onan ou Kaa-Gerre”.

Percebemos, pelo depoimento, essa mescla do caipora primordial com a figura do Anhangá, e como ambos eram reduzidos a “demônio” pelos religiosos. O nome “Caipora” é ainda hoje usado para indicar azar, pessoa que sofre de panema, uma espécie de “mana ruim” que permeia os que são alvo do castigo dos protetores da mata.

Gonçalves Dias supõe que o “Gerre” seja derivação de “guara”, cujo sufixo vai indicar, também, “morador”, “do lugar”. No Vocabulário Tupi-Português, de Lemos Barbosa, encontramos palavras como “momoyguara”, que significaria “morador de fora/forasteiro”, o que comprovaria a aproximação entre Morador e Habitante do Mato, o Caipora.

No registro de Cornélio Pires, já com mais influência caipira, é caboclo legítimo. Chatarrão, cheio de corpo e peludo como bicho. “O caipora é loco por fumo, e vacê sabeno gradá ele vacê fais razora nas caçadas; O gosto dele é anda amuntado num porcão do mato, tocano as vara de queixada e de cateto pros carrero do mato”.

É com essa feição que a visagem é hoje mais conhecida, como um protetor das matas junto a seu porco. No entanto, nas regiões em que seu lado Trickster prevalece, encontramos narrativas que o aproximam muito a um saci: torna-se brincalhão, enganador, assumindo formas diferentes para castigar os caçadores – de onça até árvore, ou mesmo uma nuvem de chuva.

CAIPORA
Pontos de Força: 3
Pontos de Vida: 3

Tipo: Visagem
Elemento: Terra

Habilidade:
Envie uma carta da Mão para o Beleléu. Até o fim do turno, esta carta valerá por duas, ao enfrentar qualquer Desafio. A carta vai para o Beleléu depois disso.

Efeito: Parceria

Citação: "Olha o tamanho do rastro desse cateto! É companheiro de Caipora, certo que é!"

Artista: Otoniel Oliveira

Carta com ilustração de Caipora, um ser humanóide de pele escuro, cabelos vermelhos, olhos faiscantes, sem camisa, com uma calça azul dobrada nas canelas. Ele usa um cranio de animal como ombreira. Ele está descalço derrapando no chão, com uma das mãos quase no solo. Dois javalis escuros com olhos flamejantes acompanham ele. Ao fundo uma floresta.

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Fontes

– BARBOSA, A. Lemos. Pequeno Vocabulário Tupi-Português. Rio de Janeiro: Livraria São José, 38.
– CASCUDO, Luis da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. São Paulo: Global, 2006.
– PIRES, Cornélio. Conversas ao pé do fogo. São Paulo: Ed. Monteiro Lobato, 1921.

Caipora de Pesqueira

Ilustração em tons de cinza de três pessoas com roupas sociais andando de forma desengonçada. Os três usam máscaras tipicos dos caiporas de pesqueira, são máscaras que parecem um grande saco na cabeça de cada um, com rostos exagerados desenhados em cada.
Arte de: Zambi

CAIPORA DE PESQUEIRA

Relatório

Na cidade de Pesqueira, interior de Pernambuco, conta a tradição que bolas de luz flamejante, como tochas sobrenaturais, costumavam aparecer por entre as árvores. Os caçadores, quando viam esses fogo-fátuos, logo souberam de quem era a culpa: dos Caiporas.

As visagens que recebem este nome são protetores da mada e, no nordeste, conhecidos como grandes pregadores de peça. Utilizam-se de todos os ardis dos tricksters para enganar os caçadores: podem mudar de forma, podem se transformar ou imitar a voz humana, e assim por diante. Na forma de luz, os caiporas faziam com que os transeuntes perdessem a lucidez, caminhando sem rumo na mata.

Para acalmar esses seres, os moradores recorriam à estratégia de colocar fumo e cachaça nos troncos das árvores. Trato feito, puderam voltar às suas atividades sem medo de novos castigos.

A presença destas visagens de maneira tão próxima inspirou João Justino, vulgo Gilete, a criar o bloco carnavalesco “Os Caiporas” em 1962. O grupo era composto por mulheres, crianças e homens que desfilam com disfarces elaborados: grandes sacos de estopa sob o corpo, pintados da forma que lembrem um rosto gigantesco.

Assim, o que outrora era fonte de terror foi transformado em uma imensa diversão. Tal como os caiporas mitológicos, os brincantes que se vestem de Caipora em pesqueira são reconhecidos por sua irreverência, vestindo calça, paletó, camisa de manga comprida e gravata, elementos cruciais para compor a indumentária. Em seguida, aplicam a máscara de estopa que cobre desde a cabeça até a cintura.

Em 2016, o festejo foi registrado como patrimônio imaterial de Pernambuco.

CAIPORA DE PESQUEIRA
Pontos de Força: 
Pontos de Vida: 

Tipo: 

Elemento: Terra

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Zambi

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Fontes

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Canto do Galo

Ilustração bem colorida de um galo cantando. Em um cenário aberto com algumas flores ao redor e campos verde-azulados, com o horizonte azulado e um sol estilizado nascendo.
Arte de: André Vazzios

CANTO DO GALO

Relatório

O galo dantes falava. Quando os Apóstolos estavam à mesa, afirmavam eles que Cristo não era Deus, e Cristo respondeu, que era tanto Deus como o galo falar; foi então que o galo disse: Coroado. E é ainda hoje a sua linguagem.
– Leite de Vasconcellos

O Canto do Galo traz consigo uma série de simbolismos. É o símbolo do nascer de um novo dia, da esperança que se renova. É também a ressurreição, a derrota das trevas representada pela chegada do sol que vence a noite. As visagens correm livremente pelas sombras, mas interrompem sua carreira quando chega o astro-rei. Mitos como o Lobisomem, a Mula sem Cabeça e a Curacanga voltam à forma humana assim que ouvem o terceiro cantar do galo.

No conto “O Negrinho do Pastoreio”, de Simões Lopes Neto, temos uma cena poderosa. Depois de ter perdido a tropilha de cavalos, o menino pede ajuda a Nossa Senhora Aparecida. Toma, então, uma vela do oratório de sua madrinha sagrada e segue pela noite escura. A cada pingo de cera no chão, nasce uma nova luz, que a tudo clareia. Assim, até os galos começaram a cantar, achando que o sol havia raiado mais cedo.

Contos envolvendo animais com a família de Jesus são muito frequentes no catolicismo popular. Cabe ao galo, por exemplo, o anúncio do nascimento do menino, no dia 25 de dezembro. É quando o animal, a plenos pulmões, canta, em forma de onomatopeia: “Cristo nasceu! Cristo nasceu!”. É daí que vem a expressão “Missa do Galo”.

A história, no entanto, tem ainda a participação de outros animais. O boi, então, pergunta: “Ooonde?”. A ovelha logo responde: “Em Béé-lém”. O porco, por outro lado, duvida: “Não creio, não creio, não creio”. Em outras versões, citadas por Câmara Cascudo, o Peru quem retruca: “Mente, mente, mente!”. É por isso que o porco é um animal malvisto, e o peru é comido no Natal.

Dizem que, quando uma galinha começa a cantar junto do galo, é porque está atraindo a morte para a casa dos seus donos. Por outro lado, dizem que galo cantando fora de hora é sinal de que uma moça está fugindo.

Durante muito tempo, foi comum uma prática de criar esses animais para a briga, as chamadas “rinhas de galo”. A prática vem sendo coibida desde o primeiro governo Vargas, na década de 1930. Hoje, a rinha é proibida por lei e considerada crime ambiental, com pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa.

Costume antigo era castrar um galo para que ele pudesse engordar bastante, tornando-se prato de ocasiões especiais. O “capão”, como é chamado, era oferecido especialmente às mulheres que haviam acabado de ter filho, para poder fazer com que elas recuperassem a energia. Por isso, era comum a expressão “Quando vamos comer o capão?”, para perguntar quando o bebê nasceria.

CANTO DO GALO

Tipo: Saberes

Habilidade:
O sol raiou mais cedo. Retorne todas as cartas Visagem, de um oponente, para a sua Mão.

Efeito: Retorno

Citação: "O galo é sempre o primeiro a anunciar as auroras. Repara bem: tem esporas, e é por isso cavaleiro." - Francisca Júlia, 1912

Artista: André Vazzios

Carta do Canto do Galo. Com ilustração bem colorida de um galo cantando. Em um cenário aberto com algumas flores ao redor e campos verde-azulados, com o horizonte azulado e um sol estilizado nascendo.

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Fontes

– CAMPOS, Eduardo. Os Incomedidos Glutões – a hipérbole da culinária e outras considerações. In: Campos, Eduardo. A Gramática do Paladar − antepasto de velhas receitas. Fortaleza: Editora UFC, 1996. p. 43-53.
– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2002.
– CASCUDO, Luís da Câmara. Licantropia Sertaneja. Revista do Brasil, São Paulo, Ano VIII, n. 94, p. 129-133, out. 1923.
– GUIMARÃES, Ana Paula. Galo – dantes e daqui em diante. Revista Dobra, v. 6. p. 1-17, 2020.
– LOPES NETO, João Simões. Contos gauchescos e lendas do sul. 3. ed. Porto Alegre: Globo, 1965.

Capoeirista

Ilustração de um capoeirista, ele usa calça branca, e está apoiando apenas uma mão no chão e as pernas abertas para cima. Um fundo mostrando um céu com cores azul, vermelho, laranja e amarelo, com um sol quase se pondo.
Arte de: Caique Pituba e André Vazzios

CAPOEIRISTA

Relatório

– Relatório escrito por Maurício Xavier

A capoeira é uma expressão cultural que é considerada um dos principais meios de afirmação das raízes afro-brasileiras. Desenvolvida pelos escravizados e por seus descendentes, ela sintetiza diferentes tradições culturais africanas e é um símbolo da resistência à escravidão.

Os primeiros relatos sobre a luta remontam ao século XVIII, mas suas origens ainda despertam intensas discussões entre os pesquisadores do tema. Alguns historiadores afirmam que a capoeira foi desenvolvida por escravizados nas cidades coloniais brasileiras, enquanto outros estudiosos defendem a ideia de que a prática surgiu no meio rural. Todavia, durante o século XIX, no Rio de Janeiro, o exercício da capoeira foi bastante intenso. Diversos grupo de capoeiristas, denominados “maltas”, atuavam nas diferentes regiões da cidade. Contudo, devido à participação desses grupos nas disputas políticas entre conservadores e liberais, durante o período final do império, a luta passou a ser perseguida até ser considerada crime pelo código penal de 1890.

Em consequência da repressão causada pela proibição da prática da capoeira em espaços públicos, a luta passou a ser perseguida até que, décadas mais tarde, surgiram, na Bahia, algumas iniciativas de sistematização do seu ensino. Essas metodologias tinham como objetivo tornar a capoeira um esporte e um patrimônio da cultura brasileira. No entanto, a criminalização durou oficialmente até 1940, quando foi promulgado um novo código penal que não mais previa punições para o exercício da luta.

A capoeira teve um longo caminho até superar sua condição de delito e se tornar um um patrimônio cultural brasileiro. De acordo com pesquisadores do tema, assim como o futebol, o samba e o carnaval, a capoeira possui uma trajetória de ascensão e tensão com as elites e o governo, antes de atingir sua condição de símbolo da cultura afro-brasileira.

No início do século XIX, a capoeira ganhou relevância em ambientes urbanos, onde a tradição se diversificou, através dos encontros entre negros de diferentes origens. A obra famosa aquarela de 1822, de Augustus Earle, retrata o contexto de repressão à capoeira durante aquele período. O principal elemento da pintura que representa essa perseguição é a presença de um soldado, que embosca os dois indivíduos que realizam a disputa corporal. Além disso, não existem instrumentos musicais na cena e os demais indivíduos não batem palmas, não havendo, portanto, nenhuma referência à musicalidade típica da prática da capoeira.

O estudioso argentino, do início do século XX, Adolfo Moralles de Los Rios Filho propõe uma explicação para a origem da palavra “capoeira”. Segundo o pesquisador, o vocábulo “cá”, do tupi antigo, se refere a qualquer material oriundo da mata, enquanto que “pú” significa cesto. Assim, se forma um termo indígena para denominar os cestos feitos a partir de materiais extraídos das florestas. “Capú” era então a denominação dos grandes recipientes utilizados pelos escravizados, durante o período colonial, para embarque e desembarque de mercadorias nas áreas portuárias e os indivíduos que trabalhavam nessa função eram chamados de “capoeiros”.

De acordo com a hipótese do estudioso argentino, a capoeira, como forma de luta, surgiu em meio às disputas corporais desses trabalhadores, através de simulações de brigas realizadas em suas horas de lazer. Aos poucos, essas competições deram origem a grupos hierarquizados e a busca pela liderança dessas organizações resultou na criação do “jogo da capoeira”.

O folclorista Câmara Cascudo, por meio do estudo de relatos de viajantes e cronistas, observou a presença de alguns elementos nativos africanos na prática da capoeira. O estudioso explica que existe em Angola uma dança cerimonial de iniciação que pode ser associada aos primórdios da luta brasileira. Esse costume é praticado por alguns povos das regiões de Mocupe e Mulondo, no sul do país, e é realizado durante as festividades do Mufico, um rito de puberdade das mulheres.

A dança é executada dentro de um grande círculo de pessoas que marcam a cadência dos movimentos batendo palmas. Dentro da roda, dois jovens realizam a “Dança da Zebra”, ou “N’Golo”, na qual imitam movimentos de animais, enquanto tentam atingir o oponente com os pés. O folclorista vê diversas semelhanças entre essa prática e a capoeira, mas considera também que houve contribuições de outras tradições culturais da região na formação da luta brasileira, como por exemplo a Bássula, uma arte marcial de pescadores de Luanda.

CAPOEIRISTA
Pontos de Força: 4
Pontos de Vida: 2

Tipo: Gente
Elemento: Vento

Habilidade:
Quando esta carta vai para o Beleléu pela primeira vez (como resultado de um Desafio), ela permanece em campo, até ser derrotada novamente.

Efeito: Insistência

Citação: "Ficar com os dois pés no chão é pedir para cair." - Mestre João Grande

Artista: Caique Pituba

Carta do Capoeirista com ilustração de um capoeirista, ele usa calça branca, e está apoiando apenas uma mão no chão e as pernas abertas para cima. Um fundo mostrando um céu com cores azul, vermelho, laranja e amarelo, com um sol quase se pondo.

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Fontes

– AMORIM, Thiago Rodrigues. Narrativas Visuais Sobre a Capoeira no Rio de Janeiro. Entre os Anos de 1821 a 1932. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, 2019.
– OLIVEIRA, Josivaldo Pires de. Capoeira, Identidade e Gênero: ensaios sobre a história social da capoeira no Brasil. Salvador: EDUFBA, 2009.
– SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Negregada Instituição: os capoeiras na corte imperial (1850-1890). Rio de Janeiro: Access, 1999.

Careta do Mingau

Arte de: Jânio Garcia

CARETA DO MINGAU

Relatório

Careta do Mingau é o nome que se dá às festeiras da cidade de Saubara, no Recôncavo da Bahia. A festa é realizada entre a noite do dia 01 e 02 de julho, durante as celebrações da Independência da Bahia. O acontecimento fez parte das Guerras da Independência, que culminaram com a libertação do Brasil do jugo português no ano seguinte.

Durante a celebração, as brincantes relembram um acontecimento histórico que marcou a cidade. Durante o confronto com a esquadra portuguesa, que tentava conter as revoltas de sua colônia, a cidade de Saubara estava para ser tomada.

Os homens, entrincheirados, já estavam famintos e sem munição. Para chegar até eles, as mulheres se vestiram de alma penada e, gritando como seres de outro mundo, levaram até os maridos armas e mingau transportados em grandes panelas. Um exemplo da cultura popular utilizada como resistência e enfrentamento.

Muitas vezes, inclusive, tomavam as armas para si em busca de defender a cidade. Fato registrado pelo próprio Pierre Labatut, mercenário francês que liderava a esquadra portuguesa.

Dois séculos depois, as mulheres da cidade revivem o momento vestindo-se com longos panos brancos, chapéu de palha e carregando, sobre as cabeças, grandes panelas de metal. Dentro não vão mais armas, apenas comida. E sempre são servidos três tipos de mingau: milho, tapioca e carimã.

CARETA DO MINGAU
Pontos de Força: 
Pontos de Vida: 

Tipo: 

Elemento: Noite

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Jânio Garcia

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Fontes

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Carranca

Ilustração de sete carrancas de diferentes formatos e tamanhos, sendo a do meio a maior. Um fundo amarelo, com algumas estrelas e folhas ao redor das carrancas.
Arte de: Roberta Cirne

CARRANCA

Relatório

Se o fumo atrai as visagens, a estratégia popular para afugentá-las é combater fogo contra fogo. Ou seja: contra a feiura do monstro, algo tão feio quanto. As, assim chamadas, figuras-de-proa eram esculturas dispostas à frente das embarcações que navegavam pela região do médio rio São Francisco, com função tanto estética quanto protetiva.

As formas são variadas, mas normalmente trazem uma mistura de humano com cavalo, dragão ou leão. Esse inclusive, era um outro nome pelo qual a peça era conhecida em Juazeiro: “Leão de Barca”. As peças eram pintadas com cores marcantes, principalmente vermelho, azul, preto. Dizia-se que, quando a cabeça de proa gemia três vezes, a embarcação estava condenada a afundar.

Supõe-se que as primeiras barcas a navegarem pelo São Francisco datam do final do século XVIII, movidas a varas e remo, e eram utilizadas tanto para transporte de passageiros quanto para cargas. As carrancas vão sendo incorporadas a elas a partir de 1880 pouco a pouco, por imitação. Pesquisadores, como Paulo Pardal, supõe que vem de uma tentativa de replicar o que se via nos navios estrangeiros.

A era das carrancas foi breve e chega ao seu arremate com a introdução do motor à explosão. Embarcações pesadas como eram as barcaças antigas vão perdendo espaço para as mais leves que tem pouco espaço para adornos como as grandes figuras. Hoje, as carrancas que se encontram em embarcações são meras referências às antigas, mas não ocupam o mesmo papel cultural das suas predecessoras.

Com o avançar do século XX, as carrancas deixam o rio e se tornam peças de chão ou estante; escoradas na entrada das casas para continuar exercendo sua função de deixar o mal bem afastado. Se antes precisavam ser pensadas para resistir às águas, hoje é possível pensar em carrancas feitas de barro. É o caso das famosas peças de Ana Leopoldina Santos, a Ana das Carrancas. Uma de suas marcas registradas eram os olhos das carrancas, sempre vazados: homenagem amorosa que fazia ao seu marido, Zé Vicente, que era cego.

Outra figura bastante conhecida nos dias de hoje é a chamada carranca-vampira, inicialmente batizada de carranca-macaca. Na imagem, o monstro retratado possui dentes brancos pontiagudos bem-marcados, em frente a uma boca muito vermelha. Igualmente vermelha é a linha que contorna os olhos da figura, levemente puxados para cima, denotando sua inspiração oriental.

Sua criação é recente. Data de 1971 quando Severino Borges de Oliveira, o mestre Bitinho, de Petrolina (PE) havia acabado de assistir ao filme japonês “A Fuga de King Kong”, dirigido por Ishiro Honda alguns anos antes, em 1967. Mestre Bitinho nasceu em 1941 no município de Taipu, no Rio Grande do Norte. Artesão desde criança, aos 12 anos já construía de espingardas a bonecos calungas que o pai vendia na feira.

Após viver alguns anos no Ceará e na Bahia chegou em Pernambuco na década de 1970, onde criou a carranca com um tronco de umburana. Graças a sua arte, chegou até mesmo a conhecer o Japão. Um exemplo do diálogo direto entre cultura popular e a cultura pop.

CARRANCA

Tipo: Saberes

Habilidade:
Quando uma de suas cartas for ser enviada para o Beleléu, mande esta no lugar dela. No caso de resultado de Desafios, ela substitui a com menos PVs.

Efeito: Proteção

Citação: "Para afastar bicho feio, só com coisa mais feia ainda!"

Artista: Roberta Cirne

Carta de Carranca. Com ilustração de sete carrancas de diferentes formatos e tamanhos, sendo a do meio a maior. Um fundo amarelo, com algumas estrelas e folhas ao redor das carrancas.

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Fontes

– MACIEL, Betania; BRANDÃO, Ricardo Rocha. Carrancas do São Francisco: a dinâmica de uma manifestação folkcomunicacional no contexto do Desenvolvimento Local. Revista Hum@nae, v. 11, n. 1, 2017.
– NEVES, Zanoni. Os remeiros do São Francisco na literatura. Rev. Antropol., v. 46, n. 1, São Paulo, 2003.
– PARDAL, Paulo. Carrancas do São Francisco. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006.
– RODRIGO, Rodolfo. Ana das Carrancas: artista que transformou a tradição em arte completaria 100 anos em 2023. Brasil de Fato. 15 mar. 2023.
– SILVA JUNIOR, Luiz Severino. Carranca Vampira: a vitória da estética mercadológica. IX Encontro de História da Arte EHA: Unicamp, 2013.

Chá de Jasmim

Ilustração de um cachorro de pé, vestido de garçom, servindo chá para uma mola sentada frente a uma mesa. A moça está com uma expressão apreensiva.
Arte de: Caio Thiago

CHÁ DE JASMIM

Relatório

“Jasmim de cachorro” é uma forma bastante poética pela qual o povo costuma nomear o excremento de cachorro que, quando está bem seco, esbranquiça e esfarela. A cor, dessa forma, lembra a das flores de jasmins – bem branquinhas, espalhadas pelo entorno. No Paraguai, é também chamado de “açúcar do campo”.

Seu uso na medicina popular se dá na forma de chá. As pessoas coletam o excremento e preparam uma infusão que deve ser tomada logo em seguida para o tratamento, em especial, das doenças respiratórias. Fala-se do uso de chá de jasmim para tratar tuberculose e a coqueluche.

Outra forma de preparo era como lambedor ou xarope; o jasmim, neste caso, era muito utilizado em casos de pleurisia, bronquite com escarro de sangue. Também é usado contra sarampo. Dizem que, em épocas de epidemia de varíola, foi o santo remédio da medicina popular. O cocô de gato, dissolvido em vinho, também é mencionado em alguns registros.

Engana-se quem pensa que essa era uma prática apenas do povo. Mario de Andrade relata que ainda no início do século XVIII o médico de D. João V, dr. Francisco da Fonseca Henriques Transmontano aconselhava em seus livros de medicina o uso tanto do chá de jasmim quando de outra terapia muito comum na terapêutica portuguesa da época: o elixir de urina.

Em um artigo inteiramente dedicado à medicina dos excretos, Mário de Andrade compila algumas práticas já dos tempos coloniais. Esterco de jumento ou de boi, ressecado e esfarinhado por exemplo, era muito utilizado para estancar os cortes que sangravam muito.

Seguindo a tradição portuguesa, urina também foi utilizada no Brasil. Para curar uma ferida de três dias, dever-se-ia utilizar urina de uma criança do sexo oposto ao da pessoa machucada.

Dizem que quando nasceu Jesus, fazia muito frio e o boi se aproximou para ficar bafejando sobre ele para esquentar a criança. Então veio o burro e devorou todo o capim da manjedoura, indiferente. Nossa Senhora então amaldiçoou o burro e também o cavalo, que é seu parente. Por isso que a urina dos cavalos faz mal para nós, e quem pisar nela sofre de “mijação” – que é o nome que se dá a uma espécie de abcesso que nasce na sola dos pés.

CHÁ DE JASMIM

Tipo: Saberes

Habilidade:
Sirva-se. Use esta carta, a qualquer momento, para trocar o Desafio vigente do seu oponente.

Efeito: Insistência

Citação: "Olhando de longe, até que parecem umas florzinhas mesmo."

Artista: Caio Thiago

Carta de Chá de Jasmim. Com ilustração de um cachorro de pé, vestido de garçom, servindo chá para uma mola sentada frente a uma mesa. A moça está com uma expressão apreensiva.

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Fontes

– ANDRADE, Mário. Namoros com a medicina. Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1939
– CAMPOS, Eduardo. Medicina popular no Nordeste. Rio de Janeiro: Cruzeiro, 1983.
– VIANNA, Hildegardes. Antigamente era assim. Rio de Janeiro: Record; Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1994.

Chá de Sumiço

Ilustração em tons de cinza de uma criatura humanóide mas com cara de raposa. A criatura está segurando uma xicara de chá
Arte de: Suryara Bernardi

CHÁ DE SUMIÇO

Relatório

“Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço”.

João Boa-Morte, Cabra marcado para morrer
(Ferreira Gullar, 1962)

“Chá de sumiço” é uma expressão popular utilizada para descrever a atitude de alguém que, de repente, se afasta ou desaparece de maneira inexplicável do convívio social, seja online ou offline. Quem toma chá de sumiço deixa de frequentar ambientes em que outrora facilmente era localizado. E nem sempre por vontade própria.

No livro “Mas será o benedito?”: Dicionário de provérbios, expressões e ditos populares, lançado pelo jornalista Mário Prata em 1996, temos um registro supostamente histórico. Mário diz que o fotojornalista argentino Sebástian Lucrécio afirmava: “era normal, na época da ditadura argentina, os militares darem um certo chá para certos terroristas. Depois do primeiro gole morriam asfixiados. E sumiam”.

Basta um pouco de senso crítico para ver que o causo não tem fundamento histórico nenhum. Não existe mais nenhuma fonte que mencione o acontecimento, além da suposta citação de segunda mão. Para além disso, a Ditadura Argentina ocorreu entre os anos de 1976 e 1983. Pesquisando na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional brasileira, encontramos menções a expressão “tomar chá de sumiço” em veículos jornalísticos desde 1930 – muito antes do fato histórico relacionado.

O chá, físico, que faz as pessoas desaparecerem provavelmente nunca existiu. Da mesma forma como o notório “Chá da Meia-Noite”, que diziam ser uma bebida envenenada que as enfermeiras ofereciam aos doentes terminais para liberar os leitos durante a pandemia da Gripe Espanhola no início do século XX. Todavia, a relação entre sumiços escusos e ditadura é inevitável. Tanto que, em 2011, a artista plástica brasileira Lorena D’arc produziu uma instalação chamada, justamente, “chá de sumiço”. Trata-se de 379 porcelanas dispostas lado a lado. Uma para cada morto ou desparecido político durante a ditadura civil-militar.

 

CHÁ DE SUMIÇO

Tipo: Saberes

Elemento

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Suryara Bernardi

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Fontes

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