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Berrador

Ilustração em preto, branco e cinza, em tons escuros. Mostrando uma criatura musculosa e assutadora dando um grito, a criatura está com uma enorme boca aberta e olhos fechados
Arte de: Marcel Bartholo

BERRADOR

Relatório

O Bradador, também chamado Berrador ou Gritador consiste em uma visagem cuja voz se ouve ecoando pela noite. Sua forma é incerta, como acontece com muitos mitos também ligados ao ato de gritar pelo mundo afora. Afinal, a imaterialidade da voz ultrapassa qualquer necessidade de uma fixação clara sobre a aparência destas criaturas.

Em Portugal, Luís da Câmara Cascudo nos recorda que a literatura registra uma “Zorra Berradora”; que pela etimologia muitas vezes é descrita como raposa (“zorro”), mas em outras versões é uma alma penada com muitos pecados em vida. Quem comete escuta seu grito à noite e não o respeita é duramente perseguido e castigado.

Na Argentina, existe o Kaparillo – cujo nome vem do Quichua e significa “gritar”. Igualmente sem forma, o monstro é por vezes descrito como uma “bola de carne” que imita o grito de humanos e animais para, com esse estratagema, se aproximar de suas vítimas quando o chefe da família está fora.

Por sua vez, nosso Bradador tem várias versões. Alguns dizem que era um vaqueiro que saiu para trabalhar durante a Sexta-Feira Santa e foi amaldiçoado. Seus gritos são sua tentativa de aboiar a gadaria invisível.

Alguns registros sugerem que o Bradador seja o espírito de um Corpo-Seco, ou seja, de uma pessoa que cometeu tantos pecados em vida que teve o corpo recusado pela terra. Esta versão corrobora com a versão portuguesa da expiação dos pecados.

Mas como funcionaria essa dualidade corpo-seco/bradador? A tradição parece apontar que o corpo-seco volta ao mundo apenas para cometer maldades, incapaz de lamentar seus atos anteriores. Já o Bradador vive em contrição. Por isso ele berra: chora por todos os males que causou em vida e que agora o fazem cumprir pena na morte.

BERRADOR
Pontos de Força: 
Pontos de Vida: 

Tipo: Visagem

Elemento: Vento

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Marcel Bartholo

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Fontes

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Bicho Tutu

Ilustração em preto e branco do Bicho Tutu, um monstro de várias cabeças, algumas humanas, outras animalescas. Ele possui pêlos e rabo e caminha em um gramado em um cenário noturno, com a lua cheia ao fundo
Arte de: Al Stefano

BICHO TUTU

Relatório

Tutu-Marambá, não volte mas cá
Que mãe da criança lhe manda matar

Tutu-Marambá, desça do telhado
Deixe meu filhinho dormir sossegado
Jacaré tutu, Jacaré mandu,
Tutu vai s’embora, deixe em paz o meu amor

Tutu-Marambá, fuja do telhado
Que o pai da criança está acordado

Tutu-Marambá, vá embora pro além
Que a mãe da criança vela seu neném
– Veríssimo de Melo, 1869

Tutu, Bicho-Tutu, Tutu-Marambá são apenas alguns dos nomes e derivações deste Papão que chega ao Brasil a partir da tradição africana. Não por acaso, Câmara Cascudo sugere que a etimologia do seu nome veria, justamente, do idioma Quimbundo. Tutu viria de Quitutu, termo que significa “comer”, “aquilo que come”. Seria a mesma raiz que forma, por exemplo, a palavra “quitute”.

Pertencente ao chamado “ciclo da angústia infantil”, o tutu não tem uma forma definida. Assume, assim, a imagem de todos os medos possíveis para uma criança. Pode ser um velho, pode ser um monstro, pode ser até mesmo um porco – confundindo-se com o animal chamado “caititu”.

Cabe apontar, todavia, que a ligação do monstro com a forma muitas vezes se dá meramente a partir da sílaba tônica – como em Tutu, Caititu, a coruja Murucututu (que assume, assim, lugares de papão) e até “Carrapatú”. Em Pernambuco, por exemplo, Gilberto Freyre recupera uma antiga cantiga que assustava as criancinhas. Entre as variações, encontramos: “Calai, meninos, Calai /Ai vem Mamãe Tutu, / lá no mato tem um bicho / chamado carrapatú”.

Existia um monstro brasileiro chamado Carrapatú? Provavelmente não, era apenas uma ligação construída pela rima. Ainda assim, algumas pessoas vão falar sobre um “Bicho Carrapato”, que aparece na forma de um negro velho com um surrão nas costas. De onde vem isso?

O imaginário dos papões se mistura no Brasil, fazendo com que variações da mesma cantiga sejam utilizadas para se referir genericamente ao Bicho Papão, à Cuca, à Coca portuguesa ou aos Tutus. Aluísio Almeida, em 1945, registra versões como: “Tutu Marambá, não venha mais cá. Que o pai do menino te manda malhar” (ou matar), mas também versos que terminam com “Deixa o menino dormir sossegado” ou “Papai foi à roça, mamãe no cafezal”.

Espreitar em cima do telhado é uma prática comum aos papões, por isso que muitas cantigas são entoadas para fazê-los descer. Quando temos uma visagem relacionada ao imaginário do negro, no entanto, é muito comum que o próprio mito seja racializado. Isto é, o racismo estrutural faz com que as pessoas negras tornem-se figuras de medo. “Tutu é um negro velho, corimba ou coroca, que envelheceu na cozinha”, escreve Almeida. Os adjetivos que ele escolhe podem ser entendidos como “feiticeiro” ou “caduco”. Cascudo recupera uma quadrinha de Minas Gerais em que se cantava: “Olha o negro velho em cima do telhado, Ele está dizendo que quer o menino assado”.

BICHO TUTU
Pontos de Força: 
Pontos de Vida: 

Tipo: Desafio

Elemento: Água

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Al Stefano

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Fontes

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Boi da Cara Preta

Ilustração mostrando de frente um boi escuro e assustador, ele está abrindo a boca com uma luz flamenjante saindo da boca e dos olhos. Ele tem chifres cinzas e ameaçadores. Um fundo escuro com iluminação ao redor do boi.
Arte de: Waldeir Brito e André Vazzios

BOI DA CARA PRETA

Relatório

O Boi da Cara Preta é um personagem das cantigas populares que pertence ao ciclo da angústia infantil. Ele não possui forma definida nem uma narrativa que o oriente. Todavia, justamente por estar incrustado nas memórias mais antigas de tantos brasileiros, sua figura se cristaliza no imaginário.

Tudo o que é preciso saber sobre ele está inscrito na sua cantiga: “Boi, boi, boi. Boi da cara preta. Pega esse menino que tem medo de careta”. Em algumas versões, a música tem uma continuação: “Não, não, não. Não o coitadinho. Ele está chorando porque é bem bonitinho”.

A música se insere em um braço das tradições populares conhecidas como as “cantigas de acalanto”, que são aquelas utilizadas para embalar as crianças ao dormir. Sendo este o caso, qual seria a lógica de cantar algo para assustar as crianças ao invés de acalmá-las? Oras, é que o que vai embalar o sono é o ritmo da voz, o movimento dos braços e, é claro, a presença e confiança da figura responsável por botar as crianças na cama.

Para além disso, o medo simbolizado é também uma ótima oportunidade para a criança experienciar, desde cedo, a distinção entre o que é dito e o que é falado. Nenhum pai quer verdadeiramente entregar seu filho para o Boi, por mais malcriado e careteiro que ele seja, assim como ninguém quer que a Cuca leve aquele que não dorme cedo.

Os bois na tradição brasileira
Podemos tomar um tempo, agora, para pensar em como o boi é um personagem quase onipresente na cultura popular brasileira. Está presente em nossos folguedos, está presente em nossas visagens, em nossas trovinhas e em nossos contos populares. Nomes de bois ficaram famosos pelas narrativas tradicionais, ao ponto de, ainda hoje, serem lembrados.

É o caso do Boi-Espácio − registrado em 1885, por Sílvio Romero −, o qual era tão grande, que seus miolos alimentaram uma cidade inteira e ainda sobrou para a cachorrada. Causos de bois que são os mais queridos do patrão e que são mortos a pedido de uma bela mulher dão origem, em alguns lugares, ao enredo do Bumba Meu Boi. Em outros, vão ser contados como a história do Boi Leição.

Disputas entre um vaqueiro e um boi ou touro encantado também são muito conhecidas, mostrando a tenacidade do homem diante da natureza indomada. No Rio Grande do Sul, uma das mais conhecidas é a história do Boi das Aspas de Ouro – sendo que aspas é uma das formas de se referir aos chifres do animal.

Podemos lembrar ainda dos bois que fizeram sucesso na música popular brasileira. A “Moda do Boi Amarelinho” foi a primeira música que Inezita Barroso tocou na viola, quando ainda tinha 10 anos de idade. Ela começa assim: “Eu sou aquele boizinho / Que nasceu no mês de maio / Desde que nasci no mundo / Foi só pra sofrê trabaio”.

A relação entre o ser humano e o boi, na música, muitas vezes é de aproximação e de reconhecimento. Como metáfora para dois trabalhadores que, depois de velhos, já não servem mais para o patrão ou a família. Músicas que fazem sempre o peão se emocionar são os clássicos “Couro de Boi”, de Palmeira e Teddy Vieira, e “Herói sem Medalha”, composta por Sulino.

O boi é essa representação da natureza que, sob o controle humano, permite o arar da terra, a alimentação e reprodução. Descontrolada, esta natureza se torna o boi indomado, pronto para perseguir o peão. Ou, em nosso caso, o boi-fantasma, que atravessa nossos sonhos em carreira, para nos perseguir.

BOI DA CARA PRETA
Pontos de Força: 3
Pontos de Vida: 3

Tipo: Visagem
Elemento: Terra

Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você deve escolher uma carta Gente, em campo, para enviar para o Beleléu.

Efeito: Quebranto

Citação: "Não, não, não. Não o coitadinho. Ele está chorando porque é bem bonitinho."

Artista: Waldeir Brito

Carta do Boi da Cara Preta com ilustração mostrando de frente um boi escuro e assustador, ele está abrindo a boca com uma luz flamenjante saindo da boca e dos olhos. Ele tem chifres cinzas e ameaçadores. Um fundo escuro com iluminação ao redor do boi.

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Fontes

– CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. São Paulo: Global, 2015.
– ROMERO, Silvio. Contos Populares do Brasil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1885.

Boitatá

Ilustração de uma cobra gigantesca enrolada sobre si em meio a floresta, com fogo na cabeça e na boca, com a língua para fora, e muitos olhos por seu corpo.
Arte de: Anderson Awvas e André Vazzios

BOITATÁ

Relatório

Aí o pessoal na praia quando a turma viajava de canoa pra Paranaguá diz que tinha muito baitatá. Baitatá diz que ele saía da parte do mangue assim da beira do mangue, lá perto de Paranaguá, diz que saía aquela tocha de fogo e vinha assim pingando fogo, né, e passava por perto do canoeiro, jogando aquela faísca de fogo, mas não… não prejudicava, né, só assustava, tinha que ter muita coragem pra resistir.
– Registro colhido por Vanderci Aguilera

Dizem que o Boitatá é um dos mitos mais antigos do imaginário brasileiro. Será mesmo? O fundamento para isso é a menção na carta escrita pelo padre José de Anchieta, em 1560. Nela, ele escreve: “Há também outros (fantasmas), máxime nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados Baetatá, que quer dizer ‘coisa de fogo’ […]. Não se vê outra coisa senão facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras: o que seja isto, ainda não se sabe com certeza”.

Um fantasma, um facho cintilante, uma forma indefinida. Afinal, o nome registrado vem do Tupi, Mbae-tatá, e significa “coisa de fogo”. Sua derivação que aparece posteriormente é a Mboi-tatá, “cobra de fogo”. A oralidade, lembramos, é marcada pela inexistência de fixação. Não existe certo e errado, existe a forma como o povo escuta e se apropria. É por isso que a “coisa” dá origem à “cobra”, oferecendo forma de serpente para o fantasma luminoso. E é também por isso que temos registros de Boitatás com forma bovina, já fruto da expansão colonizadora.

Em comum, todas as variantes têm como elemento marcante o fogo-fátuo – fenômeno que decorre da decomposição da matéria orgânica em regiões úmidas, como pântanos, charnecas, praias e mesmo cemitérios. Os gases resultantes do corpo decomposto geram uma substância fluorescente que brilha sob a luz da lua, como se fosse uma chama fantasma. É esta a inspiração para mitos e lendas ao redor de todo o mundo, como will-o’-the-wisp, jack o’ lantern e inúmeros outros.

No Brasil, encontramos as variedades mais próximas. Boitatá acaba sendo ligado aos campos e às florestas, assim como o Batatão – o qual ensina o caminho errado a quem o segue e ainda persegue os que dele fogem. Biatatá e João Galafuz estão relacionados a fantasmas do mar, lembrando mais o Baetatá do século XVI. Alguns dizem que os boitatás aparecem nas proximidades das casas das mulheres adúlteras ou dos lugares onde se cometeram crimes.

Há ainda outros mitos semelhantes, como o Fogo Corredor ou Fogo de Compadre e da Comadre, que são duas bolas de fogo dançarinas – as almas de compadres que se relacionaram amorosamente. Isso para não falar da Mãe do Ouro e das inúmeras lendas de chamas que indicam tesouros enterrados.

Uma das poucas narrativas que tentam explicar a origem do Boitatá foi registrada no Rio Grande do Sul. A história fala de uma grande serpente, a Boiaçu, que sobreviveu ao dilúvio bíblico. Quando o monstro saiu, aplacou sua fome devorando os olhos de todos os animais que haviam morrido afogados. Como os olhos ainda carregavam um pouco da centelha da alma de cada criatura, isso fez com que o corpo da serpente se acendesse de dentro para fora, dando força ao Boitatá.

Para evitar a perseguição do Boitatá serpente, é preciso jogar uma corda presa em laço sobre os ombros (mas sem olhar para trás). Outras versões vão equipará-lo ao Fogo de Compadre e da Comadre, sendo resultado do castigo de almas penitentes. Para afugentá-lo, é preciso a ameaça: “Fulano, vai buscar a corda do sino para prender o Boitatá!”.

BOITATÁ
Pontos de Força: 5
Pontos de Vida: 2

Tipo: Visagem
Elemento: Fogo

Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você deve olhar as cartas na Mão do seu oponente e escolher uma para enviar para o Beleléu.

Efeito: Quebranto

Citação: "Boitatá é uma cobra? Eu jurava que era um boi!"

Artista: Anderson Awvas

Carta do Boitatá mostrando a ilustração de uma cobra gigantesca enrolada sobre si em meio a floresta, com fogo na cabeça e na boca, com a língua para fora, e muitos olhos por seu corpo.

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Fontes

– AGUILERA, Vanderci. O Boitatá existe realmente?. Revista Boitatá. v. 1, 2006. p. 1-15.
– CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. São Paulo: Global, 2012.
– NORTE, João do. As lendas do Batatão. Correio Paulistano, 29 set. 1921.

Boitatá-Boi

Arte de: Junior Araújo

BOITATÁ-BOI

Relatório

A palavra Boitatá é um termo de raiz Tupi, que vem da junção de M’boi (cobra) ou Mbae (coisa) e Tatá, que significa fogo. Por isso, desde seu primeiro registro em 1560, fala-se de uma cobra de fogo que persegue os transeuntes. Um fogo-fátuo em terras brasileiras.

No entanto, estamos falando de oralidade. Narrativas que são passadas pela tradição e que se espalham no boca a boca. Para aqueles que conheciam o Tupi, ou ao menos o Nheengatu (a língua geral, que misturava português com idiomas indígenas), a presença da serpente era evidente. No entanto, para quem não tinha esse domínio, espalhava-se a crença de que era um boi, não uma cobra, que assolava os viventes.

Percebemos isso especialmente em comunidades açorianas, como em Florianópolis, em que o folclorista Franklin Cascaes encontra bois e novilhos de fogo na sua coleta de tradições populares. Entre populações caiçaras, em São Paulo, Oswaldo Xidieh também faz registros semelhantes:

– “Existe um boi que não é coisa dos vivos; é um boi assombração que em certos dias da semana aparece à beira das estradas para assustar e atormentar as pessoas que por ali passaram. É grande e escuro e traz em cada chifre uma tocha de fogo que, às vezes, viram numa só e grande labareda. Seus urros são feios e, quando corre, seus cascos batem no chão como se fossem de ferro. Costuma ficar escondido perto do cemitério e gosta de aparecer nos dias de festa, altas horas da noite, para assombrar os retardatários que regressam às suas casas”.

No dia 6 de janeiro de 1947, quando assistimos à festa de São Benedito naquele bairro, tivemos a oportunidade de verificar o horror que a aparição provoca entre os caiçaras. Assim que terminou a festa, as famílias regressaram aos seus ranchos. Subitamente, em tropel e gritaria, uma delas voltou espavorida pedindo pouso na vila. Depois que contaram o que lhe havia acontecido, não lhe faltou pousada: – “Logo na saída da vila, um pouco antes do cemitério, o boi tinha aparecido, bufando, escavando o chão com suas patas de ferro e soltando línguas de fogo pelos chifres… e não tiveram coragem de continuar”.

A uma pergunta nossa, responderam: – “De certo que é um boi e dos bem grandes e escuros. Não mata ninguém, mas persegue a gente até tirar o fôlego”.

– “Mas é mesmo um bicho?” – Insistimos

– “Sim, é um bicho boi, por isso tem o nome de boi de fogo”.

BOITATÁ-BOI
Pontos de Força: 
Pontos de Vida: 

Tipo: 

Elemento: Fogo

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Junior Aráujo

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Fontes

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Boneco de Olinda

Ilustração em tons de cinza de dois bonecos de Olinda, o da frente com chapéu, paletó e gravata borboleta, diversas pessoas caminham ao redor do boneco com expressões felizes. No céu há nuvens e a luz do sol fica exatamente atrás do boneco mais à frente
Arte de: Doug Retícolo

BONECO DE OLINDA

Relatório

O termo “boneco de Olinda” refere-se aos famosos bonecos gigantes utilizados nas festividades de carnaval na cidade de Olinda, em Pernambuco. Esses bonecos são grandes e coloridos, muitas vezes representando figuras populares, personalidades conhecidas, personagens históricos ou fictícios. Hoje, eles atingem em média 4 metros de altura e pesam cerca de 20 quilos.

Apesar de Olinda ter se tornado cidade referência para esta prática cultural, a construção de bonecos gigantes (ou mesmo parcialmente gigantes, como os cabeçudos) é uma constante pelo mundo todo. A tradição chega até nós por influência portuguesa, onde há registro do uso de “Gigantones” desde o século XIII, especialmente em festas de cunho religioso como Corpus Christi e dias santos.

Em Pernambuco, o primeiro boneco gigante que se tem registro foi construído em 1919 na cidade de Belém do São Francisco. Guimercindo Pires criou o boneco, batizado Zé Pereira, inspirado pelo padre belga Norberto Phallampin. O sacerdote utilizava bonecos gigantes para chamar a atenção dos fiéis e assim converter mais deles ao cristianismo.

Na época, e durante muito tempo, os bonecos eram feitos com corpo de madeira e cabeça de papel machê. Hoje em dia, o material mais utilizado é a fibra de vidro.

Na cidade de Olinda, a brincadeira teve início apenas em fevereiro de 1932, com a criação do distinto boneco, com sorriso amplo, dente de ouro, cavanhaque marcado, fraque, gravata e cartola. É o notório “Homem da Meia Noite”, que tornou-se símbolo do carnaval de Olinda e foi registrado patrimônio imaterial de Pernambuco em 2006.

O grupo de festeiros foi criado como dissidência de uma troça que já existia na cidade. Como inspiração para a criação do personagem, basearam-se na cinessérie chamada, justamente, “O Homem da Meia Noite”, dirigida por James W. Horne, em 18 capítulos. A obra estreou nos Estados Unidos em 1919, mas só começou a chegar no Brasil em 1927, marcando presença nos cinemas locais.

Depois do boneco pioneiro, foram criados os outros membros de sua família: a Mulher do Meio Dia e o Menino da Tarde. O artista plástico Silvio Botelho, criador do “Menino”, é tido como um dos grandes responsáveis por popularizar a brincadeira, criando o desfile de bonecos que se tornou um marco de toda Terça-Feira Gorda.

Atualmente, o Clube Carnavalesco de Alegoria e Crítica O Homem da Meia-Noite hoje é comandado por Adolpho Alves da Silva. Ele é filho de um dos criadores da tradição, Tárcio Botelho e Silva. Para a família, o Homem é um calunga; representação ancestral de entidades, imiscuída pela fé do candomblé que, assim como no caso da Dama do Paço no Maracatu, concede a proteção para o grupo brincante.

BONECO DE OLINDA

Tipo: Saberes

Elemento

Habilidade:

Efeito: 

Citação:

Artista: Douglas Reticolo

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Fontes

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Boto Cor de Rosa

Ilustração mostrando um homem sorrindo, de pele levemente rosada, ele veste roupas brancas, uma bermuda, uma camisa aberta com mangas enroladas, e um chapéu com faixa rosa. Ele está deitado em uma rede, segurando uma latinha de bebida. Está em um cenário de madeira com uma cerca ao fundo, mais a fundo a paisagem de um rio em uma noite com iluminação roxa.
Arte de: Nilberto Jorge

BOTO COR DE ROSA

Relatório

“[…] já houve causo por aqui de até mulher casada engravidar de boto. E pra completar ela foi no cartório para registrar o filho com o nome do pai, o Boto, mas o Seu Raimundo, o oficial do cartório, não registrou, porque ele disse que precisava da presença do pai”
– Depoimento de Vanderval dos Santos, no livro “Cultura cabocla-ribeirinha”, de Therezinha Fraxe, 2004

O mito do Boto sedutor é provavelmente um dos mais conhecidos da cultura popular brasileira. Ainda assim, de uma perspectiva histórica, ele não é dos mais ancestrais. Quando acompanhamos as anotações dos cronistas do Brasil Colônia, notamos que as primeiras menções de um boto capaz de assumir feições humanas datam apenas do início do século XIX. O animal, no entanto, há muito já inspirava outras narrativas entre os povos indígenas. Ainda assim, aquela que provavelmente você mais conhece circula pelo nosso país há pouco mais de 200 anos.

Nessa época, quando a narrativa que conhecemos ainda estava se estabelecendo, a própria forma humana do animal ainda era incerta. Nos registros do naturalista e explorador inglês Henry Walter Bates, por exemplo, falava-se que o Boto virava uma bela mulher, a qual prendia os homens entre suas pernas para, logo em seguida, afogá-los no fundo do rio.

Nos dias de hoje, a história mais conhecida é a de que o Boto-Vermelho (nome científico: Inia geoffrensis) assume a forma de um homem. Sim, Vermelho é o modo como ele é conhecido nas comunidades ribeirinhas. Boto-Cor-de-Rosa, costuma-se dizer, é o nome midiático que o animal recebeu depois que os programas de TV voltaram seus olhos para a Amazônia. E, sobre o Vermelho, há várias versões a respeito de sua aparência, mas, normalmente, ele é descrito como um homem branco, com roupas claras e elegantes – acompanhado de um chapéu que não tira, por nada, da cabeça.

O acessório mascara o único detalhe de sua anatomia que ele não consegue esconder: o espiráculo. Este é o nome daquele respirador no topo da cabeça que todo golfinho, baleia e, é claro, boto têm. É isso que revela sua verdadeira natureza animal. Em algumas versões, cada uma das peças de roupa do Boto é feita de um peixe do rio, transformado por seus poderes ilusórios. O chapéu é uma arraia, os sapatos são peixes cascudos e assim por diante. Quando o encantado porventura morre em terra firme, a forma animal logo toma conta, revelando a verdadeira origem de todos.

O Boto ser descrito como homem branco tem motivo. Ele é a representação, no imaginário, do estrangeiro; da pessoa que vem de fora da comunidade, com roupas bonitas e palavras doces. É aí, no entanto, que mora o perigo. Afinal, depois de seduzir seu objeto de interesse e conseguir o que quer, o Boto desaparece sem olhar para trás. Não é por acaso que são notórias as figuras dos filhos do Boto: crianças sem pai, metáforas para o abandono.

Como o imaginário popular é atravessado por variações, é possível encontrar algumas versões de botos que se transformam em mulher, e outros que seduzem igualmente homens e mulheres e os levam para sua terra, no fundo das águas. É mais um entrecruzamento com o mito da Iara e da Mãe-d’Água.

Recentemente, tem havido algumas interpretações apressadas de que o mito do Boto teria sido inventado para ocultar situações de abuso infantil nas comunidades ribeirinhas. Quanto a isso, é preciso cuidado. É possível que, em alguma situação, isso realmente tenha acontecido, mas o mito precede suas deturpações – e não o contrário. Se fosse apenas questão de inventar um culpado, por que o Boto? Por que justamente o Boto?

Veja, por exemplo: desde a Antiguidade, os golfinhos já eram tidos como animais ligados à Afrodite, a deusa do amor. Por quê? E como isso se liga aos nossos botos namoradores? O imaginário constrói esta explicação que une observação da natureza, biologia e imaginação. Os pesquisadores apontam para duas coisas: a primeira é seu corpo comprido, com cabeça arredondada e um respirador bem no topo, de onde ejeta água de maneira sugestiva. A segunda é o movimento que o animal faz, subindo e descendo, lembrando a rítmica sexual.

O professor Jesus Paes Loureiro conta uma narrativa de origem indígena, mas infelizmente não aponta de qual etnia ela pertenceria. Na história, o primeiro boto seria o filho de uma indígena Tapuia* com uma anta. Por isso, o órgão sexual do Boto é tão viril e utilizado ainda hoje em feitiços e simpatias.

*Tapuia era um termo utilizado para se referir a indígenas que não falavam o Tupi antigo. Não se refere a um povo específico.

BOTO COR DE ROSA
Pontos de Força: 2
Pontos de Vida: 3

Tipo: Visagem
Elemento: Água

Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você deve tirar Cara ou Coroa. Se acertar, tome controle de uma carta Gente, do oponente, até o Desafio atual ser vencido.

Efeito: Encanto

Citação: "Foi boto, sinhá. Foi boto, sinhô. Que veio tentar e a moça levou..."

Artista: Nilberto Jorge

Carta do Boto Cor de Rosa com ilustração mostrando um homem sorrindo, de pele levemente rosada, ele veste roupas brancas, uma bermuda, uma camisa aberta com mangas enroladas, e um chapéu com faixa rosa. Ele está deitado em uma rede, segurando uma latinha de bebida. Está em um cenário de madeira com uma cerca ao fundo, mais a fundo a paisagem de um rio em uma noite com iluminação roxa.

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Fontes

– BATES, Henry Walter. The naturalist on the river amazons. New York: J M Dent & Sons, 1864.
– CARVALHO, José. O matuto cearense e o caboclo do Pará. Belém: Officinas Graphicas, 1930.
– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012.
– FARES, Josse. O boto, um Dândi das águas amazônicas. Moara – Revista dos Cursos de Pós-Graduação. Belém, n. 5, p. 46-63, 1996.
– FRAXE, Therezinha de Jesus. Cultura cabocla-ribeirinha: mitos, lendas e transculturalidade. São Paulo: Annablume, 2004.
– SIMÕES, Maria do Socorro; Golder, Christophe. Belém conta. Belém: UFPA, 1995a.
– SIMÕES, Maria do Socorro; Golder, Christophe. Santarém conta. Belém: UFPA, 1995b.

Boto Tucuxi

Ilustração de um boto tucuxi nadando por dentro de uma onda.
Arte de: Nilberto Jorge

BOTO TUCUXI

Relatório

“Me arresponde, boto preto
Quem te deu esse piché?
Foi limo de maresia
Ou inhaca de mulher?”
Esse Rio é minha Rua, de Ruy Barata

Além do Boto-Vermelho, nas águas do Rio Amazonas encontramos outro animal encantado: o Boto-Preto − também chamado de Boto-Tucuxi (Sotalia Fluviatilis). Tradicionalmente, não são conhecidas histórias de que este animal assuma forma humana, e muito menos de que cometeria qualquer tipo de violência contra o gênero oposto. No entanto, isso não significa que inexistam narrativas sobre ele em nossa cultura popular.

O Tucuxi é tido como um benfeitor, e dizem que é comum ouvir histórias de que este boto empurra os náufragos para a margem, salvando-os de um destino trágico. É um animal benquisto pelos pescadores no Amazonas, que sempre valorizam sua presença às voltas do barco como um sinal de boa sorte. Um amigo vigilante a olhar por sua segurança.

Sairé
Esta aparente oposição entre os dois animais visagentos inspira uma notória disputa na Amazônia paraense. Em Alter do Chão, município próximo a Santarém (PA), ocorre, no mês de setembro, desde 1999, o Festival dos Botos. O evento acontece durante o Sairé, uma festividade que retoma uma manifestação centenária introduzida pelos jesuítas na região amazônica, ainda no século XVII.

Com o objetivo de facilitar os trabalhos de catequese, os religiosos criaram uma manifestação que incorpora elementos de festas folclóricas portuguesas com rito religioso e orações católicas em nheengatu. O ponto alto era a condução do objeto que dava nome à festa: o Sairé. Um semicírculo feito de cipós e enfeitado com algodões e flores. Praticamente um andor.

Com o tempo, outros elementos foram sendo incorporados à festa pelo povo, como jogos e bebidas, o que fez o Sairé ser proibido, em 1943, por padres franciscanos. Apenas 30 anos depois, a festividade foi reativada em Alter do Chão, mas já com outras características. Passa a receber muito mais intervenção do poder público e da ideia de valorização do turismo.

É assim que o Festival dos Botos é incorporado ao Sairé no fim dos anos 1990, mimetizando muito da estrutura do já consolidado Festival Folclórico de Parintins, onde encontramos a disputa histórica entre os bois Garantido e Caprichoso. Vale pontuar: a presença dos Botos na festa do Sairé, ainda hoje, gera polêmica.

De qualquer maneira a festa continua, e as agremiações do Boto-Preto e do Boto-Vermelho disputam arduamente a vitória, ano após ano. Com a vitória do Boto Preto em 2022, os grupos estão empatados: 11 vitórias para cada um, desde 1999. O Festival dos Botos é composto por uma série de etapas que os grupos devem contemplar em suas alegorias, encenando a conquista de uma indígena pelo boto namorador. Diferentemente da tradição, na versão festiva retratada no festival, o Tucuxi assume forma humana e também seduz mulheres.

Cobra Sofia
Uma derivação mítica das histórias do Boto-Tucuxi na Amazônia acontece no Amapá, na Ilha de Santana, onde a animal encantado assume uma outra figura: a de pai de uma gigantesca serpente adormecida, que estaria embaixo da cidade, a Cobra Sofia.

Sofia faz parte do Ciclo de Cobras-Grandes que permeia toda a região amazônica, onde, para além do mito principal de uma cobra-grande que representa o próprio Rio Amazonas, temos lendas regionais que incorporam descrições e nomes específicos a esta forma narrativa. É o caso de Rosalina, a Cobra-Grande do Rio Jatuíra.

Na história que circula por Santana, dizem que o Tucuxi se apaixonou por uma indígena chamada Icorã. Para seduzi-la, não assumiu a forma humana como seu parente das águas. Tomou a forma de um lindo cisne e, como ave, ele a engravidou. Quando o bebê nasceu, a mulher jogou a criança no rio, para que ninguém soubesse do ocorrido. O boto usou seus poderes e transformou o bebê em uma cobra, que foi crescendo, crescendo, até tomar as proporções gigantescas de hoje. Dizem que, quando há tremores na cidade, é a Cobra Sofia que está se mexendo embaixo da terra.

BOTO TUCUXI
Pontos de Força: 3
Pontos de Vida: 3

Tipo: Visagem
Elemento: Água

Habilidade:
Quando esta carta é invocada, você deve escolher uma carta Gente, do Beleléu, e invocá-la diretamente no campo.

Efeito: Resgate

Citação: "Tu é leso, é? Esse é o boto-preto. Ele não vira gente, não!"

Artista: Nilberto Jorge

Carta do Boto Tucuxi, mostrando uma ilustração de um boto tucuxi nadando por dentro de uma onda.

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Fontes

– CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012.
– MORAES, Thaissa Naiara Nonato. O (des)encanto da Sofia: a cobra-grande como mito e crítica social na cidade de Santana. Orientador: José Maria da Silva. 2016. 81 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Sociais) – Departamento de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Amapá, Macapá, 2016.
– SIMÕES, Maria do Socorro; Golder, Christophe. Belém conta. Belém: UFPA, 1995a.
– SIMÕES, Maria do Socorro; Golder, Christophe. Santarém conta. Belém: UFPA, 1995b.
– SLATER, Candace. A festa do boto: transformação e desencanto na imaginação amazônica. Rio de Janeiro: Funarte, 2001.

Caboclo D’Água

Ilustração de um ser humanóide peludo e cinza com feições animalescas e anfibias. Debaixo da água, nadando para a superficie, com um branço esticado e o rosto fora da água. Alguns peixes nadam ao seu redor.
Arte de: Roberta Cirne

CABOCLO D'ÁGUA

Relatório

O Caboclo-d’Água é uma criatura muito comum pelas águas do Brasil, sendo, por vezes, também batizado de Negro-d’Água ou Compadre d’Água. Trata-se de uma visagem das águas que concentra inúmeras formas diferentes.

Existem relatos que vão dizê-lo gigante, outros, quase um anão. Dizem que tem a pele escura, cor de cobre ou peludo feito lontra. Algo muito frequente é a ideia de que possui membranas entre os dedos, como as de um pato, para facilitar os movimentos na água. Seu couro é descrito como sendo tão grosso, que é um desperdício atirar contra ele; nenhuma bala lhe atravessa.

Em algumas versões, possui um único olho, tornando-se mais violento e animalesco. Em outras, é parceiro do ribeirinho, podendo estabelecer com ele uma relação legítima de amizade. Basta, para isso, que se ofereçam os devidos presentes sempre que se vai navegar: especialmente cachaça e fumo de rolo.

Aqueles que não desejam a aproximação de um Caboclo, no entanto, encontram também suas alternativas. Cravar uma faca na proa do barco é uma estratégia tradicional para afastar entes malfazejos. A lâmina, de preferência virgem, é conhecida nas simpatias como o objeto da separação. Separa certo e errado, bem e mal. E o reflexo é o que mantém aquilo que é indesejado longe.

Outra das técnicas consiste em pintar uma cruz ou sinal de Salomão nas pás dos remos. Alternativa bastante utilizada durante o século XIX, em todo o médio São Francisco, foi o uso de figuras de proa; as carrancas. Isso vai impedir o ataque dos Caboclos-d’Água, que vão, no máximo, acompanhar a embarcação, nadando bem à distância do barco.

Uma das cidades em que sua presença é mais notória é Barra Mansa (MG), onde possui até uma estátua. Um grupo da região ganhou mídia ao oferecer, durante vários anos, uma recompensa em dinheiro para quem apresentasse uma foto legítima do Caboclo-d’Água. Trata-se da Associação dos Caçadores de Assombração de Mariana (ACAM), iniciativa do jornalista Leandro Henrique dos Santos.

Na versão narrada pela associação, o Caboclo-d’Água possui a pele esverdeada e escamosa, como a de um réptil. Entre os relatos de ataques, o mais famoso fala sobre um rapaz que teria tido os testículos arrancados pela criatura. A estratégia do grupo é utilizar do insólito para conquistar repercussão midiática e atrair interesse para as cidades e a cultura de Minas Gerais.

CABOCLO D'ÁGUA
Pontos de Força: 3
Pontos de Vida: 3

Tipo: Visagem
Elemento: Água

Habilidade:
Se você enviar uma carta Saberes para o Beleléu, poderá invocar Caboclo mesmo já tendo invocado outra carta neste turno.

Efeito: Dobradinha

Citação: "Na terra, um gole vai para o santo. No rio, deixo um para o compadre da água."

Artista: Roberta Cirne

Carta do Caboclo D'água, com ilustração de um ser humanóide peludo e cinza com feições animalescas e anfibias. Debaixo da água, nadando para a superficie, com um branço esticado e o rosto fora da água. Alguns peixes nadam ao seu redor.

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Fontes

– LIMA, Noraldino. No vale das Maravilhas. Belo Horizonte: Officinas Gradaphica da Imprensa Official, 1925.
– LINS, Wilson. O médio São Francisco: uma sociedade de pastores guerreiros. 3. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1983.
– MENDES, Simone dos Santos. A lenda do caboclo d’água: uma trajetória enunciativa folkcomunicativa. Revista Caletroscópio, v. 1, n. 1, 2012.
– NEVES, Zanoni. Os remeiros do São Francisco na literatura. Revista de Antropologia, [s. l.], v. 46, n. 1, p. 155-210, 2003.